“Zeladores da nova moral querem queimar livros clássicos”: Ana de Hollanda sai em defesa do irmão Chico Buarque

Publicado em: 12/08/2017 às 15:56
“Zeladores da nova moral querem queimar livros clássicos”: Ana de Hollanda sai em defesa do irmão Chico Buarque

Por Ana de Hollanda. 

Não costumo postar comentários sobre o que se fala de Chico, até porque, além de nunca ter agradado a todos – o que é normalíssimo – ele não precisa de mim para defendê-lo.

Mas o fato é que vejo gente que acredita estar abraçando uma causa progressista ao fazer coro a oportunistas de sempre que usam a popularidade dele para se projetar midiaticamente, através de qualquer polêmica.

Há décadas a Folha de São Paulo – na época rompida explicitamente com Chico – costumava contratar garotos recém-formados para escreverem críticas detonando os trabalhos dele, declarando ser um artista ultrapassado, “datado”, medíocre etc. etc. etc.

Isso repercutia em todos os cantos e o jornalista anônimo, de uma hora para outra, se tornava celebridade entre os “a favor” e “os contra”. Repetia a receita com outros artistas consagrados até que, depois de uns dois anos de polêmicas, já desgastado, era substituído por outro que aceitava a mesmíssima tarefa.

Hoje, esses cinquentões estão soltos por aí, tentam conquistar alguma credibilidade, chegam a se declarar de esquerda e fazem o possível para que seus artigos na FSP permaneçam esquecidos.

Mas o fato é que agora, em função da canção recentemente lançada, TUA CANTIGA, parceria com Cristovão Bastos, pipocou nas redes uma série de artigos de figuras desconhecidas da quase totalidade dos leitores, com novas polêmicas, sendo mais frequentes as que acusam Chico de, além de velho, decadente, “datado” e ultrapassado, ser machista que não representa as mulheres contemporâneas (como se algum dia ele tivesse reivindicado o direito de representar quem quer que fosse, em relação a qualquer assunto).

A frase escolhida para detonar a convulsão foi declarar à amada: “largo mulher e filhos”, de onde se deduz que o autor cultiva o adultério, coisa e tal. Imagino que as puritanas neo-feministas nunca ouviram falar em Simone de Beauvoir, o que não deve vir ao caso, porque esta também pertence ao século passado.

Mas condenam o autor da frase, sem terem se dado conta de que os personagens das canções de Chico – aliás, de qualquer ficcionista – não costumam ser autobiográficos. Que o compositor descreve situações e sentimentos corriqueiros, e até comuns, concordando ou não com eles. E que a criação artística é livre, ao contrário de uma tese acadêmica.

Mas, se for pelo caminho dos zeladores da nova moral, vamos nos preparar para a queima de livros clássicos dos séculos anteriores e para a censura aos maiores autores do cancioneiro popular do século XX. Na real, o que esse tipo de gente não admite é o sucesso de compositores que ocupam a mídia há mais de meio século.

No caso específico, condena a obra e os autores, sem ter ideia de que o lundu feito por Cristóvão, estilo musical quase extinto, herança dos escravos, serviu de inspiração para Chico criar uma letra condizente, com imagens e expressões raras no linguajar atual.

Mas pelo visto, isso tudo é sutileza demais para tempos em que uma reflexão não pode ocupar mais do que 140 caracteres. Os novos reguladores da moralidade pública, representando a intolerância que vem ganhando adeptos no planeta, mostram sua cara amoldada para os tempos de Temer, de Trump, de Bolsonaro, de Crivella e outros fundamentalistas que ameaçam a liberdade de ideias, de criação e de opção de vida.

Fonte: Diário do Centro do Mundo.

6 Comentários para "“Zeladores da nova moral querem queimar livros clássicos”: Ana de Hollanda sai em defesa do irmão Chico Buarque"

  1. Manu   14/08/2017 at 22:09

    Não acho que a crítica seja por aí. Eu sou apaixonada por Chico Buarque há tanto que já é um amor eterno. Cada época tem seus filhos e suas obras. Não justifica queimar livros que sobre a ótica de novos tempos são considerados racistas. Como não justifica penetrar comportamentos racista e machistas.
    Mulheres de Atenas não fazia sentido para mim quando criança. Com Açúcar com afeto, Geni e o Zeppelin só com tempo descobrir que por meio de uma subserviência dos versos havia uma forte crítica social. É Chico a arte da sutileza de dizer o indizível dizendo.
    Todo sentimento é uma das mais belas canções do Chico, como Tua Cantiga tem sua delicadeza de um encontro de dois gigantes.
    O que não tira o machismo da música há contextos e contextos.

