Por Mansour Salum.
O épico de ficção científica e space opera de Frank Herbert, trazido para as telonas pelas lentes de Dennis Villeneuve e interpretação de Timothée Chalamet tomou a internet desde o anúncio de “Duna: Parte 3”, que adapta os eventos de “Messias de Duna”. As adaptações vencedoras do Oscar e outras premiações entregam à Geração Z e aos Millennials uma narrativa arrebatadora, bela, bem escrita, fiel ao material original, mostrando o amor dos fãs pela figura messiânica do Lisan Al-Gaib, “A Voz do Mundo Exterior”, na mesma medida em que tenta manter o teor crítico do autor às lideranças carismáticas e aos discursos radicais. Tudo isso com a trilha sonora do genial Hans Zimmer. Porém, se faz necessário olhar para além dessas nuances artísticas e enxergar as referências ao mundo real, sobretudo nesse momento em que pipocam conflitos armados na Ásia Ocidental e à instabilidade do imperialismo estadunidense.
No Ocidente pós-moderno e neoliberal, a hegemonia do capitalismo no pós-Guerra Fria somente se viu em ameaça existencial em um momento da história contemporânea: no ataque às Torres Gêmeas, ao Pentágono e à falha tentativa de destruição da Casa Branca no fatídico 11 de setembro de 2001, atribuído ao grupo jihadista islâmico sunita/wahabbi “Al-Qaeda”. Faz-se necessário compreender que este grupo foi criado, treinado e financiado pelos EUA e seus aliados para combater o governo revolucionário socialista afegão e à intervenção soviética direta no país. Seu fundador, Osama Bin Laden, um herdeiro saudita bilionário, anticomunista e de formação sunita/wahabbi, foi inclusive matéria do jornal estadunidense “The Independent”, onde foi chamado de “guerreiro pela paz”. Também vale lembrar que os mujahedin afegãos treinados pela CIA foram homenageados ao final de Rambo III, como o “valente povo do Afeganistão”. Aqui a fronteira entre arte e realidade se torna turva e o cinema se afirma político mais do que nunca.
“Duna” se passa 10 mil anos no futuro, onde um Imperium galático dominado por instituições político-religiosas, expressão máxima da colonização do ser humano sobre o universo, entra em colapso quando Paul Atreides, herdeiro da Casa Atreides e Duque de Arrakis, o planeta deserto (também chamado de Duna), lidera o povo Fremen, habitante daquele lugar, na sua “Jihad” particular de tomada do poder imperial, enquanto cumpre uma função de Messias que lhe foi imposta pelas Bene Gesserit (uma alusão crítica e ácida de Herbert à Ordem Jesuíta católica), e em última instância, pela própria mãe que subverte os ensinamentos da Ordem para transformar seu filho no líder profetizado das crenças Fremen. Paul evolui ao longo da narrativa (menos nos filmes do que no livro) devido à sua linhagem real, e seus treinamentos Bene Gesserit e de Mentat (humanos cujas mentes trabalham como computadores). O Muad’dib (nome Fremen do protagonista) adota a vida de acordo com os costumes dos Fremen, suas crenças, ritos, costumes, e se torna um deles, até ser reconhecido como seu líder espiritual, militar e político. Paul é o retrato perfeito do imperialismo ocidental sobre os povos islâmicos da Ásia Ocidental, afinal é o representante de uma família nobre do Imperium, cuja ida para Arrakis não é senão uma campanha imperial para controlar os campos de mineração da “Especiaria”, o petróleo de Herbert, substância psicoativa que serve de combustível das espaçonaves intergalácticas da Corporação de Comércio, a “Companhia das Índias Orientais”. Porém, como um verdadeiro “Lawrence da Arábia”, Paul toma o partido dos “árabes” de Arrakis, não apenas por mero amor ou compaixão, mas por ter sua casa destruída, o pai assassinado e a necessidade de sobreviver ao deserto. Mesmo relutante quanto ao papel que lhe foi dado, Paul assume o manto de Mahdi – nome árabe para designar o líder “Bem-Guiado”, esperado pelos muçulmanos para combater o Dajjal, o anticristo, e anunciar a volta do verdadeiro Messias, Jesus (AS). Porém, em Duna, os conceitos se misturam. Já é conhecida na ficção estadunidense a falta de compreensão e capitalização de conceitos estrangeiros: o Sufismo sem Islamismo, o Yoga sem hinduísmo e budismo, e o messianismo do Destino Manifesto Americano. O Muad’Dib aqui segue a mesma cartilha: um homem caucasiano (Timothée), vindo de um “Mundo Exterior”, para “civilizar” e liderar os povos “bárbaros” contra seu próprio povo ou governante tirânico, assim como temos Luke Skywalker ou Jake Sully (de Avatar) como os paralelos mais óbvios, e uma lista extensa de outras personagens (o próprio Lawrence da Arábia – da ficção e histórico, ou Hawkeye em “O Último dos Moicanos”, e Nathan Algren em “O Último Samurai”). Todos eles “messias” brancos de povos não-brancos.
