Unidade eleitoral e enfrentamento à fome e ao fascismo:o caso das eleições em Florianópolis 2020. Por Elenira Vilela.

Por Elenira Vilela, para Desacato.info.

A Frente Democrática Eleitoral construída em Florianópolis foi tomada como um exemplo positivo para todo o Brasil como referência possível de consolidação da unidade das esquerdas tão necessária pra derrotar o golpe e o fascismo. Como tal, é necessário que esta experiência seja analisada e que tiremos lições coletivas do processo.

Destaco inicialmente que faço essa análise sendo militante e dirigente do Partido dos Trabalhadores, tendo sido candidata a vereadora, como militante feminista e sindicalista e como alguém que participa da vida política e das mais diversas lutas populares e da classe trabalhadora nessa cidade desde 1992. Sendo assim, essa não é uma visão neutra, pelo contrário, mas uma análise referenciada em um projeto de superação dessa sequência de projetos políticos destrutivos e que beneficiam um pequeno grupo de empresários e em detrimento da grande maioria da população, especialmente a população negra e periférica. Também o fortalecimento da militância feminista e do Partido dos Trabalhadores como força política na cidade, mas independente disso, luto pelo fortalecimento das forças de esquerda e populares, pelo fortalecimento das lutas da classe trabalhadora, que tem gênero, raça, escolaridade e pelos segmentos oprimidos como PCDs e LGBTQIA+. Essa é a referência principal dessa análise.

Em 9 de agosto passado, pouco antes da confirmação da chapa Elson Pereira (PSOL) para prefeito e Lino Peres (PT) para vice apoiados por uma chapa apoiada também por PCdoB, PDT, PSB, Rede, UCB, UP e mais as organizações políticas UCB e PCLCP e do apoio crítico do PCB publiquei artigo debatendo a construção da frente e aqui vou reforçar e aprofundar o que disse naquele momento. Nesse artigo já discuti alguns elementos que considero essenciais como a necessidade de que os projetos de cada organização partidária possam participar do debate de construção da unidade eleitoral colocando claramente seus projetos e demandas individuais, para que seja possível equacioná-los no processo. Também enfatizei que a unidade não devia ser apenas formal entre as cúpulas partidárias, mas envolver as militâncias de base e de influência dos partidos, além da militância dos movimentos sociais e populares da cidade, porque somente isso poderia construir solidez política para ampliar a base eleitoral e obter resultado nas urnas.

Infelizmente, como já dito no artigo esses dois desafios não foram bem equacionados e entramos na campanha propriamente dita com uma aliança eleitoral que apesar de debatida em algumas dezenas de reuniões ao longo de quase dois anos, não mobilizou militâncias partidárias e populares em uma frente construída em reuniões que envolveram apenas presidentes de partidos e alguns poucos dirigentes e vereadores e que demorou muito para fechar a aliança eleitoral, com muitas questões das organizações frustradas e sem um debate de programa, muito menos de estratégia eleitoral amadurecida.

Unidade eleitoral: a alegria que se tornou frustração

Por esses problemas a campanha inicia sob muita pressão acompanhada de um sentimento de alívio e alegria em toda a militância de esquerda da cidade. Apesar de não ter sido envolvida nos debates, toda a militância democrática da cidade acompanhou o quanto lhe foi permitido todo o processo, assumiu no final postura ativa quando organizações e setores se organizaram para pressionar e cobrar a unidade e a coligação foi considerada muito positiva. Mas a alegria veio acompanhada de grandes expectativas. Cabe lembrar que nas eleições de 2012 e 2016 a militância havia se frustrado pela falta de aliança, mas também pelo tom das campanhas desses partidos, pouco afirmativa, sem demarcar claramente o projeto de esquerda e um programa para a cidade sem marcos importantes, com uma parte das candidaturas sem enfrentar a especulação imobiliária ou os empresários de transporte e outras sem uma posição clara em relação ao golpe que se desenvolvia em 2016.

Havia pouco tempo e o debate sobre o programa da candidatura foi feito novamente envolvendo poucas pessoas (alguns partidos haviam construído algum acúmulo programático com suas militâncias, mas a sistematização foi feita por bem poucas pessoas). Isso não prejudica somente a qualidade da construção programática, mas, especialmente, faz com que haja menos envolvimento na campanha por quem não se sente parte da construção, aumenta a tendência a que as pessoas se peguem nos itens com os quais tem divergência e se desestimulem de fazer campanha ou ainda que tenha mais dificuldade em defender as propostas apresentadas quando questionados pela população em geral.

