Por Tali Feld Gleiser, para Desacato.info.
Em setembro de 1982, o mundo assistiu horrorizado ao massacre de Sabra e Chatila, quando centenas de milhares de refugiados palestinos foram assassinados no Líbano, em campos sob cerco das Forças de Defesa de Israel (FDI). Quatro décadas depois, a memória desse episódio ecoa diante da violência sistemática praticada pelo Estado de Israel contra a população palestina, intensificada sob o governo de Benjamin Netanyahu. O genocídio atual em Gaza e na Cisjordânia não pode ser entendido isoladamente: é resultado de um projeto colonial de longa duração, fundamentado no sionismo e na ideia de eliminar ou apagar a presença palestina da história e da geografia.
Sabra e Chatila: o massacre de 1982
O massacre ocorreu entre 16 e 18 de setembro de 1982, em meio à invasão israelense do Líbano. Tropas israelenses, que cercavam os campos de refugiados palestinos de Sabra e Chatila, permitiram a entrada de milicianos cristãos falangistas libaneses, que executaram entre 800 e 3.500 civis — em sua maioria palestinos e libaneses pobres (MORRIS, 2001). A Comissão Kahan, criada em Israel, reconheceu a responsabilidade indireta do então ministro da Defesa, Ariel Sharon, por não impedir os massacres (ISRAEL, 1983).
Esse episódio marcou o mundo como um símbolo do abandono internacional diante da vulnerabilidade dos palestinos. A impunidade foi evidente: Sharon manteve carreira política ascendente, chegando a primeiro-ministro.
O projeto sionista e o apagamento da Palestina
O massacre de Sabra e Chatila não foi um fato isolado, mas expressão de uma lógica que atravessa a história do sionismo. Desde o final do século XIX, o movimento sionista construiu seu discurso legitimador sobre o lema “uma terra sem povo para um povo sem terra”. Essa formulação ocultava deliberadamente a presença de uma sociedade árabe palestina viva e estruturada na região (SAID, 1979).
A criação do Estado de Israel em 1948 implicou a Nakba, catástrofe que expulsou mais de 750 mil palestinos de suas terras (PAPPÉ, 2006). Essa limpeza étnica marcou o início de um processo contínuo de apagamento da identidade palestina: destruição de vilarejos, renomeação de territórios, proibição de retorno e sistemática criminalização da resistência.
Netanyahu e a intensificação genocida
Sob o governo de Benjamin Netanyahu, Israel levou o projeto colonial a um novo patamar. A ofensiva contra Gaza desde 2023, com dezenas de milhares de mortos, casas demolidas, escolas e hospitais bombardeados, é qualificada por diversos juristas e organismos internacionais como genocídio (ALSTON, 2024). Assim como em Sabra e Chatila, a população civil é alvo direto da violência, mas agora em escala ainda mais massiva e tecnologicamente sofisticada.
O paralelo é inevitável: em ambos os casos, Israel age ou permite que se cometa extermínio contra palestinos, com a diferença de que hoje é o próprio Estado israelense que organiza e executa diretamente a destruição.
O massacre de Sabra e Chatila permanece como ferida aberta na memória palestina e na consciência mundial. Sua lembrança é fundamental para compreender que o genocídio atual em Gaza e na Cisjordânia não é acidente, mas continuidade de um projeto sionista de colonização e apagamento. Reconhecer essa trajetória histórica é condição para enfrentar a impunidade e defender o direito à autodeterminação do povo palestino.
Referências
ALSTON, Philip. Israel and the Crime of Genocide: Legal Perspectives on Gaza 2023–2024. New York: Columbia Global Reports, 2024.
ISRAEL. Report of the Commission of Inquiry into the Events at the Refugee Camps in Beirut (Kahan Commission). Jerusalem: Government of Israel, 1983.
MORRIS, Benny. Righteous Victims: A History of the Zionist-Arab Conflict, 1881–2001. New York: Vintage, 2001.
PAPPÉ, Ilan. The Ethnic Cleansing of Palestine. London: Oneworld, 2006.
SAID, Edward. The Question of Palestine. New York: Vintage Books, 1979.
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