Um sonho

Por Fernando Evangelista.
Eles se encontraram no supermercado, entre gôndolas de cereais e biscoitos. Foi ela quem o reconheceu. Ele levou um susto. Fazia tantos anos…
“Não é possível”, ele disse, “que coincidência”. Ela sorriu, o mesmo sorriso dos tempos de Faculdade. Ele ficou um pouco tenso no início, depois só encabulado, sem saber como agir. O abraço foi formal, seguido de algumas perguntas retóricas, um diálogo sem riscos, sem pausas, os dois fingindo naturalidade.
Mas de repente ela disse, mudando o tom da conversa: “Não deixei de pensar em você nesses anos todos e vez ou outra me pego tentando entender por que nossa relação não deu certo”. Não era um lamento, nem uma cobrança, parecia uma curiosidade sincera. Já não bastava aquele encontro inesperado, ele pensou, agora um comentário assim, de supetão. “Você sabe por que não deu certo?” ela insistiu.
Ele tropeçou nas palavras, riu, não queira pensar naquilo agora, que diferença poderia fazer a esta altura, cada qual com sua vida. Ele pegou, na prateleira ao lado, o primeiro pacote de biscoitos que viu, gesto mecânico, para desviar o olhar.
Aquela mulher tinha sido seu grande amor, talvez o único amor de verdade, e era incômodo, dolorido mesmo, continuar aquele tom de conversa. Melhor voltar para terreno mais sólido. Nada de riscos. Melhor ir embora.
Ela esperou alguma resposta, mas ele se fez de indiferente, como se nem lembrasse direito os detalhes, como se tivesse vivido muitas outras histórias com aquela intensidade e entrega. “É desconcertante rever o grande amor”, ele pensou na música do Tom e do Chico. “Como era mesmo o nome?”.
– O tempo nos engole – ele disse, finalmente.
– Talvez seja o contrário – ela replicou.
Para ele, naquele corredor de um supermercado, entre biscoitos e cereais, ela parecia ainda mais bonita, mais segura de si.
– Você está bem mesmo? – ela perguntou.
– Muito bem, ótimo – ele disse, embora estivesse bastante estressado por causa do trabalho, da família, do trânsito, do calor, da correria, de tudo o que poderia ter sido e não foi. Sob um ponto de vista bem objetivo, era uma vida cheia de mal-entendidos passados e mágoas presentes.
Ele estava cansado de viver esperando cada fim de semana, esperando dois míseros dias tediosos e monótonos para descansar, para então começar tudo de novo, na mesma rotina triste, sem paixão e sem mar. Ele se sentia como o único piloto de um circuito oval, abandonado e sem plateia, onde tudo volta ao princípio, sem recompensas.
– Nunca estive tão bem – ele reforçou. E, como se tivesse um compromisso inadiável, disse que precisava ir, pegou mais um pacote de biscoito e foi embora.
Ao chegar em casa, ainda atordoado com o encontro, ele subiu ao sótão e abriu uma lata azul, onde guardava as cartas antigas, cartas que nunca mais mandou ou recebeu. Pegou uma ao acaso, escrita por ela, bem no comecinho de tudo, com data de 16 de junho. Falava de banalidades, com aquele tom derretido, meio ridículo e bastante pretensioso dos apaixonados. Uma parte, porém, chamou a atenção:
“Não corre, não. Não corre nunca mais. Desacelera o tempo, a angústia, as tristezas. Anda devagar, anda mais à toa, sem buscar um destino (porque ele não existe), anda assim como andam os poetas, distraídos e encantados, sem querer chegar a lugar nenhum. E depois me ensina como se faz”.
“Não te cobra pelas escolhas erradas, pelos passos em falso, pelo que poderia ter sido. O inferno – não te esqueças disso – é a consciência daquilo que poderíamos ter sido e não fomos. Mas se ainda temos a consciência, que seja para nos perdoar e nos libertar”.
Ele esboçou um sorriso, gostava daquele jeito meio esotérico dela, daquela astúcia bruta, intuitiva, um pouco ingênua. Continuou a ler a carta:
“Hoje falamos tanto e tanto sobre o passado. Tu precisas – desculpa se o que digo te parecer um conselho bobo, na verdade é bem bobo, mas é minha maneira de dizer que te amo – então, como ia dizendo, precisas cortar o cordão umbilical que te prende ao passado porque te pesa demais, te enrosca na alma e te machuca. Esse cordão é uma armadilha”.
Ela tinha razão, ele pensou, armadilha é revirar papéis antigos. Mas foi incapaz de interromper a leitura: “O passado, meu amor, é como uma mochila com grande valor sentimental, já velha, cheia de pequenos objetos preciosos, objetos de memória. Por isso, por tanto que é capaz de comportar, ela se torna pesada demais para ser carregada nas costas, mas valiosa o suficiente para não ser emprestada, nem jogada fora. O melhor é deixá-la num lugar protegido e discreto, longe dos olhos”.
Mais um pouquinho e daria um livro de autoajuda, ele disse para si mesmo. Prosseguiu: O passado, assim como a mochila, deve ocupar um espaço condizente com o seu tamanho, nem maior nem menor. É a viagem que decide qual mochila levar e quem decide a viagem somos nós”.
Jogou a carta na lata, fechou-a bem fechada e a colocou outra vez onde estava, disposto a não mais abri-la. Então foi acordado pelo despertador.
Ele estava confuso, com o corpo cansado e dolorido. Noite péssima e manhã com sensação de ressaca, apesar de não ter bebido. Não gostou daquele sonho: encontro num supermercado, papo sem muito sentido, uma carta perdida no sótão. Ele lembrava cada detalhe. Parecia tudo tão real. Era difícil reconhecer que tudo aquilo tinha sido um sonho.
E tinha sido mesmo.

Fernando Evangelista é jornalista, diretor da Doc Dois Filmes. Mantém a coluna Revoltas Cotidianas, publicada todas as terças-feiras.

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