A falta de debate aprofundado sobre o programa também gera questões sobre a estratégia eleitoral adotada. Não se consegue acúmulo suficiente para decidir quais propostas teriam mais apelo popular e poderiam receber apoio de mais eleitores.

Aí se encontram duas questões: a definição da estratégia eleitoral depende de compreensão das demandas da população e uma correta análise do cenário eleitoral, quais outras forças estavam com força eleitoral. Também era necessário construir mobilização (dificultada por um contexto de pandemia), campanha de Rádio e TV, relação da campanha majoritária com as mais de 100 candidaturas proporcionais, a campanha em redes sociais e ainda a relação com a imprensa comercial e independente.

A opção foi a contratação de uma empresa de marketing eleitoral que optou por uma campanha com tom chamado de “propositivo”, com pouco enfrentamento político a golpes institucionais, judiciais, as diversas medidas de retirada de direitos e precarização de serviços públicos e privatizações, sem explicitar a posição de oposição em relação ao governo Bolsonaro, por exemplo. Também não combateu a destruição ambiental tanto nacional como localmente, que tem atingido gravemente essa cidade que boa parte fica em uma ilha com parte significativa sendo área de preservação e patrimônio natural.

Eram os nomes certos?

O tom da campanha foi encarado como nova frustração pela militância e alguns acabaram por atribuir os problemas da campanha ao perfil individual dos candidatos majoritários. Considero essa uma pseudo crítica, visto que o perfil dos candidatos já era conhecido antes e o debate da definição dos nomes foi mal conduzido pelos presidentes das siglas e a forma como a empresa de marketing e o conselho político definiram o formato da campanha.

Aqui podemos fazer um paralelo com o momento atual, onde o debate sobre o Lula ter dito ao Fernando Haddad passar a rodar o país como um possível candidato movimentou o país, especialmente a esquerda, em debates acalorados e emocionais. Há dois comentários principais em tom crítico: um que o nome deve continuar sendo o do Lula, nome de maior popularidade, mais bem posicionado em pesquisas; o outro vindo do Boulos e candidato do PSOL (repercutida pela maioria dos militantes desse partido, inclusive daqui de Florianópolis) é que na construção da unidade o programa deveria ser debatido antes da colocação de nomes.

Podemos observar o método de escolha dos nomes no nosso caso e pensar. Os nomes de Elson (PSOL), Lela (PDT) e Janaína (PCdoB) foram colocados pra debate logo cedo. O do Elson foi o primeiro. O PT foi o último a colocar o nome, apresentando o nome do Lino bem próximo da eleição. Apesar de não ter fechado nenhum elemento de programa (nem mesmo os eixos, apesar das convergências óbvias nada havia sido sacramentado), o nome do Elson foi aprovado por unanimidade com bastante antecedência e o principal argumento era o resultado eleitoral anterior e o posicionamento nas pesquisas. Interessante também que o próprio Boulos decidiu ser candidato em 2018 antes mesmo de estar filiado em um partido.

Mas o mais importante para a reflexão ora encaminhada é que não é justo derrubar todas as críticas sobre o tom da campanha ao escolhido por unanimidade. A escolha que pareceu óbvia e não chegou nem a ser debatida se mostrou errada pelas condições objetivas dessa eleição em especial quando táticas inovadoras eram necessárias, outro perfil era necessário e, ainda assim, nunca o perfil pessoal do candidato é variável que possa ser usada de maneira isolada. Outra questão é que nenhuma pesquisa qualitativa ou quantitativa foi encomendada pela frente e as decisões foram tomadas na intuição e argumentos de poucos dirigentes, sem debate coletivo ou embasamento científico para compreensão do momento político eleitoral da cidade.

Quando 1 + 1 não é igual a 2! Unidade é coligação?

Também outro aspecto que precisamos passar a considerar é a clareza que nem sempre a conta em uma eleição é 1 + 1 = 2 ou 10 : 5 = 2. Não quer dizer que a coligação é sempre ruim, ou que a pulverização de candidaturas da direita não coloque boa perspectiva. Mas não é matemático.

