Um novo fascismo ataca Florianópolis?

Pesquisadoras da capital catarinense analisam o atual momento social/político e confirmam: as mulheres continuarão protagonistas em 2019 contra a onda conservadora

Livro A Mulher é uma Degenerada. Crédito Tenda dos Livros. Foto: Maurício dos Santos

Entrevista de Maurício dos Santos, para Desacato.info.

É 25 de dezembro, e nos minutos que encerro a primeira parte desta série de reportagens sobre o “novo fascismo”, confiro em pesquisas digitais, que os temas de livros mais buscados nos últimos dois meses no Brasil (essa rápida investigação diz respeito somente ao nosso país) versam exatamente nesta ordem: 1- Feminismo, 2- Fascismo, 3- Política, 4- Psicologia.

Logo me vem à memória uma frase da filósofa Marilena Chauí, durante palestra na UFSC, há 4 anos: “Quanto mais uma comunidade se apresenta, discute e se mobiliza, mais o outro extremo se sente ameaçado e prepara seus ensaios”. A vida é dirigida por respostas, é essa a grande necessidade humana: viver pela reação.

Já há algum tempo, o termo “fascista” é utilizado no embate político de forma meramente valorativa, e não descritiva. Ou seja, não se trata de descrever algum tipo específico de fenômeno político. No entanto, há sim um uso descritivo do termo, há situações nas quais devemos nomear claramente o que, no final das contas, é a pura e simples adesão a práticas facilmente qualificadas como fascistas. Pois poderíamos dizer, segundo a psicanalista e historiadora Olívia Sturb, que todo fascismo tem “ao menos três características fundamentais”.

Livros publicados recentemente no sul sobre fascismo – Foto: Maurício dos Santos

Primeiro, ele é um culto explícito da ordem baseada na violência de Estado e em práticas autoritárias de governo. Segundo, ele permite a circulação desimpedida do desprezo social por grupos vulneráveis e fragilizados. O ocupante desses grupos pode variar de acordo com situações históricas específicas. Já foram os judeus, mas podem também ser os homossexuais, os árabes, os índios, entre tantos outros. Por fim, ele procura constituir coesão social através de um uso paranoico do nacionalismo, da defesa da fronteira, do território e da identidade a eixo fundamental do embate político.

“Neste sentido, não seria difícil demonstrar todo o fascismo ordinário do sr. Bolsonaro. Sua adesão à ditadura militar é notória, a ponto de saudar e prestar homenagens a torturadores. Não deixa de ser sintomático que pessoas capazes de se dizerem profundamente indignadas contra a corrupção reinante afirmem votar em alguém que louva um regime criminoso e corrupto como a ditadura militar brasileira (vide casos Capemi, Coroa-Brastel, Paulipetro, Jari, entre tantos outros)”, aponta Olívia – que vem desenvolvendo em seu mestrado análises de discursos que, mascarados por “palavras requintadas por gritos de histeria e segurança pública” acabam por destilar ódio.

“Quem começa tirando selfie com a Polícia Militar em manifestações só poderia terminar abraçando toda forma de violência de Estado”, ironiza a pesquisadora. Por outro lado, sua luta incansável contra a constituição de políticas de direito, reparação e conscientização da violência contra grupos vulneráveis expressa o desprezo que parte da população brasileira sempre cultivou, mas que agora se sente autorizada a expressar.Por fim, o primarismo de um nacionalismo que expressa o simples culto do direito secular de mando, algo bem expresso no slogan “devolva o meu país”, fecha o círculo da análise.
Ora, o fato significativo é que a maioria da classe média brasileira com sua semiformação característica assumiu de forma explícita uma perspectiva simplesmente fascista. Ela operou um desrecalque, já que até então se permitia representar por candidatos conservadores mais tradicionais. Essa escolha é resultado de uma reação à “desordem” e à abertura produzida pela revolta de 2013.

Todo evento real produz um sujeito reativo, sujeito que, diante das possibilidades abertas por processos impredicados, procura o retorno de alguma forma de ordem segura capaz de colocar todos nos seus devidos lugares. Nesse contexto, a última coisa a fazer é acreditar que devemos “dialogar” com tal setor da população.Faz parte de um iluminismo pueril a crença de que o outro não pensa como eu porque ele não compreendeu bem a cadeia de argumentos. Logo, se eu explicar de forma pausada e lenta, você acabará concordando comigo.