A grande maioria dos povos do mundo é fascinada pela narrativa da “Jornada do Herói” de Campbell e pelo messianismo. Essa narrativa é acolhedora e esperançosa: alguém, escolhido por “Deus”, surgirá em tempos de grande calamidade para acabar com a tirania. Jesus, Buda, o Mahdi, Vishnu, etc., representam esse ideal estético de perfeição moral e ética. E não é a primeira vez que vemos o “profetizado” se tornar o vilão da história: Star Wars foi lançado em 1977, onde aquele que deveria ser o messias daquela civilização, Anakin Skywalker, abraça o Lado Negro da Força e torna-se um dos vilões mais amados da cultura geek, Darth Vader. Duna é anterior, de 1965. Porém, a fórmula é a mesma: (alerta de spoiler) o Messias se torna o vilão e cabe a seu filho (Leto II em Messias de Duna, Luke em Star Wars), destronar e derrotar o próprio pai para consertar os erros do antecessor.
A juventude ocidental formada pela cultura pop estadunidense se baseia em valores como liberdade, combate à tirania, “resistência” e “revolução”. A maioria dos heróis dessa geração são jovens líderes ou mártires que lideram a luta contra a tirania. Séries como “Divergente”, “Jogos Vorazes”, e “Maze Runner” formaram uma geração de jovens anti-autoritarismo, mas pavimentaram a trilha para o sucesso de Duna ao colocar em xeque a narrativa da liderança e o papel do “escolhido”, discutindo como eles são manipuláveis pelos “revolucionários” e passavam ao papel de símbolos da revolução e não agentes revolucionários em si, sendo colocados em segundo plano. Paul toma um caminho diferente: ele toma a liderança para si, e assume o manto de Lisan Al-Gaib. Logo, a mensagem do sistema é clara: há um limite que não deve ser ultrapassado em processos revolucionários, o martírio ou o ostracismo do “messias” é necessário, para “evitar” o surgimento de tiranos piores que seus antecessores. “Ou você morre herói, ou vive o bastante para ver você mesmo virar vilão”.
Afinal, qual é a relação dessa arquitetura projetada para, ao mesmo tempo, esperar um salvador, mas não confiar nele plenamente para liderar, com o próprio conceito de “jihad” como compreendido pelo ocidente? A jihad, no seu sentido pleno e islâmico, é mais que mera “guerra santa” como entendida pelos ocidentais. Jihad é “lutar pela causa de Deus”, em sua plenitude. Ou seja, resgatar o órfão, alimentar o sem-teto, proteger as mulheres, não prometer sem antes dizer InshaAllah (se for da Vontade Dele – o nosso “Se Deus quiser”). Também inclui cuidar do próprio corpo, afinal, ele é um mero empréstimo do Criador para abrigar a Alma. Recatar o olhar ao gênero que lhe atrai. Vestir-se adequadamente. Realizar cinco orações diárias. Sacrificar animais de acordo com os rituais e comer apenas dessa carne halal (purificada, feita para o consumo do muçulmano). Fornecer água e abrigo aos peregrinos. E também é pegar em armas para defender o islam da perseguição e da difamação. “Cumpri o ajuste com os idólatras, com quem tenhais um tratado, e que não vos tenham atraiçoado e nem tenham secundado ninguém contra vós; cumpri o tratado até à sua expiração. Sabei que Deus estima os tementes. Mas quanto os meses sagrados houverem transcorrido, matai os idólatras, onde quer que os acheis; capturai-os, acossai-os e espreitai-os; porém, caso se arrependam, observem a oração e paguem o zakat, abri-lhes o caminho. Sabei que Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo” (Alcorão, 9:4-5). “Combatei, pela causa de Deus, aqueles que vos combatem; porém, não pratiqueis agressão, porque Deus não estima os agressores. Matai-os onde quer que os encontreis e expulsai-os de onde vos expulsaram, porque a perseguição é mais grave do que o homicídio […]” (Alcorão 2:190-191). Afinal, “Não há imposição quanto à religião, porque já se destacou a verdade do erro […] (Alcorão 2:256)”. E ainda “[…] quem matar uma pessoa, sem que esta tenha cometido homicídio ou semeado a corrupção na terra, será considerado como se tivesse assassinado toda a humanidade”. Tais versículos frequentemente citados tanto pelos opositores do islam quanto por seus defensores mostram a dimensão da Jihad: a “Grande Jihad”, como denominaram os grandes mestres sufis e sábios, consiste em vencer o Nafs (o próprio Ego), enquanto a “Pequena Jihad” é combater na guerra, matar os inimigos da religião, etc, porém as regras de combate são claras, combater quem nos combate, não massacrar idosos, crianças, mulheres, não matar o gado e os animais, tampouco derrubar as árvores ou queimar as plantações. Os ocidentais não conseguiram, em mais de 1440 anos de existência do islam, compreender isso? Como isso é possível?
