Tribalismo contemporâneo e a armadilha das divisões. Por Francisco Fernandes Ladeira.

Por Francisco Fernandes Ladeira.

Em um mundo cada vez mais interconectado, as sociedades paradoxalmente fragmentam-se em grupos menores e, não raro, hostis entre si. Esse fenômeno pode ser compreendido pela tensão entre dois conceitos antagônicos: tribalismo e universalismo. Enquanto o primeiro reforça lealdades restritas a grupos étnicos, ideológicos ou políticos, o segundo defende princípios que transcendem divisões, como direitos humanos, cooperação global e uma identidade comum enquanto espécie.

Pensadores como Freud e Norbert Elias já observaram que grupos sociais frequentemente se unem em torno de um “outro” – o inimigo externo que fortalece sua coesão interna. No entanto, a humanidade, em escala global, não tem um “outro” claro contra o qual se mobilizar. Durante a pandemia de Covid-19, o novo coronavírus poderia ter assumido esse papel, unindo sociedades em uma resposta coletiva. Em vez disso, o que predominou foram acusações mútuas, teorias da conspiração e polarização radical. O tribalismo, mais uma vez, venceu.

As redes sociais também potencializaram esse mecanismo ao facilitar a criação de bolhas ideológicas, onde indivíduos interagem apenas com quem compartilha suas visões. Essa dinâmica não é exclusividade do mundo digital – a busca por afinidade é tão antiga quanto a humanidade –, mas a internet a intensificou, transformando diferenças políticas e culturais em abismos intransponíveis.

No cenário político, o tribalismo manifesta-se tanto na extrema-direita – que cultiva nacionalismos excludentes – quanto em certos discursos identitários que, em vez de promover a igualdade universal, fragmentam a sociedade em microgrupos. Opostos na superfície, ambos os lados operam sob a mesma lógica: a oposição entre “nós” e “eles”.

Até na ciência há uma busca para justificar o tribalismo. A psicologia evolutiva sugere que nossos ancestrais sobreviveram graças à cooperação em pequenos grupos, desenvolvendo uma desconfiança natural em relação a estranhos. Esse instinto, outrora adaptativo, tornou-se um obstáculo em um mundo que demanda soluções globais para crises como mudanças climáticas, desigualdade e pandemias.

Portanto, se quisermos enfrentar os desafios do século XXI, precisamos romper com o tribalismo. As respostas devem ser universais, não tribais, pois, como lembra o filósofo Kwame Anthony Appiah, “nenhuma tribo sozinha resolverá problemas que afetam a todas”.

Francisco Fernandes Ladeira é Doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Licenciado em Geografia pela Universidade Presidente Antônio Carlos (Unipac). Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).

 

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