Uma imersão coletiva na imaginação mítica, gráfica e fabuladora do folclorista catarinense Franklin Cascaes instigou 16 integrantes da Acap (Associação Catarinense dos Artistas Plásticos) a criar uma instalação inédita, reverberando a força do trabalho do pesquisador, um dos oito fundadores da associação. “Tessituras do Invisível – Desdobrando Cascaes” abre dia 10 de março, às 18h30, no Marque (Museu de Arqueologia e Etnologia) da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).
A instalação pretende ser uma ponte entre os trabalhos expostos na Galeria do Acervo Franklin Cascaes, onde a obra do artista é preservada, e a criação dos artistas visuais contemporâneos. A proposta, frisa a curadora Meg Tomio Roussenq, não é apenas de homenagear Cascaes, mas ativar sua potência inventiva no presente, permitindo que novas narrativas se enraízem nos diálogos entre gerações, técnicas e sensibilidades. Meg novamente assina a curadoria com Anna Moraes.
Na mesma data, em paralelo, o Marque recebe na galeria “Cascaes: Os Fios Originários”, com 22 obras que evidenciam o imaginário e a diversidade de temas e personagens criados pelo artista. “Fios que, retomados e reinterpretados, deram origem à mostra da Acap”, observa a museóloga Aline Pessôa da Ascenção Alcoforado. As obras do acervo do Marque integram a Coleção Professora Elizabeth Pavan Cascaes, criada pelo próprio Cascaes em homenagem à sua mulher.
Sem filhos, ele doou todo seu acervo em vida a este museu, que atende ao seu desejo de preservar, pesquisar e difundir sua obra e memória. Além de Aline, a concepção da mostra leva as assinaturas do museólogo Lucas Figueiredo Lopes, da restauradora Vanilde Rohling Ghizoni e da técnica em restauração Eloah Cristina de Melo.
50 anos muito bem comemorados
Com “Tessituras…”, a Acap dá sequência à série de eventos que marca seus 50 anos, completados em 2025, festejados com seis mostras. Em todas, o legado dos oito fundadores – Eli Heil, Franklin Cascaes, Martinho de Haro, Max Moura, Ernesto Meyer Filho, Pedro Paulo Vecchietti, Rodrigo de Haro e Vera Sabino – foi ressignificado.
A programação também envolveu o lançamento do livro “Memória, Legado e Resistência – 50 Anos da Associação Catarinense dos Artistas Plásticos”, obra bilíngue de autoria da jornalista Néri Pedroso e da autora convidada, Francine Goudel. E continua agora com “Tessituras…” e o lançamento de um catálogo sobre todas as exposições, ambos programados para março.
O presidente da Acap, Gelsyr Ruiz, reforça toda a sua satisfação em dar à associação o espaço que ela merece no cinquentenário. Estas ações, além de remexer memórias, uniram os talentos do passado com os do presente e ocuparam espaços nobres da capital catarinense.
E a sétima exposição vem coroar este momento histórico em outro lugar especial, o Marque, que reúne cerca de 3.000 obras que formam o acervo de Cascaes. Desta vez, os artistas projetaram um ambiente contínuo, uma “floresta de narrativas”, onde cada trabalho se integra em um cenário com planos translúcidos, sobreposições e passagens.
Em tecidos em preto e branco, a intensidade do traço de Cascaes é evocada em diferentes linguagens. Tem pintura, bordado, desenho, gravura, escrita, costura, texturas e experimentações híbridas, todas tomando como referência um conjunto de imagens disponibilizadas pela curadoria. O visitante atravessará esse território simbólico, observando, entre dobras e sombras, ecos visuais dos seres, mitos e memórias da cultura da Ilha, em um diálogo contemporâneo com Cascaes.
Cascaes, uma presença fundamental
Franklin Joaquim Cascaes, nascido em 1908 e morto em 1983, entrou para a história brasileira pela sua multiplicidade. Pesquisador, antropólogo, ceramista, gravurista e escritor, se dedicou ao estudo e à preservação da cultura açoriana, tornando-se referência em estudos de folclore.
Nascido em Itaguaçu, quando o bairro continental da Capital ainda pertencia ao município vizinho de São José, é figura imprescindível para a compreensão do imaginário e da memória cultural da região. Tanto que batiza a Fundação Cultural de Florianópolis, além de já ter sido tema de diferentes estudos e livros. Como fundador da Acap, compôs a primeira diretoria na condição de secretário.
