Livro infantil de autor indígena aborda a importância das sementes crioulas

Kamuu Dan Wapichana apresenta texto bilíngue inspirado na história do Santuário dos Pajés, em Brasília (DF)

Por Cristiane Sampaio
Escritor indígena Kamuu Dan Wapichana, autor do livro recém-lançado “O sopro da vida” / Leonardo Milano

A preocupação do povo indígena com a preservação de sementes naturais saltou da realidade para o universo da literatura infantil. Recém-publicado pela editora Expressão Popular, o livro “O sopro da vida”, de autoria do escritor indígena Kamuu Dan Wapichana, traz à tona a temática, que está entre os aspectos centrais da luta pela preservação do cerrado brasileiro, alvo de intensa especulação agrária por parte de ruralistas e multinacionais do setor.

De acordo com Wapichana, embora não indique diretamente o nome de lugares específicos, o enredo foi inspirado na história do Santuário dos Pajés, em Brasília (DF), território indígena onde vive o autor.

Alvo de aliciamento constante de construtoras que, ao longo da última década, ocuparam parte da área para expandir prédios de luxo numa nova zona residencial da cidade, a comunidade do Santuário trava uma disputa permanente pela preservação do terreno, marcado pela vegetação do cerrado e por uma rica variedade de espécies botânicas da região.

Para Kamuu, a história do Santuário reflete a realidade de diferentes comunidades populares do Brasil que trabalham pela manutenção da riqueza natural do cerrado – região marcada pela diversidade de sementes naturais, como copaíba, sucupira, milho, jatobá, urucum e outras.

Com base nisso, o autor criou, para o livro, uma narrativa conduzida pelo menino Win Dan, de 4 anos, que pretende salvar as chamadas “plantas bebês”, numa referência às sementes naturais. O personagem tem o mesmo nome do filho mais novo do escritor e, segundo Kamuu, a história foi tecida a partir da tentativa de deixar para a criança um legado voltado à importância da conservação da natureza.

“É numa perspectiva de que ele faça a mesma coisa de tratar bem o cerrado, a água, de ver a riqueza do cerrado no meio de uma situação urbana, aí nasce ‘O sopro da vida’”, afirma o escritor, que é autor também do livro “A árvore dos sonhos”, obra que ficou em segundo lugar no Concurso FNLIJ/UKA Tamoios de Textos de Escritores Indígenas em 2016.

Indicado para crianças da faixa etária do ensino fundamental, o novo livro nasce também da necessidade do autor de ter um material de referência para promover a educação ambiental na formação infantil.

Servidor da Funai desde a década de 1990, Wapichana atua também como educador social em escolas de Brasília para divulgar a cultura indígena por meio de atividades que promovem a consciência ambiental. Com a publicação de “O sopro da vida”, o autor espera potencializar o trabalho.

“As pessoas não estão percebendo este contexto que está ocorrendo. O nosso mundo começa a entrar em colapso por conta do tema ambiental, que é o que eu trago pras crianças, pras elas começarem a perceber isso e tratarem bem as sementes, porque só com as sementes vamos ter floresta. E tem que ser agora, tem que ser urgente”, complementa.

O tema abordado na obra se conecta diretamente com a militância popular contra o avanço de alimentos geneticamente modificados, os chamados “transgênicos”, associados às práticas do agronegócio. Kammu Dan Wapichana lembra que o modelo de produção contrasta com a defesa e a preservação das sementes naturais, também nomeadas de “sementes crioulas”.

Produzidas geralmente por indígenas, quilombolas e agricultores familiares, essas variedades hoje estão ameaçadas pelo crescimento dos latifúndios, que produzem em larga escala e se dedicam especialmente a cultivos como os de soja e milho.

“Nós não sabemos o que estamos consumindo nos mercados. A maioria dos produtos feitos do milho, por exemplo, é transgênica. Eles [os ruralistas] cada vez mais devastam o nosso território e comercializam sementes que não são mais as naturais da nossa região, então, a gente precisa resgatar urgentemente essas sementes tradicionais, senão daqui a um tempo não tem mais como plantar”, defende o escritor.

Bilíngue

Outro aspecto de realce na obra é o caráter inclusivo do material, cuja edição é bilíngue, sendo publicada em português e em wapichana, idioma nativo dos pais do autor. Para Kamuu, a obra colabora com a promoção da cultura e da literatura indígenas, além de enriquecer o acervo da língua, ainda precário. O idioma é falado por comunidades do interior de Roraima, estado onde nasceu o escritor.

“Como eu não tive essa oportunidade de ter a língua wapichana dentro da escola, tenho uma satisfação imensa de poder ajudar [as novas gerações]. Os parentes ficaram super contentes com isso. O Brasil tem 274 línguas indígenas e não valoriza essa diversidade. Então, o livro é uma maneira de valorizar inclusive o povo brasileiro, que tem toda essa riqueza”, conta.

Simbiose

Para o autor, o livro é também um meio de valorização da interação entre homem e natureza, uma combinação de destaque na cosmovisão indígena, cujos ensinamentos atravessam tempos e gerações na busca por uma relação saudável entre as duas partes.

“Pra nós, a floresta é nossa morada, a terra é nossa mãe e a água é nossa irmã. Tem vários elementos que a gente não pode dissociar, e um deles são as sementes. Não podemos perdê-las porque, quando a gente perde uma árvore, morre também um ser dentro da gente. Na minha visão como indígena, vejo as plantas como irmãs e as sementes como bebês, por conta do cuidado que a gente tem com elas. Eu sou parte desse grande todo e dessas sementes. Eu também sou uma semente”, poetiza Wapichana.

Já lançada em Brasília (DF) e em Boa Vista (RR), a obra  tem previsão de lançamento também em Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo e Goiânia.

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