Pode parecer estranho fazer vinculação entre Tanaru – o índio do buraco, que viveu no estado de Rondônia – e Pepe Mujica – ex-presidente do Uruguai – nesse tempo de perdas e profundas memórias.
Tanaru foi o último sobrevivente de um povo, ele resistiu aos genocidas colonizadores, que tomados de ganância, racismo e ódio, aniquilaram os seus.
Tanaru lutou por sua vida, pelas florestas, águas, animais, em defesa dos espíritos e das memórias dos que sucumbiram.
Tanaru percorria seu território e abrigava-se, protegido dos invasores, em buracos por ele escavados, onde descansava e aguardava o perigo se distanciar.
Mujica foi um guerrilheiro da justiça e da liberdade, não pensava em si, mas nos homens e mulheres subjugados pelos opressores.
Mujica foi perseguido, capturado, torturado e preso por doze longos anos – grande parte deles – dentro de um buraco, porque não bastava prendê-lo, precisavam afastá-lo de qualquer contato.
Mujica, ao longo de sua tortuosa prisão, cultivou a reflexão e manteve-se consciente, porque, segundo ele, conversava, dentro do buraco, com as formigas, as únicas companheiras na solidão.
Tanaru fez do buraco o lugar de proteção, abrigava-se como se fosse um manto de invisibilidade, ao passo que para Mujica o buraco tornara-se espaço de castigo por conta dos ideais que representava, defendia e sustentava como missão.
Mujica, ao libertar-se, inundou o planeta com mensagens de libertação, fomentou a paz, cativou os jovens e sua voz ecoou, guiando gerações.
Sábio, chegou à presidência do Uruguai, quando, com humildade, governou sem se deixar levar, antes e depois de ser governo, pelas mazelas das elites e do poder.
Mujica optou pela simplicidade, viveu seus dias numa casa pequena, onde, com sua esposa Lucía Topolansky e a cachorrinha Manuela – de três pernas-, recebia familiares e amigos e confraternizava junto a eles.
Seus passeios eram através de um “fusca azul -1987”- , e quando viajava para outros países, a convite, pregava com entusiasmo o amor, a generosidade, a amizade e justiça social.
Tanaru era o guardião do território e o compartilhou, durante os dias e as noites adentro, com as aves, os animais silvestres, as árvores e os espíritos da natureza.
Tanaru e Mujica se prepararam para a despedida, cada qual ao seu modo: Tanaru vestiu-se de adornos com as penas das araras, suas amigas, teceu uma rede, construiu um “tapiri”- pequena casa de palha – amarrou a rede tecida por suas mãos, deitou-se nela e entregou-se aos ancestrais.
Mujica disse que sua jornada terminava agora, despediu-se dos amigos e exigiu ser enterrado no sítio onde residia, ao lado de sua cachorrinha Manoela.
Tanaru e Mujica, homens de um mesmo tempo, de culturas diversas, de territórios desiguais, mas com as mesmas místicas e radicais compromissos pela humanidade, pelo meio ambiente protegido, por um outro mundo possível, por uma terra sem os males.
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Roberto Antônio Liebgott é Missionário do Conselho Indigenista Missionário/CIMI. Formado em Filosofia e Direito.
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