
Por Luiza Soeiro para Desacato.info
Enquanto drones cruzam fronteiras e sanções atravessam oceanos, a guerra mais eficiente do nosso tempo não faz barulho. Ela acontece nas manchetes, nos discursos oficiais, nos “especialistas” convidados para os telejornais. A pólvora agora é semântica, e o alvo, a opinião pública.
Não é de hoje que a linguagem funciona como arma política. Michel Foucault já avisava que o discurso não apenas descreve o mundo, mas produz realidade. Percebe-se que quando um país vira “ameaça”, “ditadura” ou “Estado falido”, não é só adjetivo. É uma autorização simbólica para intervir, sancionar e bombardear.
O novo termo da vez vem do Instituto Tricontinental: hiperimperialismo. Um estágio turbinado do velho imperialismo, podemos chamar de um bisneto, talvez. Que mistura força militar, coerção econômica, controle tecnológico e, principalmente, a guerra narrativa. O império já não se sustenta apenas com tanques, mas com palavras bem escolhidas.
Eis o dicionário cínico do império: sanções são rebatizadas de “medidas diplomáticas”, bloqueios econômicos viram “pressões legítimas”, golpes ganham verniz de “transição democrática” e massacres são esterilizados como meras “operações de segurança”. A linguagem faz o serviço sujo de lavar o sangue e transforma crime em política externa.
A violência, quando narrada certo, vira nota de rodapé.
Mas o hipeimperialismo não é sinal de força. É um sintoma de decadência, impérios raramente acabam em silêncio, quando entram em colapso, costumam arrastar corpos, territórios e narrativas consigo. E quando a dominação produtiva falha, a violência se reorganiza.
O capitalismo global não sobrevive sem sangue. Ele não apenas convive com a morte, ele se alimenta dela. O hiperimperialismo surge justamente desse desespero: um sistema em crise que tenta se manter vivo à custa de mais coerção, mais controle e mais corpos descartáveis.
Na Palestina, a linguagem opera como anestesia moral. Contabilizando mortes copmo números falados em telejornais,e as crianças soterradas entram na contabilidade fria dos “danos colaterais”. Edward Said já explicava esse truque: o Ocidente constrói o outro como bárbaro, irracional, violento e assim legitima qualquer intervenção como civilizatória.
Na Ucrânia, a narrativa muda de figurino, mas não de função. Há vítimas que merecem comoção global, bandeiras nos perfis, cobertura ininterrupta. Outras, no Sul Global, seguem invisíveis, e é extremamente importante lembrar que a empatia também é linguagem geopolítica.
Venezuela, Cuba, Irã continuam presos na mesma vitrine discursiva: “regimes”, “ameaças”, “crises humanitárias”, quase nunca explicadas sem a palavra sanção escondida no roteiro. A economia colapsa, mas a culpa é sempre interna, e o bloqueio vira detalhe técnico, nunca protagonista.
Marie-Anne Paveau chama isso de moralização do discurso. A linguagem cria campos éticos: uns são os “bons”, outros os “vilões”. O mundo vira roteiro de série. Quem controla o enredo, controla os heróis.
O hiperimperialismo, portanto, não é o auge do império, mas esperamos, que seu último adeus. Um estágio em que o sistema já não consegue se expandir sem recorrer abertamente à morte dos oprimidos. E quanto mais evidente sua decadência, mais violenta se torna sua linguagem.
A guerra começa antes do primeiro míssil, ela nasce quando alguém é desumanizado no discurso.
Hoje, a principal batalha não acontece apenas nos territórios ocupados, mas no campo simbólico. Quem controla a linguagem controla quem merece viver, quem pode morrer e quem sequer será lembrado.
No hiperimperialismo, a guerra é discursiva.
E a decadência do império se escreve, linha por linha, sobre os corpos que ele insiste em sacrificar para continuar existindo.
Sugestão de leitura: Hiperimperialismo: um novo estágio decadente perigoso | O Instituto Tricontinental de Pesquisa Social
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