Greve no Equador: a resposta do povo e o enfrentamento com o governo de Noboa

Redação.- No Equador, uma greve nacional liderada pela CONAIE (Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador) escalou nas últimas semanas como reação a medidas do governo de Daniel Noboa que são percebidas como agravantes da crise social, econômica e política.

O que motivou a greve

  • A medida mais destacada que provocou o início da greve foi o fim do subsídio ao diesel, elevando fortemente o preço desse combustível, o que tem efeito direto no custo de vida — transporte, alimentos, produtos básicos — para as comunidades indígenas, campesinas e população mais pobre. (O Dia)
  • Além disso, a CONAIE reivindica outras demandas estruturais: redução de impostos, revogação de licenças de mineração em territórios indígenas, mais investimento em saúde e educação, garantia de direitos territoriais, fim de políticas consideradas neoliberais que aprofundam desigualdades. (O Dia)
  • Há também uma crise política mais ampla: tensões com a Corte Constitucional, conflitos sobre poderes estatais, persistência de insegurança e criminalidade, perdas de direitos, sentimento de que o Estado não está atendendo às demandas de base. (UOL Notícias)

O papel da CONAIE e do povo que protesta

  • A CONAIE, como porta-voz dos povos indígenas, tem convocado paralisações nacionais por tempo indeterminado, bloqueios de estradas, mobilizações regionais. A participação popular mostra um sentimento de urgência: muitos dizem que não há alternativa, dado o impacto direto na subsistência. (O Dia)
  • O discurso da CONAIE enfatiza dignidade, direitos territoriais, respeito à vida, não criminalização do protesto. Por exemplo: “Não somos criminosos nem terroristas; somos um povo digno que exige respeito à vida, aos direitos e aos territórios.” (O Dia)

Repressão e violações denunciadas

  • O governo decretou estado de exceção em várias províncias (sete das 24) — onde foram suspensas liberdades como a de reunião, foi autorizada a ação das forças armadas e policiais para impedir bloqueios de estradas e manifestações que, segundo o decreto, ameaçavam a segurança cidadã. (O Tempo)
  • Há denúncias de uso excessivo da força, prisões arbitrárias de manifestantes, relatos de feridos civis e até mortes. (O Globo)
  • A Corte Constitucional denunciou “militarização” da sua sede após protestos convocados pelo governo, com a presença visível de forças armadas, exposição dos rostos de juízes em cartazes nas ruas, acusações de estigmatização. (UOL Notícias)

A resposta do governo de Noboa

  • Noboa reagiu com firmeza: além de decretar o estado de exceção, ameaçou caracterizar manifestações ilegais (fechamentos de vias) como “terrorismo”. (O Dia)
  • Em eventos públicos (por exemplo, em Bolívar), declarou que quem convoca paralisações “quer fazer o mesmo de sempre”, criticando os manifestantes. Ele chegou a declarar pessoas não-gratas alguns movimentos indígenas ou comunidades, afirmando que “Ecuador es de todos, no es de ellos”. (Primicias)
  • Também lançou a proposta de uma consulta popular para uma Assembleia Constituinte, via decreto presidencial, visando reescrever a Constituição, justificando que instituições estariam “sequestradas” por práticas que esqueceram a quem devem servir. Essa proposta, além de gerar forte polêmica, é questionada em termos legais (como a necessidade de ditame da Corte Constitucional, etc.). (El País)

Tensões e dilemas

  • Há um grande impasse em torno do uso da força versus a abertura ao diálogo. A CONAIE demanda que a repressão acabe, que haja garantias para protestos pacíficos e que o governo retire medidas que afetam diretamente os mais vulneráveis. (O Dia)
  • Do lado do governo, Noboa sustenta que medidas como o fim do subsídio são necessárias para ajustes econômicos, para cumprir compromissos, talvez inclusive com credores externos, para reverter desequilíbrios fiscais e institucionais. Ele vê a nova Constituinte como uma forma de reestruturar o poder e conferir legitimidade às reformas. Também diz que os protestos que bloqueiem vias, causem danos ou incitem ilegalidades justificam uma resposta mais dura.

Do ponto de vista da CONAIE e de muitos manifestantes, esse momento é um acúmulo de frustrações históricas: exclusão social, desrespeito aos direitos territoriais indígenas, impacto desproporcional de políticas econômicas, crise de representatividade institucional. A greve e as manifestações são vistas não só como reação às medidas imediatas, mas como exigência de mudanças profundas.

Por outro lado, o governo de Noboa aposta numa combinação de legitimidade institucional (assegurando maioria ou cooperação com parlamento ou cortes), medidas de ordem pública e discurso de “legalidade” para conter os protestos, justificando a repressão como necessária para a manutenção da paz e do funcionamento do Estado.

Possíveis consequências

  • A deterioração do diálogo pode levar a escaladas de violência, prejuízos em infraestrutura e economia local, tensões humanitárias para populações indígenas e rurais.
  • A judicialização dos conflitos: denúncias de violação de direitos humanos podem gerar pressões internas e internacionais sobre o governo.
  • Política: instabilidade institucional, perdas de legitimidade para Noboa, possibilidade de novas alianças políticas ou montagem de frentes de protesto mais amplas.

Noboa está aplicando políticas neoliberais que todos e todas sabemos que não dão certo. Isso inclui empobrecimento, ainda mais, do povo trabalhador, entrega da soberania e recursos naturais, desrespeito ao pouco que resta à democracia equatoriana, e o fim da dolarização nem é cogitado. O país tem uma população, especialmente a indígena, que se levanta e se caracteriza pela luta nas ruas. Acompanharemos.

Fontes

  • “Indígenas iniciam greve nacional no Equador e escalam crise política” – Agência Brasil / O Dia (O Dia)
  • “Equador: Noboa decreta estado de exceção para barrar protestos contra aumento do diesel” – FolhaPress (O Tempo)
  • “’Los declaro personas no gratas en todo el país’, dice Noboa ante anuncio del movimiento indígena de Cotopaxi” – Primicias (Primicias)
  • “Corte do Equador denuncia militarização de sede durante marchas do governo” – Swissinfo / UOL / AFP (UOL Notícias)
  • “Noboa convoca una polémica consulta popular para una Asamblea constituyente” – El País (El País)


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