Véspera de Natal como sábado de manhã com sol e pagamento

Por Luciane Recieri, para Desacato.info.

Era véspera de Natal. Lá em casa é todo mundo cristão, porém, apesar de toda cristandade, ninguém se liga em comemorar natal. Tem hora que invejo meus amigos ateus (tenho muitos amigos ateus e eles têm festa com presente e comida), a gente não…

Fica igual, com roupa comum, comendo o comum. Não sei até onde isso é bom, mas é isso que me faz ver segunda-feira de final de mês com chuvisco, como sábado de manhã com sol e pagamento.

Pois é, era por não ter lugar na véspera de natal que fui dar um rolê na cidade. A cidade era longe e ainda é, porque a geografia muda muito pouco. Andei mais da metade do caminho e cansei, porque fazia um calor próprio dos dezembros com horário de verão e siriri, decidi então esperar o ônibus lá em Braz Cubas e o ônibus não vinha nunca mais e isso era a minha sorte do avesso, porque apareceu por lá dois velhos, isso digo com licença do Suassuna que me disse um dia: “chamar velho de idoso é muito feio!” Então… e os velhos sacaram seus cavaquinhos da sacola de ráfia, daquelas coloridas e lascaram um “tá legal, eu aceito o argumento, mas não altere o samba tanto assim.”

Era tudo que precisava. De onde vieram? Por que aportaram ali? Nada havia além de um alojamento para os peões da Camargo Corrêa. Eram nada naquele desolamento: a saudade de casa, a véspera do natal apelando de tudo quanto era jeito. E eles lá, por conta da construção do viaduto. Eles lá, debruçados junto das roupas na janela em cima d’um açougue. Uma barbearia com as portas comuns de barbearia, um jardim mal-cuidado na frente e aqueles velhos com toda aquela bossa como se estivessem no Carnegie Hall com um público muito distinto de só eu e os peões. Eram bons. Bons mesmo. Era só solidão: eu e os velhos, dois cavaquinhos e a peãozada na janela do alojamento.

Era véspera de natal, mas ali parecia não ter folhinha. A gente nem queria comemorar, mas acabou que do nosso jeito, sim. O ônibus veio e fui vendo a véspera virar natal quanto mais saía da perifa.

Sempre que passo por esse ponto, me lembro disso, ontem mesmo passei lá. O viaduto pronto, a praça mal-cuidada. Em cima do açougue atende um advogado. Tem uns 30 anos. Até hoje não tenho natal, mas invejo quem consegue ter.

 

Luciane RecieriLuciane Recieri é cientista social e escritora, em Jacareí /SP

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