Violência e solidariedade

Publicado em: 09/03/2011 às 08:30
Violência e solidariedade

 

Na segunda-feira (7), fui cedo novamente para a rádio. A possibilidade de me conectar à internet, checar e-mail e falar com pessoas queridas foram grandes incentivos para pular da cama com o céu ainda escuro. Fiquei conectada e conversando com o técnico da Rádio Globo, Manuel Ordoñez, que auxiliava Rony, na transmissão das notícias do primeiro programa do dia. Além da gripe, compartilhei com ele uma experiência um pouco assustadora aqui em Tegucigalpa. Na noite anterior, quando já estava na cama, ouvi muitos barulhos de tiro e pessoas gritando. Fiquei com medo, mas como não senti movimento do pessoal da casa, conclui que poderia ser algo normal.

Manuel disse que dormiu pouco nessa mesma noite também. Um vizinho agrediu a esposa, física e verbalmente, “por várias horas” e ele acompanhou tudo pelo som que faziam. Depois de algum tempo, Manuel e mais dois homens foram até o local e bateram no agressor. Não consegui disfarçar meu espanto enquanto ele ria e arrumava seu rabo de cavalo escuro e brilhante. Perguntei se o homem estava bêbado, ele disse que não, mas que havia usado drogas e a mulher estava toda machucada.

Por volta das 9h, deixei a rádio com Mario Castro, que tentava desesperadamente entrar em contato com seu não tão fiel escudeiro, o cinegrafista Chuck. Fomos ao Hospital Escuela, onde participamos do lançamento da Semana Del Riñon, que tem como objetivo levantar fundos para manter o Serviço de Nefrologia Pediátrica e os transplantes de rim, assim como, chamar a atenção popular para as doenças renais. Durante toda essa semana, as mães de crianças com problemas nos rins (quase todas de cidades vizinhas da Capital) e outros voluntários, estão cozinhando pratos típicos hondurenhos, em uma barraca montada em frente ao hospital, para arrecadar dinheiro e pretendem também, na quinta-feira (10), fazer um ato maior de apelo à população.

 

Segundo a chefe do setor de Nefrologia Pediátrica, Dra. Carolina Rodríguez, a ala tem capacidade para 24 pacientes internos e ali se efetuam de 20 a 25 hemodiálises por semana. A Semana é organizada pelas seguintes entidades: Fundación hondureña del niño com insuficiência renal, Fundacion luz y vida e Proyecto de apoyo a niños com insuficiência renal.

Do Hospital Escuela, seguimos para a praça central, onde Mário e Chuck continuariam seu trabalho. Conheci a Catedral de Tegucigalpa, o monumento de homenagem a um dos heróis do país, o general Francisco Morazán (eleito presidente em 1830) e vi vários tipos interessantes.

 

 

 

 

 

 

À pé no chão de pedra

À noite tive o prazer de entrevistar o jornalista hondurenho Ronnie Huete, que esteve exilado em Florianópolis por dois meses e 25 dias, pois estava ameaçado de morte por aqui. Conversamos bastante em um shopping e ele contou sobre suas experiências durante a cobertura jornalística que realizou durante o golpe militar em Honduras, e como sua estadia no Brasil mudou sua forma de pensar. Atualmente, ele não trabalha e nem consome notícias de nenhum veículo jornalístico da região, não está relacionando com nenhum movimento político e social e tem intenções de se mudar do país. Foi uma entrevista bastante proveitosa porque Ronnie comentou pontos que até agora eu não havia escutado. Até esse momento, eu pude perceber que, ou você era do movimento de resistência ou era golpista. Depois dessa conversa, descobri um novo ponto de vista válido e interessante.

Estendemos o encontro, agora com gravador desligado, até o bairro La Leona, onde conheci os tios e o primo do jornalista e casa em que vivem. Estivemos na praça, que é muito bonita e tem uma vista maravilhosa da cidade. Ronnie revelou grande paixão e gratidão por Florianópolis e pelas pessoas que o abrigaram. Seus olhos tinham um brilho diferente, quando se lembrava, por exemplo, do Carnaval, do pirão de água e da Praia Mole. Ele revelou o desejo de voltar à capital catarinense, mas não descarta a possibilidade de ir estudar na Costa Rica.

La Leona tem ruelas estreitas de chão de pedra e um tom sombrio pela noite. Na praça, só era possível ver jovens fumando cigarro e dois homens e uma criança (aparentemente da mesma família) correndo, mas a vista da cidade era surpreendente. A calmaria (ou, a falta de carros e motoristas malucos) nas ruas também chamava a atenção. Que diferença que faz conhecer a cidade à pé! Ronnie me levou na casa de um amigo de infância, o talentoso pintor Denis Berrios, que apesar de ter apenas 25 anos, já é bastante conhecido.

A casa de Berrios também tinha grades na porta, bastante característico da cidade. Nas paredes havia obras lindas, coloridas e expressivas. Ele disse que demorou a atender às batidas na porta porque estava contando uma história para seu filho. Passei pela sala cheia de quadros, segui no corredor e ele afastou uma porta de cortina: lá estava o menino de quatro anos, com traços fortes e típicos de Honduras, num sono profundo e tranqüilo. Berrios me passou seus contatos e perguntei se tinha um número de taxi, mas a resposta foi negativa.

O jeito foi esperar com o artista em sua casa, enquanto Ronnie caminhou até o Centro, descendo uma rua ali perto, para encontrar algum taxi. Em poucos minutos ele apareceu em frente à casa de Berrios e pudemos seguir. Ronnie veio de taxi comigo até a casa onde estou hospedada, por medida de segurança (extremamente necessária, segundo quase todos aqui) e aí nos despedimos.

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