Será que esta minha estúpida retórica. Terá que soar, terá que se ouvir por mais zil anos?

O percurso da palavra “feminicídio” entre séculos de perseguição, apagamentos e disputas simbólicas e o fôlego que ainda nos falta para continuar dizendo o óbvio.

 

Autor do desenho desconhecido

Luiza Soeiro para Desacato.info

Nesta segunda-feira, ao ler que o autor do crime contra Catarina Kasten havia sido preso e denunciado por feminicídio, estupro e ocultação de cadáver, senti novamente aquele peso familiar que acompanha notícias desse tipo. Mas junto ao peso, veio algo que há alguns anos eu não veria com tanta clareza: a consciência de que o nome que aparece na denúncia — feminicídio — não é apenas um detalhe jurídico. É uma chave discursiva. Um marco. Uma disputa.

Enquanto lia, a brutalidade do caso se impunha de maneira quase insuportável. A descrição da premeditação, do ataque, da violência sexual, da asfixia. As imagens que se formam mesmo quando não queremos vê-las. Mas, apesar do horror, minha atenção voltava sempre para a palavra. Ela piscava para mim dentro do texto, acendendo a memória de todos os debates que já vi tentando negá-la. E eu me perguntava, quase em voz alta: o que significa, afinal, dizer feminicídio? O que estamos realmente nomeando quando nomeamos assim?

Marguerite de Carrouges, protagonista do primeiro registro de julgamento por violência sexual. Na França de 1386, sua acusação contra Jacques Le Gris foi enquadrada como dano à propriedade do marido.

Com o passar dos anos, me acostumei a ver circular textos que tratam “feminicídio” como um erro, como um equívoco, como um excesso de militância infiltrado na língua. Sempre com aquele tom professoral, como se corressem ao resgate da pureza etimológica. “Use homicídio”, dizem. “Homicídio já basta.” Mas a etimologia vira aí um álibi. Um disfarce. Porque o que eles querem, na verdade, não é corrigir a palavra. É retirar o que ela revela.

Quando escolhem apagar “feminicídio”, não estão corrigindo o latim; estão apagando a motivação. Estão recusando o fato de que a morte de uma mulher por ser mulher não é a mesma coisa que qualquer morte. Nomear a causa é, também, responsabilizar a estrutura que a produz.

Nas minhas leituras sobre o tema, sempre volto ao surgimento da palavra em inglês, nos anos 1970, quando Diana Russell descreveu femicide como a morte de mulheres causada por misoginia. O termo entrou no debate acadêmico sem escândalo, sem purismo, sem cruzadas morais. Ele nomeava um fenômeno que já existia, mas que ainda não tinha nome. E nomear, no campo discursivo, é criar existência.

Quando a palavra chegou ao português brasileiro, ela não veio de forma transparente. Ela ganhou um acréscimo, aquele “ni” que a torna feminicídio, e não apenas femicide. Um deslocamento mínimo que carrega um mundo dentro de si: a nossa história, a nossa formação social, a violência sistemática contra mulheres que não é apenas individual, mas estrutural e, muitas vezes, estatal. Por isso a resistência aqui é tão maior. Não é à forma; é ao que ela desestabiliza.

E foi exatamente isso que me atravessou quando voltei à denúncia contra o assassino de Catarina. O Ministério Público afirma diretamente que ele a matou por razões da condição de sexo feminino. Não há qualquer tentativa de suavização. Nenhum eufemismo que tente transformar o crime em fatalidade. Ela morreu porque era mulher, e porque como tantas outras, viveu num mundo em que o corpo feminino pode ser visto como objeto, alvo, ameaça à ordem patriarcal.

Para quem estuda Análise de Discurso, essa nomeação não é apenas um gesto técnico, mas um gesto político. Toda palavra carrega ideologia; todo enunciado é atravessado pela história que o torna possível. Feminicídio opera como um recorte discursivo que ilumina o que antes era empurrado para o silêncio. Ele denuncia a estrutura. Ele expõe aquilo que o discurso hegemônico tentou, por muito tempo, manter invisível: que essas mortes não são acidentais; são previsíveis dentro de um sistema que se organiza sobre a desigualdade de gênero.