A militância popular cobrou bastante que a unidade seria a única alternativa. A experiência mostrou que é mais complicado. A hipótese de que saindo na mesma coligação automaticamente as votações de Angela Albino + PT, Flores e Elson em 2016 se somariam em 2020 não se confirmou. É preciso lembrar que apoios se somam, mas rejeições também. E quando o processo não passa por amplo debate, qualquer divergência com um ou outro elemento da coligação pode fazer a pessoa rejeitar o conjunto. Por outro lado, seja por cumplicidade de classe ou pelas condições conjunturais, o fato de ter muitas candidaturas da direita não representou uma divisão nos votos. Gean se reelegeu no primeiro turno, a bancada eleita em 2020 pela esquerda foi menor do que em 2016 (o PSOL elegeu 3 em ambas, ainda que Renato tenha desertado logo no início do mandato – o que era previsto, o PT manteve a mesma vaga única, apesar de ter melhorado sua votação e o PDT perdeu seu mandato) e a votação da frente democrática foi menor do que a votação da chapa Elson Botelho individualmente e muito menor do que a soma desta com as chapas de Albino/Kazapi e Flores. As votações de Angela Amin e Pedrão foram surpreendentemente pequenas.

A soma de rejeições em um mesmo campo político não costuma ter o mesmo efeito no segundo turno do que no primeiro. Por vezes fortalecer as forças individualmente pode ser mais eficaz. Claro, aqui em Florianópolis a experiência mostra que foram muitos tristes os diversos episódios no segundo turno duas candidaturas que representavam o mesmo projeto empresarial, machista, racista e de destruição ambiental. Mas estes juntamente com essa última eleição mostram que esses resultados são consequência de vários fatores que vão muito além das coligações partidárias e do número de candidaturas do nosso campo.

A unidade e atuação articulada na esquerda seguem sendo fundamentais. Mas não basta a aliança formal. A própria conquista da unidade formal em si nunca esteve representada na campanha como uma conquista política. Os nomes dos partidos e organizações que construíam a candidatura foram apagados. As candidaturas proporcionais não eram fortalecidas pela majoritária. As poucas atividades em conjunto eram divulgadas se escondendo o nome do candidato, com exceção de uma única candidatura do PSOL que era amplamente beneficiada.

A falta de radicalidade e a estética adotada diluindo a candidatura em um centro político gelatinoso novamente se mostrou uma opção errada. A população se quiser votar na direita jamais votará na esquerda disfarçada como tal. E essa postura impôs que a derrota eleitoral fosse a derrota política do campo. Como essa tem sido a postura adotada há pelo menos 4 ciclos eleitorais estamos colhendo um enfraquecimento político da nossa articulação na cidade. Que retroalimenta e é retroalimentado por um sindicalismo burocratizado (exceção feita ao Sintrasem e secundariamente ao Sintraturb e ao Sindsaúde), a um movimento ambiental desarticulado e neoliberal, a um movimento comunitário cooptado. Movimentos como o feminista (especialmente no Fora Cunha, no Ele Não e no 8M – greve internacional de mulheres), o movimento estudantil e o movimento negro e indígena tem sido importantes nos combates, mas foram desconsiderados pela coordenação da frente. Florianópolis teve uma das primeiras e uma das maiores passeatas contra o golpe, um dos maiores comícios da Caravana Lula e da campanha de Haddad do Brasil. Nenhum desses movimentos alimentou ou foi alimentado pela postura política adotada pela candidatura. Pelo contrário, as campanhas eleitorais enfraqueceram essas possibilidades de organização da classe.

As eleições não são somente pra prefeitura! Porque investimos tão pouco nas proporcionais?

Qualquer eleição majoritária depende diretamente das candidaturas proporcionais. Animá-las, respeitá-las, valorizá-las, tratá-las com equidade é fundamental. Uma política de construção com as pessoas que colocaram o nome para estar lado a lado com os candidatos majoritários é fundamental. A mobilização da campanha à prefeitura dependia de boa articulação. Até foram realizadas algumas ações, mas basicamente as candidatas e candidatos são tratados de forma tarefeira, sem possibilidade de intervenção política, sem serem escutados e boa parte de maneira burocrática e protocolar, isso quando não desconsideradas mesmo. Em geral a coordenação da frente (as várias coordenações e o conselho político) não soube ouvir em nenhuma etapa do processo.

