Um rancho de canoa

Por Elaine Tavares, de Florianópolis.

Célia e Renilda tinham 100 anos, mas nem parecia. Feitas de um único tronco do garapuvu (árvore que é símbolo de Florianópolis) elas eram parideiras de peixes desde há três gerações da família Inácio, na ilha de Santa Catarina. Canoas valentes, acostumadas ao rigor das fortes ondas do Campeche, elas viram nascer e morrer dezenas de pescadores, filhos das areias dessa linda praia do sul. Também do fundo do seu ventre generoso brotaram peixes que alimentaram o bairro inteiro. Por cem anos singraram o mar, dirigidas pelas mãos fortes daqueles que, apesar da especulação imobiliária e do crescimento quase criminoso do bairro, nunca desistiram de manter viva a tradição da pesca artesanal. Eram as resistentes, junto com a Glória, que descansa em outro barracão, também do lado direito da Pequeno Príncipe.

Pois na noite do dia 16 de dezembro, uma mão criminosa ateou fogo ao rancho que servia de abrigo às duas meninas do mar. Queimou tudo. Foram-se as canoas, as redes e a memória de uma comunidade inteira. Em poucas horas, as labaredas lamberam as madeiras e só sobraram as cinzas. Mais um golpe para o Campeche que também viu ir ao chão o Bar do Chico, igualmente por criminosas mãos, ainda que governamentais. Os espaços das gentes, a história do bairro, se despedaçando.

As rixas entre os pescadores no Campeche são tão históricas quanto a pesca artesanal. Mas, mesmo as mais violentas jamais haveriam de ter como desfecho um crime como esse: queimar as canoas, centenárias barcaças com as quais os homens iam ao mar. Por isso toda a perplexidade diante das chamas que comeram parte da história da praia. A polícia ainda investiga e há suspeito, mas nada ainda foi divulgado sobre a autoria do crime.

O fato é que o rancho queimou, como já queimaram tantos outros, expulsando da praia os pescadores. Dia após dia, apagando a memória do que um dia foi essa ilha. Antes morada do homem do mar e agora, cada vez mais, espaço de paisagens especuladas. O mar como mercadoria, como moldura da sala. Da velha tradição vão ficando apenas imagens desbotadas de registros antigos. Uma história perdida nas brumas.

O incêndio no Rancho do Aparício, filho do seu Deca, comeu as canoas e comeu a história. Agora, um movimento da família e dos amigos busca recuperar o que se perdeu. Há promessas do governo sobre uma ajuda para a compra dos equipamentos, como a rede, por exemplo, e há campanhas para garantir que novo rancho se levante. Mas, o certo é que Célia e Renilda não podem mais voltar. Elas se foram, com todas as suas marcas e memórias.

Alguma outra menina talvez possa ser construída pelas mãos dos jovens do lugar. Uma garota nova, possivelmente não mais de garapuvu. Uma canoa que embalará outra geração. Pode ser que, na tragédia, se renove a vontade de manter a velha tradição de sair para o mar, na fragilidade do remo, sem qualquer outra tecnologia que a força do braço. Pode ser que nas noites de inverno, sob o clarão da lua, esses guris de agora possam contar aos filhos dos filhos que bem ali, naquele rancho havia um outro, que abrigara outras canoas. E pode ser que as dunas ainda estejam protegidas dos especuladores.

Eu olho para esse Campeche de luta e história e sigo sonhando que pode ser possível. Uma vida boa, um peixe bom, uma farinha, e essa comunidade – com todas as suas contradições  – ainda  vivendo em comunhão.

rancho do aparicio 1

Nós não reconstruímos o Bar do Chico, porque ele mesmo se foi, encantado, para as estrelas. E, sem forças, também perdemos o pé no mar da ganância e do mau governo. Mas, o rancho do Aparício não pode ser considerado ilegal. Ele pode voltar… Haverá braços?

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