Por Tali Feld Gleiser, para Desacato.info.
A presença massiva das plataformas de apostas esportivas online — as chamadas bets — no futebol brasileiro não é apenas uma questão de patrocínio ou mercado. Trata-se de um problema estrutural de saúde pública, proteção da infância e integridade social, que exige uma resposta clara do Estado: a proibição total das apostas online.
Nos últimos anos, as bets tornaram-se protagonistas no financiamento do futebol nacional. Clubes da Série A exibem marcas de apostas em camisas, placas de publicidade, transmissões televisivas e redes sociais, criando um ambiente em que apostar é apresentado como parte natural da experiência esportiva. Essa normalização, no entanto, tem efeitos diretos e mensuráveis sobre a sociedade — especialmente sobre crianças e adolescentes.
- A exposição de crianças e adolescentes não é um “desvio”, é parte do modelo
Embora a legislação brasileira proíba a participação de menores de idade em apostas, a realidade demonstra que essa restrição é ineficaz na prática. Pesquisas indicam que 17% dos pais sabem que seus filhos, entre 7 e 17 anos, possuem contas em sites de apostas, enquanto outros sequer conseguem identificar como esses menores financiam suas apostas, muitas vezes via Pix ou cartões vinculados a adultos.
A falha não é pontual: ela decorre de um modelo de negócio baseado em publicidade agressiva, acesso digital irrestrito e mecanismos frágeis de verificação de idade. Em outras palavras, a presença de menores não é um acidente — é uma consequência previsível de um sistema que depende da expansão contínua de usuários.
2. Apostas online não são entretenimento, são produtos de risco
Diversos estudos associam apostas online a transtornos de dependência, endividamento precoce, ansiedade, depressão e isolamento social. Diferentemente de jogos tradicionais, as plataformas digitais operam com:
- estímulos constantes (notificações, bônus, “rodadas grátis”);
- recompensas intermitentes, mecanismo clássico de indução ao vício;
- funcionamento 24 horas por dia, sem limites temporais claros.
Entre adolescentes, os riscos são ainda maiores. Pesquisas apontam que mais da metade dos jovens apostadores apresenta comportamentos de risco, com maior probabilidade de desenvolver dependência do que adultos. Isso ocorre porque o cérebro adolescente ainda está em formação, especialmente nas áreas ligadas ao controle de impulsos e à avaliação de consequências.
3. A regulação não funciona — e não funcionará
Defensores da regulamentação afirmam que regras mais rígidas resolveriam o problema. A experiência internacional e os dados nacionais demonstram o contrário. Mesmo em países com sistemas regulatórios avançados, observou-se aumento nas buscas por ajuda relacionadas à dependência em jogos após a legalização das apostas esportivas online.
A lógica é simples: não é possível regular de forma eficaz um produto digital cujo lucro depende da repetição compulsiva e da perda financeira do usuário. Qualquer tentativa de “uso responsável” entra em choque direto com o modelo econômico das bets.
4. O futebol não pode ser sustentado à base do adoecimento social
Ao atrelar o financiamento do esporte a plataformas de apostas, cria-se uma dependência perversa: clubes passam a depender financeiramente de empresas cujo crescimento está associado ao adoecimento psicológico, ao endividamento e à exploração de vulnerabilidades sociais.
O futebol, enquanto fenômeno cultural de massa, exerce enorme influência simbólica sobre crianças e jovens. Permitir que ele funcione como vitrine permanente de apostas significa legitimar práticas que o próprio Estado reconhece como nocivas.
5. Proibição total é medida de proteção, não de moralismo
Defender a proibição total das apostas online não é uma posição moralista ou conservadora. É uma decisão baseada em evidências, comparável à restrição de publicidade de cigarros ou à proibição de certos medicamentos sem prescrição.
Quando um produto:
- causa danos comprovados à saúde pública;
- afeta de forma desproporcional crianças e adolescentes;
- falha sistematicamente em mecanismos de controle;
- transfere custos sociais ao Estado,
a proibição deixa de ser uma opção ideológica e passa a ser uma obrigação ética e institucional.
Referências
IBOPE REPUCOM. Bets lideram patrocínios no futebol brasileiro. Operanewsapp, 2025. Disponível em: https://www.operanewsapp.com/br/pt/share/detail?news_id=f45ec494cea077acd3ba871ce492d981&news_entry_id=55bd2eab260122pt_br&open_type=transcoded&request_id=share_request&share_from
SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Nota de alerta: saúde de crianças e adolescentes na era digital e os riscos das apostas online. Rio de Janeiro: SBP, 2025. Disponível em: https://www.sbp.com.br/imprensa/detalhe/news/nota-de-alerta-saude-de-criancas-e-adolescentes-na-era-digital-e-os-riscos-das-apostas-online/
BEM PARANÁ. Perigo das bets: 17% dos pais admitem que filhos têm contas em sites de apostas. Curitiba, 2026. Disponível em: https://www.bemparana.com.br/noticias/brasil/perigo-das-bets-17-dos-pais-sabem-que-filhos-entre-7-e-17-anos-tem-perfil-em-sites-de-apostas/
MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MATO GROSSO DO SUL. Infância em risco: os perigos das apostas online. Campo Grande: MPMS, 2025. Disponível em: https://www.mpms.mp.br/noticias/2025/06/infancia-em-risco-mpms-reforca-alerta-sobre-os-perigos-das-apostas-online-e-o-risco-da-exposicao-precoce-de-criancas-e-adolescentes-
AYERS, J. W. et al. Gambling addiction help-seeking after sports betting legalization. OPB, 2025. Disponível em: https://www.opb.org/article/2025/02/18/searches-for-gambling-addiction-help-go-up-after-states-legalize-sports-bets/
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