Propaganda e imperialismo. Essa é a resposta. “Simples assim?”, talvez o leitor questione. Vamos destrinchar esse tema então. Em Salum, 2025:
“[…] raízes na Irmandade Muçulmana egípcia, um movimento islamista e reformista surgido em 1926 (KHALIDI, 2020). Hourani, 2006, explica que esse grupo surge como “um movimento pela reforma da moralidade individual e social, baseado na análise do que havia de errado nas sociedades muçulmanas, semelhante e em parte derivado do movimento dos salafiyya” ou salafistas, movimento também reformista, conservador e com caráter restauracionista, cujo objetivo era adotar o estilo de vida e moral do Profeta do Islam Mohammad (SAWS) e seus salaf (companheiros). O movimento tinha aspirações anti-imperialistas por acreditar que somente um governo religioso islâmico poderia ser considerado legítimo sem representar ameaça à comunidade muçulmana e se inspirava no regime da Arábia Saudita, uma teocracia que estabeleceu a Casa de Saud como governante da Arábia através do uso da força e da imposição da interpretação ultra-ortodoxa de Muhammad ibn Abd al-Wahhab, teólogo islâmico ultra-ortodoxo do século XVIII (HOURANI, 2006). Segundo ??yigh, 1997, o descontentamento gerado pelo que era visto como uma falha moral árabe após a derrota em 1967, na Guerra dos Seis Dias, pois as organizações nacionais eram nacionalistas, seculares e socialistas.”
Logo, percebe-se claramente de onde vem o medo de Herbert e seus contemporâneos da “Jihad Global” desses asseclas do islamismo sunita reformado e ultraconservador. O imperialismo britânico financiou os wahabbis (seguidores de Muhammad ibn Abd al-Wahhab, citado acima) na luta contra os turco-otomanos que dominavam o mundo árabe. Assim nasce a Arábia Saudita, Osama Bin-Laden, os Mujahedins afegãos, a Al-Qaeda, o Estado Islâmico, e todos os outros grupos islamistas radicais armados pelo Império para combater socialistas e nacionalistas (não se importando com a perseguição aos muçulmanos xiitas, aos cristãos, aos judeus nacionais – os não-europeus, não-sionistas – e às minorias étnicas locais – isso sustenta a narrativa imperialista de necessidade de intervenção).
Voltamos agora a Herbert e sua Duna: os soldados mais letais do Imperium são os Sardaukar, nascidos, treinados e doutrinados em Salusa Secundus, o Planeta-Prisão do Imperador Padishah IV (ironicamente, um shá, um título real para os reis da Pérsia). Nos anos 60, um certo Xá Reza Pahlevi foi elevado a rei do Irã, derrubando uma democracia constitucional com a ajuda estadunidense – o que viria a desencadear a Revolução Iraniana xiita de 1979). Enquanto isso, os agentes do imperialismo Harkonnen, exploradores de Arrakis, são substituídos pelos também agentes do Imperium, Atreides, os quais tinham também seus planos de usar os povos arrakeen como bucha de canhão para a guerra contra o Imperador e os Harkonnen. Não há profecia de fato, há narrativa Bene Gesserit. Não há Mahdi, há um herdeiro do imperialismo que toma para si o papel de líder revolucionário. De fato, não há (alerta de spoiler do livro) sequer Fremens: eles próprios são prisioneiros, imigrantes forçados, indesejados, tal qual seus adversários mortais Sardaukar. Um povo despojado de seu planeta natal e jogado para o deserto. Para morrer. É disso que os europeus e estadunidenses têm medo: da sublevação dos povos explorados contra seus antigos algozes.
Assim sendo, Duna não é mera alegoria, mera literatura fantástica. É um retrato cru da realidade que os imperialistas impuseram aos povos não-caucasianos. Há anos, a ultra-direita alimenta essa narrativa apocalíptica de que os colonizados, dotados de uma fé como o Islam são uma ameaça para o mundo. Ignoram eles que foram os próprios que criaram seus “Fremen” sunitas salafistas ? Com certeza não. Por isso, a paranoia ocidental pela Jihad Global se traduz em cinema. Por isso que as igrejas evangélicas ligadas aos EUA na América Latina e na África tanto pregam a chegada do Apocalipse, a segunda vinda de Cristo, o arrebatamento, o fim do mundo, e o apoio incondicional ao estado de Israel moderno como “legítimo representante” da Israel Bíblica: são os soldados israelenses os Sardaukar da vida real, os pastores as Bene Gesserit e seus mitos, e os muçulmanos sunitas radicais os Fremen em sua Jihad. Porém, para nós muçulmanos, o Mahdi não é mero guia espiritual, mero general revolucionário, mero líder que irá nos guiar ao “Paraíso Verde”. O Mahdi “real” é para nós nada mais que um Sinal – sua chegada precede a vinda do verdadeiro Messias. É de fato desse Messias que o Ocidente, o Imperialismo e o Sionismo têm medo, medo de que o Jesus não seja o Salvador que eles aguardam, mas seja um homem semita, de cabelos encaracolados, olhos escuros, barba volumosa, vestido em mantos simples e declamando em aramaico que as instituições criadas pela burguesia são a verdadeira “Sinagoga de Satanás” bíblica que ele condenou em vida. Não é o nosso levante que temem de fato. Temem as consequências da chegada do Salvador.
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