Uma inglesa em Florianópolis

 Por Margrit Hamson.

18h, dia de muito calor. Tudo parece derreter nessa ilha. Entro no coletivo urbano que, dizem, tem ar-condicionado. Não é verdade. O ar não funciona. É estranho para mim, pois de onde vim quando dizem que funciona, funciona. Mas, tudo bem, sou estrangeira, tenho de aguentar. Entro, mas não encontro lugar. Os assentos para idosos estão cheios, e nem são idosos. Eu tenho meus 50 e poucos, vá lá. Posso suportar ir em pé. Ainda assim, apesar da minha empáfia, mais fruto do porte que da realidade, eu sento no degrau, como vi outro nativos fazendo. Logo o ônibus vai enchendo, enchendo, e em poucos minutos existem pelos menos umas quatro bundas bem na minha cara. Desisto da idéia e fico em pé. Meu ar de lady inglesa é facilmente reconhecível pelo leque que coloco diante do rosto para evitar invasão e pela minha vestimenta, pouco adequada ao calor tropical. Olho para os lados e vejo todo mundo suando, com cara de poucos amigos. Imagino que aquilo ali é o cotidiano da maioria. Eu só estou por ali esporadicamente. Posso compreender porque não há sorrisos. Conversando com uma senhora que ia ao meu lado carregando várias sacolas de supermercado ela me contava que é todo dia isso: superlotação e sufoco. Fiquei horrorizada pois no meu país o transporte é uma coisa muito séria. A mulher riu ao meu comentário e perguntou que eu estava fazendo ali naquele ônibus lotado e mal-cheiroso. Contei-lhe minha história e deu tempo pois o maldito ônibus demorou uma hora e meia pra fazer 20 quilômetros até o Rio Tavares.

Nasci no condado de Suffolk, ao leste da Grã Bretanha, na adorável cidade de Ipswish, em pleno estuário do rio Orwell. Tive muito boa criação, mas, não sei se por conta do cabelo vermelho, meio incomum, acabei sendo bastante rebelde. Tanto que quando fui para a escola, minha mãe pintou as longas madeixas de negro: “para dar mais seriedade”. Pode ter sido a tintura, sei lá, o fato é que me tornei uma boa moça. E tão comportada que acabei professora no conhecido Eton College, aquele em que estudam os príncipes e filhos da nobreza. Fiquei lá por quase 25 anos, tida como uma pessoa impecável. Mas, o destino agiu e eu acabei praticamente expulsa há cinco anos quando descobriram que eu vivia um tórrido romance com um irlandês comunista. Isso foi imperdoável. Pode ter sido o cabelo vermelho que se manifestou apesar da tintura. Não sei. O que sei é que o tal romance foi o escândalo do ano. A descoberta de tudo se deu quando ele morreu e eu enlouqueci correndo nua pela cidade, arrancando os cabelos. Não suportava viver sem aquele homem. Robert Carson, um gigante celta.

E esse foi o começo da história que me trouxe a Florianópolis.

Expulsa da tradicional escola eu estava perdida na Inglaterra. Ninguém me daria emprego e quase aos 50 anos, que poderia esperar. Resolvi me matar. Mas, o convite de uma antiga aluna brasileira para vir ao Brasil me tirou da letargia suicida. Arrumei as malas e parti para o desconhecido mundo tropical. Foi um salto no abismo. De Eton para São Paulo, caí numa mansoneta nos jardins. Tudo muito chique, mas insosso. Meu cabelo voltara à cor natural e creio que era ele quem se rebelava. Já não suportava viver ali. Então conheci José, o jardineiro. Forte, espadaúdo, de riso largo. Caí de amores. Pega aqui, pega ali, em poucos dias eu já estava em suas mãos. Ele havia tempos queria migrar, voltar para sua velha cidade. Florianópolis. Então, juntamos as economias e viemos.

Moramos na Caieira, um bairro bem ao sul e eu ainda estou descobrindo a beleza e as agruras de viver por aqui. Mas, uma coisa já descobri. O transporte coletivo é um horror.


Imagem: Pintura de Toulouse Lautrec.

 

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