Valha-me deus, o que tem Copenhague a ver com Florianópolis?

Foto: Míriam Santini de Abreu

Por Míriam Santini de Abreu, para Desacato.info.

A semana começa com a notícia, destacada pelo Grupo RIC, da presença de uma “missão” brasileira de 48 pessoas em Copenhague, Dinamarca, liderada pelo ministro do Turismo, Vinicius Lummertz. Copenhague tornou-se referência em planejamento urbano, com destaque para o amplo uso da bicicleta como principal meio de transporte. Mas, valha-me deus, o que tem Copenhague a ver com Florianópolis?

A Dinamarca tem um amplo sistema de seguridade social e cobra altos impostos dos mais ricos para manter serviços públicos como educação e saúde a toda a população. No Brasil, quem fala em taxar as grandes fortunas corre o risco de ser apedrejado. Em 2017, por exemplo, os ricos do país ganharam 36,1 vezes mais do que metade dos mais pobres.

O singelo exemplo da bicicleta como símbolo de mobilidade, tão citado nas notícias sobre a tal missão brasileira, evoca números locais alarmantes. O jornal Notícias do Dia, do Grupo RIC, noticiou, em 9 de agosto, que a ausência de políticas públicas é a principal queixa dos ativistas do ciclismo em Florianópolis. A prefeitura prometeu investir, em 2019, 5 milhões no setor cicloviário, recurso a ser captado do Fundo Municipal de Trânsito. Mas 5 milhões é nada, porque a promessa vem do mesmo prefeito que, em 2017, destinou R$ 6,1 milhões para divulgação dos atos do Executivo. E que, neste ano, irrigou a mídia da Capital com milhares de reais para convencer a população de que privatizar saúde e educação via Organizações Sociais é bom negócio. Essas são as reais prioridades. O resto é discurso.

Espantoso é que esta “missão” que foi a tão distantes terras busca trazer bons exemplos para uma cidade onde reina o insólito: esgoto que jorra nas praias em plena temporada de verão, pontes de acesso à Ilha roídas pela má conservação, trânsito caótico, transporte coletivo ruim por priorizar os interesses empresariais… O princípio da administração é fazer a cidade dar lucro. Valha-me deus, o que tem Copenhague a ver com Florianópolis?

Outro fato dá o que pensar. O mesmo Notícias do Dia tem semanalmente publicado notícias sobre as ações de uma “força-tarefa” cujo maior objetivo é “revitalizar” a área que o jornal chama de “cracolândia da Via Expressa”. Tirar dali a população em situação de rua virou prioridade na cidade, porque o lugar por ela ocupado – afirma o jornal  – “expõe a população a doenças”. A ninguém ocorreu formar uma força-tarefa para mapear as áreas públicas da Capital onde é possível construir moradias. Ou para atualizar e cobrar as dívidas dos grandes devedores da prefeitura, entre eles hotéis e construtoras. Ou priorizar a agilidade de atendimento – e não o caixa do Consórcio Fênix – ao definir as mudanças no sistema de transporte coletivo.

O que verão, esses “missioneiros”, na fria Dinamarca? Lembro-me da velha parábola que diz o mesmo de diferentes modos: “Porque, vendo, não enxergam; e escutando, não ouvem, muito menos compreendem”.

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Míriam Santini de Abreu é jornalista em Florianópolis.

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