Jornalistas da GloboNews recorrem ao identitarismo para atacar Lula. Por Francisco Fernandes Ladeira.

Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

Por Francisco Fernandes Ladeira.

No último 8 de março, Dia Internacional da Mulher, Jair Bolsonaro soltou mais uma de suas pérolas. Para ele, as mulheres petistas são feias e “incomíveis”. Como era de se esperar, houve grande repulsa à declaração do ex-presidente nas redes sociais, principalmente levando em conta o simbolismo da data.

Por outro lado, na grande mídia, não houve reação similar. A infeliz declaração de Bolsonaro, figura sempre presente nos noticiários, praticamente passou desapercebida. Nem no Grupo Globo, conhecido por sua demagogia identitária, supostamente em defesa das minorias, encontramos maiores críticas ao inelegível.

Nesse sentido, como bem pontuou o professor Wilson Ferreira, no blog Cinegnose, uma mulher deixa a sua identidade feminina se for petista. Vira “não-mulher”. Foi assim, por exemplo, com Dilma Rousseff, que sofreu inúmeros ataques misóginos quando era presidenta, porém não recebeu qualquer tipo de sororidade por parte das articulistas da imprensa hegemônica. Parafraseando George Orwell, na mídia corporativa, as mulheres são todas iguais, mas umas são menos iguais do que outras.

Já na quarta-feira (12/3), respondendo à provocação de Bolsonaro, o presidente Lula, após nomear Gleisi Hoffmann para a Secretaria de Relações Institucionais, afirmou que escolheu uma “mulher bonita” para diminuir a distância entre Executivo e Congresso. Foi o suficiente para que a grande mídia fizesse tempestade em um copo d’água.

Na GloboNews, Andréia Sadi, encenando uma indignação digna de Óscar, afirmou ter ficado estarrecida com a declaração de Lula, que, segundo ela, “desqualifica a mulher que é Gleisi Hoffman”. E reiterou: “Desculpe o meu tom. É impossível não ficar indignada. A gente está em 2025, pelo amor de Deus. Não me venha com essa conversa ‘ah, é de outra geração’. Não! Não tem espaço para isso”. Em sequência, para completar o script de indignação seletiva do órgão de imprensa da família Marinho, Flávia Oliveira afirmou ser “lamentável” a fala do presidente.

Não bastasse o ataque rasteiro da GloboNews, Lula também foi alvo do chamado fogo amigo. No canal “Galãs Feios”, Helder Maldonado e o ex-Jovem Pan, Cesar Calejon, fazendo coro com as jornalistas da GloboNews, classificaram a fala do presidente, sobre nomear uma mulher bonita para articulação, como “cagada”, “erro crasso” e “ruído desnecessário”. Além disso, Maldonado sugeriu a criação de um “Departamento ‘do que vai dar merda!’” para evitar “falas polêmicas” do presidente.

Em suma, a (desproporcional) repercussão da declaração de Lula traz dois pontos para refletirmos. O primeiro é o fato de que muitos na esquerda – sem agenda própria e adeptos de um politicamente correto paranoico – tem ficado cada vez mais a reboque dos discursos da grande mídia, repetindo-os a partir de um verniz supostamente progressista. Por outro lado, na grande mídia, para atacar o presidente Lula vale tudo. Inclusive lembrar que a “radical” Gleisi Hoffmann, mesmo sendo petista e um dos nomes mais combativos da esquerda, também é mulher.

 

Francisco Fernandes Ladeira é Doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Licenciado em Geografia pela Universidade Presidente Antônio Carlos (Unipac). Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).

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