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  2. Mary   14/08/2017 at 16:25

    A primeira coisa que pensei foi na Amélia do Mário Lago, na Juventude Transviada belíssima na voz do Luiz Melodia…enfim, sem dúvida essas críticas são medíocres e espelham o atual momento de culto ao ódio e à moral hipócrita de quem não consegue brilhar com brilho próprio. Lembro às figuras que tem muuuuuiiiita purpurina sobrando por aí! Chico me representa como representa todos que gostam da boa música.

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  3. alexandraspereira   14/08/2017 at 13:20

    Não concordar é muitooooo diferente de querer queimar na fogueira, gente. Algum bom-senso é necessário. Bom, na real é muita presunção pensar que quem não gosta da mensagem da canção não conhece nem Simone Beauvoir, nem sabe o que é uma imagem, uma metáfora, etc etc…. Pelo visto, Ana de Hollanda “endeusa” Simone de Beauvoir, não distinguindo a mulher da autora (a gente na Europa está beeeem acostumado a lidar com os defeitos dos autores)…. basta saber da quantidade de ex-alunas (menores, quando os fatos ocorreram) e seus familiares que acusaram Beauvoir de se aproveitar da sua posição de professora para as seduzir, usar…. e mais tarde as “passar ao marido”…. faz o que eu digo não faças o que eu faço… tão à letra. Achar que um bom intelectual é alguém moralmente irrepreensível ou que não pode ser questionado soa, a nós na Europa, como muuuuitooo infantil. Mas bem. Essa explicação para a letra não convence porque a) não houve qualquer contextualização da letra antes de lançar a cantiga b) podia ser isso que o autor tivesse em mente, mas não foi isso o que ele comunicou c) a arte não é inocente d) a arte deve estimular a discussão e não tentar calar as pessoas.

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  4. Lia jussara da Silva pioner   14/08/2017 at 13:14

    Grande Lele por essas e outras eh que sempre foste minha líder! concordo plenamente com Ana que defendeu Chico como tbm concordo com vc Lele…que mto sutilmente levanta a hipótese de que é preciso ouvir melhor a can
    ção…para criticar seu autor!
    O importante eh que Chico coloca o adultério acima do casamento mas afirma abandonar a mulher e filhos para viver intensamente o amor.
    o personagem da música eh doce ,meigo ,gentil e apaixonado. Mto melhor que os personagens amantes de músicas sertanejas!Liapioner
    .

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  5. palavrassobreamor   14/08/2017 at 10:49

    Houve uma epoca em que os livros classicos eram combatidos por gente de nova cepa. Hoje essa mesma gente se entroniza como classica e acha que as posturas contrarias a ela sao por parte de gente ignorante. Pode ser, mas ee bastante engracado, isso

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  6. Rosângela de Souza   13/08/2017 at 18:30

    A música é linda e emocionou-me e quando ouvi “largo mulher e filhos”, fiquei meio surpresa, mas pensei: o tesão faz isso e não tem muita racionalidade, além disso a obra do artista não é o artista. Quando ouvi as críticas, fiquei meio enojada com este papo feminista de araque.

    Um dia desses uma militante ficou pessoalmente ofendida porque critiquei uma tal de Uda, ligada aos Amins e que em troca de votos na década de 80 e 90 recebia carrinhos de pipocas, de cachorro quentes, etc. para distribuir aos eleitores pobres. A militante de ascendência afro ficou ofendida porque a Uda é também afro brasileira e enquanto tal, eu, uma branca, não poderia criticá-la, mesmo sendo uma crítica política, não pessoal. Quando fui presa, o policial que trouxeram da Bahia para nos interrogar era negro e gritava, dava socos na mesa, ameaçava…não posso denunciá-lo porque era afro descendente?

    Acho que há um pouco de exagero…há que cuidar. Lelê

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