Desigualdades persistentes impedem avanços na justiça social

O 1% mais rico da população mundial ainda controla 20% da renda e 38% da riqueza, e 800 milhões de pessoas (10% da população) vivem com menos de três dólares por dia

Na imagem, mulher trabalha na área de manutenção do metrô em Quito / BM
Por Inter Press Service – IPS.

GENEBRA – O mundo está hoje mais rico, mais saudável e mais educado do que há três décadas, mas os benefícios não foram distribuídos de forma equitativa e a redução das desigualdades foi interrompida, aponta um relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) divulgado nesta quarta-feira, 24.

Gilbert Houngbo, diretor-geral da OIT, afirmou que “o mundo progrediu de maneira inegável, mas não podemos ignorar que milhões de pessoas continuam excluídas da oportunidade e da dignidade no trabalho”.

“A justiça social — acrescentou — não é apenas um imperativo moral: é essencial para a segurança econômica, a coesão social e a paz” no planeta.

O novo relatório destaca avanços na redução da pobreza, na educação e na produtividade, mas mostra um estagnação nos últimos anos, com desigualdades profundas e uma perda de confiança nas instituições.

Entre os avanços significativos desde 1995, quando foi realizada em Copenhague a primeira Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Social, o relatório menciona que a pobreza extrema caiu de 39% para 10% da população mundial.

“O mundo progrediu de maneira inegável, mas não podemos ignorar que milhões de pessoas continuam excluídas da oportunidade e da dignidade no trabalho. A justiça social não é apenas um imperativo moral: é essencial para a segurança econômica, a coesão social e a paz.” — Gilbert Houngbo

A taxa de trabalho infantil, entre crianças de cinco a 14 anos, foi reduzida pela metade (de 20% para 10%); em 2024, as pessoas empregadas em situação de pobreza representavam 6,9% (eram 27,9% no ano 2000) e, pela primeira vez, mais da metade da população mundial conta com cobertura de proteção social.

O relatório, intitulado “A Situação da Justiça Social: Progresso em Curso”, é publicado como preparação para a segunda cúpula, que será realizada em novembro próximo em Doha.

O documento destaca déficits graves e persistentes, como o fato de que 71% da renda ainda é determinada por condições de nascimento, como o país ou o sexo.

O 1% mais rico da população mundial ainda controla 20% da renda e 38% da riqueza, e 800 milhões de pessoas (10% da população) vivem com menos de três dólares por dia.

A diferença de participação no mercado de trabalho entre homens e mulheres diminuiu apenas três pontos percentuais desde 2005 e permanece em 24%. No ritmo atual, será necessário um século para eliminar a diferença salarial de gênero.

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A informalidade caiu apenas dois pontos percentuais em duas décadas e ainda afeta 58% dos trabalhadores no mundo.

A confiança nas instituições caiu globalmente desde 1982, refletindo uma frustração crescente com a falta de reconhecimento justo pelo esforço.

A OIT alerta que, se o contrato social não for reforçado, essa erosão pode colocar em risco a legitimidade dos sistemas democráticos e da cooperação internacional.

As conclusões e a cúpula de Doha surgem em um momento de transformações profundas, aponta o estudo, com mudanças ambientais, digitais e demográficas que estão reconfigurando os mercados de trabalho rapidamente. E, sem políticas deliberadas, essas transições podem agravar as desigualdades.

Com medidas adequadas — como investimento em capacitações, proteção social, sistemas salariais justos e políticas ativas de emprego — essas transições podem se tornar motores de inclusão e resiliência, sublinha o relatório.

O informe clama por uma ação urgente para combater as desigualdades no acesso a oportunidades, garantir uma distribuição mais equitativa dos benefícios econômicos e gerir as transições ambientais, digitais e demográficas para que ninguém fique para trás.

Ressalta a necessidade de colocar a justiça social no centro de todas as políticas — da financeira à industrial, passando pela sanitária e climática — e de reforçar a cooperação entre governos, instituições internacionais e atores sociais para oferecer respostas coerentes aos desafios globais.

Essa visão começa com a aplicação efetiva das instituições trabalhistas já existentes, como os sistemas de proteção social, as políticas ativas do mercado de trabalho e as proteções laborais.

Entre as políticas ativas de mercado de trabalho, a OIT propõe intensificar os programas de formação, os serviços de intermediação de emprego, os programas públicos de emprego de curta duração, os subsídios salariais, os incentivos à contratação e o apoio ao empreendedorismo e ao trabalho autônomo.

Um elemento central necessário é “um diálogo social sólido, por meio do qual os interlocutores sociais contribuam para formular os resultados e as soluções”, e, para a OIT, também “é essencial acabar com a fragmentação das políticas em nível nacional e global”.

Este texto foi publicado originalmente pela Inter Press Service (IPS)

 


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