Massacre no RJ: Comissão de DH pede prisão de Castro; Macaé Evaristo promete perícia independente

“FOI UM GENOCÍDIO”

Imagem em destaque: Rio de Janeiro (RJ), 29 de outubro de 2025 — Dezenas de corpos são trazidos por moradores para a Praça São Lucas, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro, após ação policial da Operação Contenção. Foto: Eusebio Gomes/TV Brasil

Por Marcos Diniz Focos 21

A Comissão de Direitos Humanos da Câmara pediu nesta quinta-feira (30) à Procuradoria-Geral da República a prisão preventiva do governador Cláudio Castro e a abertura de investigação criminal por suspeita de crimes na operação que matou 121 pessoas nos complexos do Alemão e da Penha. O deputado Reimont (PT-RJ), presidente do colegiado, relatou que ouviu depoimentos de familiares sobre execuções brutais, incluindo dois irmãos que foram mortos abraçados com tiros na nuca e um jovem que foi decapitado. O pedido foi assinado por nove parlamentares do PT, PSOL e PCdoB.

A ministra dos Direitos Humanos, Macaé Evaristo, classificou a operação como um fracasso e uma tragédia, prometendo que haverá perícia independente com apoio da Polícia Federal — em contraste direto com Castro, que na véspera chamou a ação de sucesso e afirmou que as únicas vítimas foram os quatro policiais mortos. A ministra defendeu que o combate ao crime organizado deve começar pelo topo da organização criminosa, e não expondo comunidades inteiras ao terror. Macaé também destacou que a operação vitimou desproporcionalmente pessoas negras nas favelas.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, determinou na quarta-feira (29) a instalação da CPI do Crime Organizado para terça-feira (4), após quatro meses de espera desde sua criação em junho. A decisão ocorreu um dia após a operação policial mais letal da história do Brasil.

A ação realizada na terça-feira (28) nos complexos do Alemão e da Penha deixou 121 mortos segundo a Polícia Civil — número que foi contestado pela Defensoria Pública, que contabilizou 132 vítimas. A operação ocorreu poucos dias antes de o Rio sediar eventos ligados à COP30, como a cúpula global de prefeitos C40 e o Prêmio Earthshot, que contará com a presença do príncipe William.

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, também determinou que Castro preste 18 esclarecimentos sobre a operação e marcou uma audiência para segunda-feira (3). O Ministério Público do Rio instaurou investigação independente e solicitou acesso às câmeras corporais dos policiais.

Ainda na quarta-feira, em coletiva de imprensa, o secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, anunciou que vai investigar os moradores que retiraram dezenas de corpos de uma área de mata na madrugada e os levaram até a Praça São Lucas por suposta “fraude processual”. Segundo ele, os moradores teriam retirado roupas camufladas e armas dos corpos. “É um milagre que se operou. Parece que eles entraram num portal e trocaram de roupa”, ironizou.

Curi também afirmou que a polícia “fez o que nem FBI, CIA ou até a Nasa fariam” e classificou todos os mortos — com exceção dos quatro policiais — como “narcoterroristas”. A declaração gerou indignação massiva. O governo federal e o estadual anunciaram hoje a criação de um grupo de trabalho conjunto para coordenar ações contra o crime organizado no Rio.

Em protesto realizado na quarta-feira em frente ao Palácio Guanabara, moradores dos complexos exibiram cartazes onde se lia “Castro assassino” e “favela não é alvo de guerra”. “O que aconteceu foi um genocídio”, afirmou Rute Sales, moradora e ativista. Familiares denunciaram execuções, com corpos que apresentavam tiros na cabeça e mutilações.

A ONU declarou-se “horrorizada” com o massacre e o secretário-geral António Guterres cobrou investigação imediata. O alto comissário Volker Türk pediu reforma do policiamento no Brasil e o fim do ciclo de brutalidade extrema contra pessoas negras.

Veja Também:  Rio registra operação policial mais letal da história com 64 mortos

O presidente Lula ficou “estarrecido” com o número de mortos, segundo revelou o ministro Ricardo Lewandowski, que classificou a operação como “extremamente cruenta e violenta” e questionou sua compatibilidade com o Estado Democrático de Direito.

Veículos internacionais como Guardian, Financial Times, Le Monde, El País, Reuters e Associated Press classificaram o episódio como “massacre”, “chacina” e “cena de guerra”. A Associated Press descreveu a cena na Praça São Lucas como “dezenas de corpos enfileirados no chão, cobertos por lençóis ensanguentados, enquanto familiares choravam ao reconhecer seus parentes”. O jornal francês L’Humanité afirmou que “a política de Castro trata as favelas como territórios inimigos, onde impera a licença para matar”. Analistas observam que operações de alta letalidade tendem a ocorrer antes de grandes eventos internacionais no Rio — como as Olimpíadas de 2016, o G20 de 2024 e a cúpula do Brics em julho.

A operação mobilizou 2.500 agentes das forças de segurança contra o Comando Vermelho, que reagiu bloqueando vias com ônibus sequestrados e atacando com drones. Ao todo, foram presas 113 pessoas e apreendidos 93 fuzis.

E MAIS…

? A Polícia Federal deflagrou hoje a segunda fase da Operação Papyrus em São Paulo e Minas Gerais, cumprindo 14 mandados de busca contra organização criminosa especializada em tráfico internacional de drogas e lavagem de dinheiro.

? A investigação resultou na apreensão de 2,1 toneladas de cocaína escondida em contêineres de papel destinados à Europa — 533 quilos foram interceptados no Porto de Londres. Diferentemente da operação nas favelas do Rio, ninguém foi morto na ação.

? O Ministério Público e a Polícia Militar de São Paulo lançaram hoje operação contra lavagem de dinheiro do PCC em Campinas, cumprindo 9 mandados de prisão e 11 de busca e apreensão contra empresários e traficantes ligados à facção.

? Foram bloqueados imóveis de alto padrão e contas bancárias usados para lavar recursos do tráfico de cocaína e de outros crimes praticados pela organização criminosa. A operação também não registrou mortes.

? Lula sancionou hoje lei que endurece o combate ao crime organizado, tipificando novos crimes de obstrução e conspiração contra investigações de organizações criminosas, com pena de 4 a 12 anos de reclusão.

? A legislação pune com 1 a 3 anos quem contratar ou solicitar crimes a integrantes de associações criminosas, mesmo que o delito não seja concretizado, somando-se à pena do crime eventual.

? A lei amplia a proteção pessoal a policiais, juízes, membros do Ministério Público e seus familiares — incluindo aposentados — quando estiverem sob risco em razão do exercício de suas funções no combate ao crime organizado.

Com informações de ReutersAssociated PressFrance 24Le MondeThe GuardianFinancial TimesCorriere della SeraEl PaísLa NaciónPágina/12Democracy Now!Nodal e Agência Brasil.


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