Bem, nada mais equivocado. O que nos diferencia é a adesão a formas de vida radicalmente diferentes. Quem quer um fascista não fez essa escolha porque compreendeu mal a cadeia de argumentos. Ele o escolheu porque adere a formas de vida e afetos típicos desse horizonte político. Não é argumentando que se modifica algo, mas desativando os afetos que sustentam tais escolhas. De toda forma, há de se nomear claramente o caminho que parte significativa dos eleitores tomou. Essa radicalização não desaparecerá, mas é embalada pelo espírito do tempo e suas regressões. Na verdade, ela se aprofundará. Contra ela, só existe o combate sem trégua.

Ainda neste debate sobre as ondas de fascismo em todo o país, dialogamos com a Doutora em Sociologia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Carla Ayres. Ela é a primeira mulher lésbica assumida a conquistar cadeira (suplente) na Câmara Municipal da capital catarinense. Carla milita no coletivo “ACONTECE – Arte e Política LGBT”, grupo de resistência política e cultural. É também militante feminista e membro do Diretório Nacional do PT. A conversa, em tom esclarecedor, ocorreu na mesma semana em que a mídia tradicional divulgava projeto de Carla que concede título de cidadã honorária à Presidenta Dilma:

1- Como o fascismo se expressa atualmente na Universidade

Estive entre os anos 2007 e 2018 vinculada, como aluna, à universidades públicas, cursando graduação, mestrado e doutorado consecutivamente. Passei em cada uma destas fases por três Universidades diferentes, cada um em um estado, sendo duas universidades federais e um estadual. Foi inevitável perceber o movimento de transformações das universidades no Brasil.

Foi notório a pluralização dos espaços, das cores, dos gêneros, dos sotaques, das reivindicações, das necessidades e das ideias com a expansão do acesso, por meio das cotas, do ReUni, da ampliação de vagas, etc. A Universidade sempre foi, no país, um espaço muito elitizado e esta democratização da oportunidade ao ingresso, gerou sem dúvidas reações ao longo dos anos.

O que vivenciamos atualmente é resultado de um processo. Um processo de ação: democratização do acesso das diversidades à Universidade, e reação: daqueles e daquelas cujos privilégios nunca tinham sido confrontados. Sim, por que o acesso ao saber e à educação no Brasil, sempre foi tratado como privilégio. Estas reações se desenvolveram ao longo dos anos como expressões de ódio e racismo exacerbado (em relação aos cotistas, por exemplo), revoltas pelo convívio com “mais pobres” na sala de aula, enfim. De fato, seja na sociedade (onde o processo de inclusão, consumo e oportunidades se deram em proporções significativas também), seja na Universidade, estas pessoas reativas, passaram a se organizar e disputar estes espaços e a institucionalidade de modo geral.

Eu tenho dificuldade de lidar com este fato pelo termo “fascismo”, pois acho que termos, conceitos e eventos deste porte devem ser compreendidos no seu tempo histórico, sob as condições que os levaram a tal ponto. O que vivenciamos hoje, penso eu, ainda está por ser nominado. Mas não tenho dúvida que tem caráter conservador, autoritário e neoliberal.

2 – No dia 13 de maio de 2017 tivemos várias mobilizações organizadas em todo o país por meio de marchas antifascistas. Houve vários atos como o 8M, o 15M, a Greve Geral do dia 28 de abril. Quais são os pontos de conexão entre essas mobilizações e o “Mulheres Contra Bolsonaro”/#EleNão?

Penso que, minimamente, para compreender o momento atual devemos remontar à crise Mundial de 2008, os efeitos dela em vários países do mundo, o desenvolvimento da “Primavera Árabe” e o papel das mulheres em enfrentar o Sistema Capitalista. As mobilizações de 2017 têm origem também nas mobilizações de 2015, por exemplo. Na reação das mulheres em defesa da Presidenta Dilma Rousseff e, sobretudo, na denuncia do quanto na denuncia de que a quebra democrática no Brasil, a partir do Impeachement, representaria um desastre para os direitos sociais no país, especialmente para os direitos das mulheres.

O lema Global do #8M é muito pedagógico nisso: “se nossas vidas não valem, que produzam sem nós”! É um confronto ao sistema capitalista. É um denuncia ao fato de que mesmo dentre a classe trabalhadora as mulheres – sobretudo as mulheres negras, mulheres com deficiência, mulheres indígenas, mulheres Lésbicas, Bissexuais e Transexuais – têm seus direitos atacados diretamente. Os salários das mulheres são menores, as jornadas sociais (casa, emprego, estudo, etc) das mulheres são maiores, etc.