Ana Bolena, segunda esposa de Henrique VIII, decapitada em 1536 após ser acusada de adultério e conspiração. As acusações, estimuladas pelo próprio rei, serviram para remover a rainha que já não lhe era conveniente.

Sempre me impressionou como, antes da palavra, o fenômeno já existia — mas sem nome. E sem nome, ele permanecia diluído na categoria genérica de “homicídio”, perdendo sua especificidade e sua historicidade. É aquilo que os estudos do discurso apontam com tanta precisão: dar nome é dar corpo. É retirar do silêncio. É inscrever na memória coletiva.

Quando penso em Catarina, penso também em todas aquelas que morreram antes de termos essa palavra, antes de podermos dizer com precisão aquilo que sempre esteve diante de nós. E penso no quanto o debate em torno do termo é, na verdade, o debate sobre quem tem o direito de ser nomeada, de ser lembrada, de ser reconhecida como vítima de uma violência que não é privada, é social.

Hoje, ao ler “feminicídio” na denúncia, sinto que há algo ali que ultrapassa o jurídico. É a afirmação de que essas mortes têm causa. Têm estrutura. Têm contexto. E que recusá-las como tal é continuar reproduzindo o mesmo sistema que as torna possíveis.

A disputa pela palavra é a disputa pelo corpo de Catarina. Pelo corpo de todas nós. Pela possibilidade de que nossa morte não seja tratada como mais um número no noticiário, mas como um sintoma de uma sociedade que ainda precisa se olhar com muito mais coragem.

E talvez seja por isso que eu insista tanto em voltar ao significante. Porque sei que, antes de qualquer justiça formal, existe uma justiça do discurso. E que, quando nomeamos corretamente, começamos a desestabilizar a lógica que produz o apagamento.

Enquanto houver quem tente retirar esse nome, seguirá sendo urgente insistir nele.

Na foto, uma ama de leite em Pernambuco, 1860. Mulheres negras escravizadas no Brasil colonial eram julgadas não como cidadãs, mas como propriedade. Muitas foram executadas sob acusações forjadas de feitiçaria ou insubmissão, mecanismos de punição para silenciar resistência feminina negra.

E quando penso no título que escolhi, tomado emprestado do Caetano, percebo que ele traduz com precisão essa sensação que me atravessa. Porque parece mesmo que esta nossa retórica (que chamam de exagerada, de histérica, de estúpida) precisa soar de novo e de novo, por anos demais, como se estivéssemos presas em um eco que o mundo insiste em não escutar. Somos obrigadas a repetir o óbvio enquanto a estrutura continua a nos empurrar para a beira do abismo, como se nossas mortes fossem um detalhe incômodo da história, e não parte central dela.

O que cansa, no fundo, não é apenas narrar mais um feminicídio. É reconhecer que vivemos sob uma temporada interminável de caças às bruxas, que muda de forma, mas nunca deixa de existir. A cada ciclo, somos às vezes desejadas, às vezes descartadas, sempre vigiadas. E quando ousamos respirar, vem o lembrete violento de que esse ar não nos pertence por completo. Que nossa existência ainda é lida como ameaça, como excesso, como algo que precisa ser controlado ou punido.

Estamos cansadas dessa perseguição antiga, reeditada em novos formatos. Cansadas de observar como nossa sobrevivência depende de cálculos que os homens não precisam fazer. Cansadas de medir passos, roupas, horários, trajetos. Cansadas de explicar aquilo que já deveria ser evidente. Cansadas de sentir que o perigo está sempre à espreita, como uma sombra que nunca se dissipa. Cansadas de respirar pela metade, porque o mundo insiste em nos tirar o fôlego. Às vezes literal, às vezes discursivamente.

E, ainda assim, seguimos falando. Seguimos nomeando. Seguimos dizendo feminicídio mesmo quando tentam nos calar. Talvez porque não há outro caminho possível. Talvez porque, se o discurso deles nos sufoca, o nosso é a única maneira de recuperar um pouco de ar. Um pouco de vida.

E se esta retórica precisa soar por mais zil anos, que ao menos ela reverbere tão alto a ponto de, um dia, não ser mais necessária. Porque é isso que eu desejo: que o silêncio sobre nós deixe de vir pela nossa morte, e passe a vir pelo fim desse ciclo de violência que insiste em se repetir. Que um dia possamos, finalmente, respirar sem medo.

 


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