Vala Comum: documentário revela o destino dos mortos pela ditadura no Brasil

Publicado em: 05/04/2014 às 11:06
Vala Comum: documentário revela o destino dos mortos pela ditadura no Brasil

vala comum

Por Gérson Trajano.

Vala comum é uma cova normalmente localizada em cemitérios onde um conjunto de cadáveres não identificados é enterrado sem nenhuma cerimônia, sem o conhecimento dos familiares e sem nenhum registro oficial. Vala Comum é o titulo do filme que João Godoy realizou em 1994 sobre 1.049 ossadas encontradas em uma cova no cemitério Dom Bosco, no bairro de Perus, periferia de São Paulo.

Em princípio, seis presos políticos deveriam estar enterrados nessa vala: Denis Antonio Casemiro, Dimas Casemiro, Flávio Carvalho Molina, Francisco José de Oliveira, Frederico Eduardo Mayr e Grenaldo de Jesus Silva, mas a exumação mostrou o indício de outros desaparecidos políticos.

O documentário de Godoy traz os depoimentos Egle Vannuchi Leme, Felícia Oliveira, Gertrud Mayr, Gilberto Molina e Ivan Seixas. Gilberto é irmão de Flávio Molina, morto em 1971, Ivan é filho de Joaquim Alencar Seixas, que foi preso e torturado junto com o seu pai, e Gertrud é mãe de Frederico Mayr. Já Egle Leme é mãe de Alexandre Vannuchi e Felícia é mãe e Isis Oliveira. Todos assassinados pelo governo militar instalado no Brasil em 31 de março de 1964.

Emocionada, Egle conta que só ficou sabendo que Alexandre estava preso através de um telefonema anônimo. “Foi o meu filho caçula, José Augusto, quem atendeu o telefone, que dizia que Lê – era assim que a gente o chamava lá em casa – estava preso. Se não fosse esse telefonema, nunca saberíamos o paradeiro do meu filho. Ele seria mais um desaparecido político”.

Vannuchi foi detido, torturado e morto nas dependências do DOI-Codi, em março de 1973. Estudante do curso de Geologia na Universidade de São Paulo (USP), militante de esquerda, ligado à Ação Libertadora Nacional (ALN), tinha 22 anos quando foi morto. A versão oficial, divulgada pela imprensa, dizia que ele teria sido atropelado por um caminhão na esquina da rua Bresser com a avenida Celso Garcia, no momento em que tentava fugir de um cerco policial.

“Eles me deram até a placa do caminhão e o nome do motorista, mas testemunhas viram meu filho ser arrastado da cela em que foi torturado, todo ensangüentado”, diz Egle.

Ivan Seixas, filho de Joaquim Seixas, diz que seu pai foi o primeiro preso político a ser enterrado em Perus. “Ele era militante do sindicato dos Petroleiros lá no Rio de Janeiro e quando houve o golpe ele chegou em casa muito exaltado. Neste mesmo ano o regime já mostrava a sua cara. 18 pessoas foram mortas sob tortura, mas a versão oficial é de que elas se suicidaram”, afirma.

Pai e filho foram presos em São Paulo no dia 16 de abril de 1971 na altura do número 9.000 da rua Vergueiro. Foram levados para o Doi-Codi. Nesse mesmo dia, à noite, os militares prenderam sua mãe e suas duas irmãs, que ficaram encarceradas por um ano e meio.

No dia seguinte, 17, os jornais publicaram uma nota oficial com a notícia da morte de Joaquim fora morto durante um tiroteio com a polícia. “Isso foi uma farsa, meu pai foi morto sob tortura”, afirma Ivan.

Ao mesmo tempo em que são mostrados os depoimentos, o documentário intercala cenas dos presidentes militares prometendo cumprir as leis, promover o bem geral e a integridade do brasileiro. O filme inclui também cenas de uma propaganda oficial que pretendia vender a imagem de uma país forte e que estava se desenvolvendo. Um “pais que vai pra frente”.

Tortura e morte – A partir dos anos 1970 a ditadura civil-militar aperfeiçoa o seu aparato repressivo contra os opositores ao regime. A tortura torna-se prática corriqueira nos interrogatórios e várias pessoas contraria ao governo são assassinadas. Na maioria dos casos, as mortes são ocultadas e os corpos enterrados como indigentes em valas clandestinas.

O cemitério Dom Bosco foi construído pela prefeitura de São Paulo, em 1971, na gestão de Paulo Maluf e, no início recebia cadáveres de indigentes e vítimas da repressão política. Entidades de defesa dos Direitos Humanos e familiares dos desaparecidos já haviam denunciado a existência de uma vala comum na segunda metade dos anos 1970, mas ela só foi descoberta em 4 de setembro de 1990, na administração da prefeita Luiza Erundina.

A vala encontrada no Dom Bosco é uma escavação que possui a largura de uma retroescavadeira, com cerca de 32 metros de comprimento por 3 metros de profundidade, onde foram depositados sacos plásticos com inúmeras ossadas humanas.

Créditos da foto: Divulgação.

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