Folha de S.Paulo mira em Eduardo para acertar Tarcísio

Por André Luiz Pereira.

O mais recente editorial da Folha de S.Paulo é direto: aponta Eduardo Bolsonaro como o principal responsável pelas tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil: um “tarifaço” que ameaça setores estratégicos da economia nacional.

Todo ataque a este golpista e entreguista é pouco, mas sua importância real ficou muito exagerada. Ainda que o clã Bolsonaro tenha contribuído para tumultuar as relações diplomáticas entre Brasil e EUA — e tente agora usar a tensão como última cartada para evitar a prisão de Jair Bolsonaro —, está longe de ser o fator determinante no cálculo de Trump.

O alvo real do editorial não é Eduardo nem o próprio ex-presidente. O alvo é Tarcísio. A Folha, como instrumento de setores expressivos da burguesia brasileira, utiliza o editorial para cobrar uma definição inequívoca do governador. Diante das recentes pressões públicas de lideranças bolsonaristas como Eduardo Bolsonaro e Silas Malafaia, que exigem alguma demonstração de lealdade de Tarcísio, o jornal envia um recado claro: não há mais espaço para dubiedade. Ou ele se alinha aos interesses do capital brasileiro, ou afunda junto com o bolsonarismo ideológico. NÃO HÁ MAIS ESPAÇO PARA SUA POLÍTICA DE MEIO TERMO.

Nesse sentido, a Folha atua como porta-voz dos interesses comuns da burguesia nacional, coisa que nenhum partido têm conseguido fazer dentro do Estado. Trump e seu partido, por sua vez, já deixaram claro de que lado estão: com seu agronegócio, com as Big Techs e os grandes bancos. As medidas anunciadas contra países da África, Ásia e América Latina acarretarão perdas bilionárias para as burguesias dessas regiões, que não conseguem competir com o poder de compra do dólar, amparado por subsídios fartos e pela posição privilegiada da economia americana. Essa ofensiva não é apenas comercial: é um movimento para reposicionar os Estados Unidos como centro absoluto do capitalismo global diante da ameaça chinesa, restabelecendo barreiras que limitam o desenvolvimento das economias de países dominados.

Mais do que proteger seus próprios mercados, Trump busca refazer certas regras do jogo. Pressiona por “liberdade” para que grupos financeiros norte-americanos operem no Brasil sem qualquer regulação, enfrentando iniciativas como o Pix, que barateia os pagamentos e podem vir a democratizar o crédito e reduzem custos de vida para os brasileiros todos os dias. Quer impor um modelo de internet onde as big techs estão acima das leis — um ambiente fértil para a desinformação, para o ódio e crimes de todo o tipo. E, em troca de concessões comerciais e diplomáticas, deseja acesso privilegiado aos nossos recursos naturais, como as terras raras, cada vez mais estratégicas.

Para o Brasil, as consequências são catastróficas. A classe trabalhadora será a primeira a pagar a conta: o desemprego, a inflação, a perda de renda e a redução dos recursos destinados aos serviços públicos são ameaças diretas num cenário de queda brusca das exportações e da arrecadação do Estado. Os impactos sobre áreas essenciais como saúde, educação e infraestrutura serão enormes. São milhões de famílias ameaçadas com o desalento e a humilhação.

Diante desse quadro, não há espaço para neutralidade. Quem ama o Brasil, quem sonha com um país mais democrático, justo, soberano e desenvolvido, precisa resistir a esse projeto de dominação. Donald Trump não foi eleito para governar o mundo, muito menos o nosso país. Seu programa representa uma ameaça direta à soberania nacional, à democracia e à dignidade do povo brasileiro.

André Luiz Pereira é professor de História e doutorando em História na Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC.

 


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