Um século do pássaro poeta

Cancão é um pássaro da caatinga. Preto e branco, de olhos bem vivos, sagazes. Dizem que é um grande observador, que nada lhe passa despercebido. João Batista de Siqueira, quando criança, era “irrequieto, traquina, boliçoso”, diz Ésio Rafael*, poeta, professor e pesquisador sertaniense radicado em Recife. Pelas semelhanças com o pássaro, João Batista virou um menino pássaro, um “Cancão” ainda na infância. Depois veio o poeta, quando descobriu a cantoria de viola, e sobretudo quando a abandonou em 1950 pra ficar só com a palavra escrita, silenciosa, rabiscada no papel e guardada posteriormente numa caixa de sapatos, como conta Ésio. O pássaro poeta notou que não havia nascido pra cantar, mas pra dar voo às palavras.

A poesia intrigante e complexa de Cancão é, segundo Ésio Rafael, “inexplicável até hoje”, a tal ponto que suscitou suspeitas de que era um médium, e que na verdade o espírito de um poeta erudito escrevia através de suas mãos. O delírio dos pesquisadores que um dia criaram essa teoria kardequiana a respeito da obra de Cancão não é tão mais fantasiosa e mágica quanto a própria realidade: um homem simples, agricultor, criado na roça, e que produz uma poesia altamente sofisticada. “Ele era um ser especial, cósmico, flutuava em vez de pisar no chão”, conta Ésio Rafael.
Deixou três livros: Musa Sertaneja, Flores do Pajeú, e Meu Lugarejo. Agora tem todos os livros e textos avulsos compilados pelas mãos de Lindoaldo Campos, também poeta e conterrâneo de Cancão.

Nascido em 12 de maio de 1912, se vivo, o poeta completaria cem anos amanhã. Em comemoração ao centenário, Cancão é o grande homenageado do I CLISERTÃO.

 Ésio Rafael fala um pouco sobre ele e sua poesia na entrevista a seguir:

Clisertao.com – Você diz que Cancão era um “poeta completo, de sentimento assombroso, iluminado”. Fale um pouco sobre essa complexidade e intensidade.
Ésio Rafael – Inexplicável até hoje. Tanto que alguns dos estudiosos, pesquisadores apelam para o subjetivo classificando Cancão como um médium, que psicografava seus escritos poéticos. Um homem simples,comum, criado na roça, limpando mato. Todavia, um poeta sofisticado, distante do quem foi estabelecido pelas academias, relacionado à poesia “popular”. Poesia é só beleza.

Clisertao.com – Como você explica tanta sofisticação na poesia de um homem do campo, um agricultor?
Ésio Rafael – Aí é onde está o nó. Cancão só teria lido Fagundes Varela, Cassimiro de Abreu, e Castro Alves. Isso não lhe daria subsídios literários para que ele adentrasse na mitologia grega, por exemplo.

Clisertao.com – Há algum poema que você considera especial, que poderia compartilhar com o público que ainda não o conhece?
Ésio Rafael – Ele estava, na década de 50, paquerando uma Professora da cidade de Sertânia. No momento em que estava limpando mato no seu roçado, veio uma chuva inesperada, daí ele correu para se abrigar debaixo de um pé de juazeiro. Puxou um lápis do bisaco, um pedaço de papel, e escreveu:

ÉS DAS REGIÕES POLARES
A MAIS DELICADA PLANTA
VIVES IGUAL UMA PLANTA
ENTRE AS TOALHAS LUNARES
OS GÊNIOS DOS GRANDES MARES
DÃO- TE ATRAÇÃO SOBERANA
ÉS A MAIS GENTIL LIANA
EM FORMA DE CRIATURA
NASCESTE DA NINFA PURA
DA MARESIA INDIANA.

Clisertao.com – Popular e erudito: como convivem essas duas identidades no trabalho de Cancão? Como você caracterizaria o trabalho dele?
Ésio Rafael – Os livros das Academias, em seus prefácios, falam muito de conceitos literários, e isso às vezes atrapalha o poder imaginativo latente das pessoas. Trava o poder perceptivo, individual, e criativo, em consequência das fórmulas impostas. Geralmente, deixam à revelia o fator fenomenológico dos indivíduos. A nossa língua portuguesa surgiu das discussões populares, do debate oral, e não dos textos feitos pelos eruditos da Roma Imperial. Uma coisa é você analisar, determinar, outra, é você fazer, criar. É como assim falou o psicanalista e escritor Roberto freire: “O negócio é o seguinte: amar e criar, o resto é comer e cagar”.

Clisertao.com – O que você acredita que influencia mais fortemente a escrita dele?
Ésio Rafael – Cancão foi criado em meio a natureza, pássaros, rios, orvalhos, luminosidade e sonhos infantis. Normal, normal. As crianças do seu tempo também. Mas ele era um ser especial, cósmico, flutuava em vez de pisar no chão.

*Ésio Rafael é pesquisador da obra de Cancão desde os anos de 1970, quando passou a frequentar a cidade de São José do Egito para fazer contatos com cantadores. Lá conheceu a poesia e o próprio Cancão.
No CLISERTÃO conduzirá a aula-espetáculo “Serra do Teixeira e o nascimento do pássaro poeta – Celebração do Centenário do poeta Cancão”, juntamente com o Prof. Edison Roberto, o poeta Marcos Passos e o músico Eduardo Abranttes. Às 20h30 no auditório da UPE.

Fonte: clisertao.com

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