Para uma nova disputa eleitoral à prefeitura em 2024 é recomendável que os partidos já iniciem agora a mobilização de lideranças para que se candidatem não somente à majoritária, mas especialmente ao parlamento. Que os(as) que se candidataram sejam acompanhados (as), apoiados(as) e fortalecidos(as). Também que as lideranças que forem se dispondo a se candidatar já recebam formação política e de organização e mobilização. Sim, todo mundo sempre fala disso e as direções partidárias costumam ter dificuldades em encaminhar por diversas questões. Mas que tal uma articulação da frente que possa ir incentivando as lideranças, identificando regiões ou segmentos que estiveram sub-representados ou não representados na chapa proporcional e possam buscar lideranças e apoiá-las? Analisar o resultado e ver como fortalecer a(s) chapa(s) proporcionais e a experiência de candidaturas coletivas é fundamental. Sobre essa última foi possível perceber boa resposta eleitoral, portanto devem ser observadas com cuidado como tática e forma de construção. Também analisar se nas duas bancadas que temos a partir da coligação da frente se ocorrerá rodízio (que se provou efetivo em fortalecer mais lideranças) e quais candidaturas apenas gravitam forças que já são da esquerda (se fortalecem quase exclusivamente na nossa bolha) e como fortalecer as que de fato tem capacidade de ampliar, porque essas são as mais importantes no fortalecimento do projeto pra prefeitura.

Em uma guerra temos que conhecer e enfrentar o inimigo concreto!

Do ponto de vista do cenário fica claro que a candidatura de Gean estava fortíssima, com toda a gestão e estratégia de marketing tendo sido muito bem planejada e executada ao longo de todo o mandato exatamente para o fortalecimento pessoal de Gean, sua liderança e garantir a reeleição. Não fomos capazes de desconstruir o patrimônio edificado pelo prefeito, nem mesmo com ele tendo sido preso durante o mandato, responder acusações e diversos processos criminais ou do direito administrativo. O maior desgaste do prefeito foi imposto pela mobilização dos trabalhadores da Prefeitura, que conseguiu evitar algumas retiradas de direitos no pacote do início do primeiro mandato e no enfrentamento à instalação das OSs na educação. Mas eleitoralmente isso não foi explorado.

Gean também contou com estrutura usada na campanha de Bolsonaro de envio de mensagens por meio de disparos em massa com notícias falsas positivas a respeito do prefeito candidato, manipulação a partir de referências religiosas e hiperbolização das realizações da gestão (especialmente da operação de maquiagem, como no caso do asfaltaço), além de manipulação moralista que encontra terreno bastante fértil no atual momento histórico de crescimento do neo fascismo na cidade. Não fomos eficazes em enfrentar sua força (o que não seria fácil em campanha tão curta e falta de recursos, mas que precisa estar em nosso horizonte pra construção de táticas de enfrentamento desde já).

Democratizar o campo democrático e popular!

Devemos continuar fortalecendo a unidade do campo popular na cidade de Florianópolis, mas temos muito o que aprofundar nas táticas e estratégias adotadas. Democratizar o campo democrático, tornando o debate um momento de mobilização e a identificação programática um meio de comprometimento militante é imprescindível e sem isso não ganharemos jamais. A articulação entre as organizações sociais e as entidades, movimentos, mobilizações e pautas populares, com solidariedade de classe e vida política cotidiana da cidade, nos posicionando em conjunto e/ou individualmente nas questões da cidade e denunciando o corte de classes e todos os problemas e as opções dos poderes executivos, legislativo, judiciário e do quarto poder, a mídia comercial. Fortalecendo os meios de comunicação independentes e populares.

A análise científica, nos organizando para termos pesquisas próprias e que possam responder aos nossos questionamentos são essenciais.

Tudo isso deve ser feito lembrando-se que o fortalecimento de cada partido e entidade individualmente fortalece o campo de esquerda e que o campo popular fortalecido é campo fértil para o fortalecimento de cada partido, entidade ou movimento individualmente. Os projetos individuais devem ser respeitados, mas jamais devemos nos propor a fortalecer nosso partido pelo enfraquecimento dos que estão no mesmo campo.  1 + 1 pode ser igual a 3, não queremos que seja igual a 1,5 novamente.

Florianópolis merece um novo governo democrático e popular!!

Florianópolis merece uma Câmara democrática e popular!!

Fora Bolsonaro!

Vacina pra todes já!

Auxílio Emergencial Já!

Fora Gean!

A COMCAP é do POVO!

Nenhum Direito a menos!

Por uma Florianópolis feminista, antirracista, anticapacitista, sem LGBTQIAfobia, laica, com tolerância religiosa e sem credonormatividade!

Por uma Florianópolis que respeite e preserve nosso patrimônio natural e se desenvolva de maneira sustentável.

Moradia, Educação, Saúde, Assistência Social, Mobilidade, Cultura, Ciência e Informação são direitos de todes e não são mercadoria!

Lutar não é crime!

Despejo Não!

Reforma Administrativa Não!

Não às Privatizações!

OSs não!

Elenira Vilela é professora e sindicalista.

A opinião do/a autor/a não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.

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