Por meio do desenho, da escultura, da escrita e da escuta atenta aos mitos, às lendas e às práticas sociais dos açorianos e seus descendentes, impregnou no imaginário suas bruxas, lobisomens, rendeiras e curandeiras. Não são apenas figuras folclóricas, mas representações das tensões, medos, resistências e sabedorias da comunidade. “As ‘bruxarias do capitalismo’ ameaçando crenças e territórios”, frisava.
Esta sétima e última exposição da Acap 50 anos propõe que a arte continue sendo dispositivo de resistência, não apenas porque preserva memórias, mas porque as transforma. E ainda traz novos questionamentos sobre as bruxas que hoje nos assombram.
Curadoria aposta em três eixos instalativos
A curadoria optou por criar três ambientes instalativos distintos, que conversam entre si, mantendo coerência interna em cada núcleo.
1 – Corpo, Território e Ruptura
Neste eixo, as obras investigam o político, o urbano e as violências contemporâneas, com trabalhos que deslocam o medo do mito para o real, expondo estruturas de controle, cerco e captura sobre corpos e territórios. E denunciam as “bruxarias do capitalismo” atualizadas: especulação imobiliária, crise sanitária, monstros urbanos e adoecimento psíquico.
As obras e os artistas:
- Susana Fros – “Território Interdito”| Arame farpado sobre tecido, corpo-território político
- Audrey Laus – “Bruxa da Virose”| Material têxtil e plástico reciclável, devastação ambiental
- Rodrigo Gonçalves – “Monstro Simoníaco”| Instalação com trama translúcida, cidade como rede de captura
- Ricardo do Rosário – “Crise”| Estêncil e acrílico sobre tecido, crise de pânico contemporânea
- Andrea V Zanella – “O Que Resta?”| Fotografia/colagem digital, transmutações urbanas
- Sílvia Zanatta Da Ros – “Cascaes”| Texto/instalação sobre colonização e “bruxarias do capitalismo”
- Roberta Viotti – “Sem Título” | Mata atlântica, especulação imobiliária, perda do imaginário
- Eliane Veiga – “Oratio Praesidium”| Estandarte de voal, proteção contra forças contemporâneas
2 – Memória, Paisagem e Metamorfose
Os trabalhos investigam e retomam o gesto de Cascaes — a escuta, a preservação da memória, o registro do que está em vias de desaparecer – de forma atualizada, pela materialidade têxtil, a impressão, a cerâmica e a xilogravura. Obras que pensam a paisagem como portal e memória, como trama viva.
As obras e os artistas:
- Dulce Penna – “Sobre Escutas”| Cerâmica, seres híbridos, memória oral corporificada
- Maria Esmênia – “A Cortina Rendada”| Papel arroz costurado sobre seda, rendas e tradição
- Gavina – “Sem Título”| Xilogravura sobre pano americano, banco como narrador
- Maria de Minas – “Quando a Ilha Desperta as Bruxas”| Fotografia, paisagem como entidade mágica
- Gelsyr Ruiz – “Memória Impressa – Território Instável”| Impressão em tecido, paisagem em trânsito
- Larissa Arpana – “Ser em Metamorfose” | Desenho e pintura em tecido, dualidade e transformação
- Laïs Krücken – “Voo”| Frotagem de folha de palmeira, carvão sobre algodão
- Rodrigo Pereira – “Fragmentos Ilhéus” | Mosaico em tecido, citações diretas de Cascaes
3 – Presença da ausência
Este terceiro eixo traz, em referência a Cascaes, oito bancos brancos carregados de simbologia e afeto formando um espaço de escuta, encontro, trocas e criação.
VISITE AS EXPOSIÇÕES
“Tessituras do Invisível – Desdobrando Cascaes” e “Cascaes: Os Fios Originários”
Abertura paralela: 10/3/2026, às 18h30
Visitação “Tessituras…”: até 25/9/2026, de terça a sexta-feira, das 7h às 19h
Visitação “Fios…”: até 10/7/2026, de terça a sexta-feira, das 7h às 19h
Quanto: gratuito
Onde: no Marque da UFSC (rua Engenheiro Agronômico Andrei Cristian Ferreira s/n, campus do bairro Trindade, Florianópolis)
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