Umarell – a plateia da obra dos outros

Por Paulo Pappen, para Desacato.info.

Umarell, é o nome. Com vírgula depois dele, pra dar tempo de parar.

Porque é isso que o umarell faz: para. Para e olha a obra dos outros.

É aquilo que no Brasil se consagrou como a plateia de obra, nos últimos anos plateia sem assento, que é pra pessoa ficar em pé olhando o outro trabalhar.

Em Caxias, por influência da Itália, onde eles são muito famosos e tem até livro a respeito, o chamamento do indivíduo em si que para e olha a obra é umarell, que significa homenzinho. A plateia de obra, então, é composta por diversos homenzinhos um do lado do outro – em fila indiana só que de lado.

O umarell padrão apresenta as seguintes características: aposentado, levemente curvado pra frente, as mãos pra trás. No inverno usa tactel e boina. No verão usa boné do posto. O bigode é opcional.

Não há tempo ruim para o umarell. Se chove é até melhor, que daí ele pode te explicar o  método ideal pra cobrir a laje recém concretada.

As obras preferidas do umarell são as obras da prefeitura. Colocação de cano em rua de paralelepípedo é a imagem do paraíso. Primeiro a desmontagem do quebra-cabeça: paralelepípedos atirados aqui e ali deixando ver as veias abertas da latrina. Depois aquele aguaceiro que vem debaixo da terra nas cores marrom glacê, amarelo deserto e azul cobalto que deixam boiando a questão se aquilo ali é apenas água ou se não tem algo mais grave. Por fim a remontagem do quebra-cabeça que é antes de tudo encaixar os canos de concreto um no outro (sempre quebra uma lasquinha, tinha que trocar esse dali que quebrou ó senão dali dois dia vaza tudo de novo, piá) e depois fechar de novo a rua – nunca fica perfeito, apesar do umarell passar horas ali indicando que aquela pedra lá ó, aquela mais achatada ela tava antes ali do lado daquela outra, meia arredondada.

O umarell ajuda com sua memória treinada de tantos dominós e obras que ele viu nascer, crescer, se reproduzir e morrer, mas não adianta: os operário da prefeitura preferem fazer de conta que sabem mais, que são tudo engenheiro e o caralho aquático: e é por isso que as ruas de calçamento depois da obra ficam parecendo um dedo destroncado que colou torto porque a pessoa não foi na dona Nair arrumar.

O umarell sofre muito preconceito e é preciso combatê-lo.

Assim é a típica jornada do umarell:

Ele sai de casa a pé, às 6 da manhã que é pra garantir lugar privilegiado na obra a ser fiscalizada naquele dia. No caminho pra obra ele vai encontrando os colegas umaréis (colocando assento pra demonstrar a pronúncia, lá na obra vai todo mundo ficar em pé, pode deixar português patrão), colegas que ele cumprimenta dependendo do nível de companheirismo que existe entre os envolvidos. Por exemplo, se o seu Ari é um umarell daqueles que torce pra prefeitura usar canos de fibra, provavelmente ele não vai ser muito amigo do seu Adenor, que é um umarell partidário dos canos de amianto, apesar de todo mundo saber que isso dá câncer: olha lá o seu Ivanildo, umarell dos mais respeitados, que morreu aos 93 anos depois de passar uma existência de umarell defendendo o uso do amianto pra encanar água. Por outro lado, quem garante que o pvc não dá câncer também? E aí só me falta aparecer agora um umarell ippi desses que querem fazer tudo com bambu, te digo eu onde enfiar a rima.

Mas desafetos à parte, o umarell sempre encontra um lugar ao sol ou à chuva pra assistir o trabalho dos outros. E assim eles vão passar o dia, voltando pra casa somente em caso de fome. Isso se o umarell não for desses que se previnem e levam um pão com banana e uma térmica de café ou mate pra forrar o estômago ao longo da dura jornada.

Paulo Pappen é de Caxias do Sul, torce pro Caxias e gosta de literatura, anarquia e marcenaria.

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