No meu entender, a conexão do #EleNão com este contexto está em ligar estes dois pontos: a partir do impeachement vivenciamos uma sucessiva retirada de direitos, que atinge principalmente a classe trabalhadora (reforma da previdência, possibilidade de terceirização no trabalho, reforma trabalhista, ataques ao SUS, ataques à Educação) e nesta “queda de braço” as mulheres são as mais vulneráveis. A restruturação do aparato do Estado pelo Governo Temer retirou orçamento e autonomia gerencial de pastas importantes para os direitos humanos e outras populações socialmente vulneráveis como LGBTIs, indígenas, população negra, juventudes, mulheres, etc. A eminência da vitória de Bolsonaro – que representava e representa, hoje eleito, ainda mais retrocessos democráticos e sociais – levou milhares às ruas para se manifestar contrários aos retrocessos, ao conservadorismo, ao autoritarismo, etc.

Nestes episódios é importante observar que não foram apenas mulheres para as ruas. Mas nós protagonizamos a centralidade do processo e o ponto de partida de manifestações desde à resistência ao Impeachment, até o #EleNão.

3 – A revista Veja e diversos grupos e páginas na Internet demonizam figuras da esquerda. Isso são práticas de um jornalismo fascista?

A mídia de massas, de um modo geral, nunca se posicionou ao lado do dos movimentos de esquerda. São aparatos, que na prática, em momentos de crise especialmente e de grandes tensões sociais (como estamos vivendo) agem de modo a privilegiar – junto com a máquina do Estado e Judiciário – os interesses e posições das elites. Numa sociedade capitalista, sobretudo as elites econômicas. Mais uma vez: isso não é novo. Isso é a prática corrente da mídia hegemônica.

4 – Você considera que existe um novo fascismo que ganhou ainda mais holofotes com as últimas eleições?

Acredito que existe um movimento de extrema direita, de caráter conservador, autoritário e neoliberal que se organizou na sociedade. Este movimento disputou narrativas que vêm sendo construídas, a meu ver, pelo menos desde o Mensalão, intensificadas a partir de 2013, reforçadas com Impeachement da Dilma e consolidadas nas ultimas eleições.

5 – A Universidade Federal de Santa Catarina tem apresentado um cenário de acontecimentos fascistas. Aconteceu com representantes do movimento negro, jovens do MBL (Movimento Brasil Livre) atacando outros estudantes. Qual é a sua análise? Por que tantas Universidades, em geral, vem sendo palco de tantos retrocessos?

Os ataques sistemáticos às UFSC são parte de um processo de desqualificação e desmonte da educação publica e de qualidade no país, decorrente do cenário que julgo ter expressado na primeira resposta. Soma-se a isto que a educação é o centro da construção de uma sociedade mais igualitária, mais justa e da emancipação do conhecimento e da autonomia das pessoas. A partir do momento em que se coloca em prática (nos governos petistas) um projeto que visa compartilhar o acesso a estes saberes com as mais variadas parcelas da população, como eu disse anteriormente, as reações se manifestam.

O caso que levou o Reitor Cancellier ao suicídio faz parte disso; a investida de Chapas vinculadas ao MBL na disputa do DCE em duas eleições consecutivas; eventos realizados por alguns centros com cunho neonazista; pixações em banheiros ofendendo negros, mulheres e LGBTIs, etc.

6 – Por que o movimento fascista tem crescido e conquistado mais adeptos em Santa Catarina?

Acredito que não é um fato isolado do estado de Santa Catarina. Acredito ainda que as características ideológicas de cada região deem ser compreendidas a partir dos processos peculiares de seus desenvolvimentos ao longo dos anos, suas respectivas colonizações e dinâmicas das elites locais. O agregado de Santa Catarina pode apresentar um perfil conservador, que deu por exemplo vitória massiva a Bolsonaro, mas podemos observar bolsões em que a realidade é diferente a esquerda deve continuar investindo na ampliação de suas bases nestes locais, além de buscar com mais intensidade disputar narrativas onde ainda não se consolidou.

7 – Isso vem acompanhado de outros elementos, Escola Sem Partido é um deles? Você sofreu algum tipo de ameaça por confrontar pautas a favor da democracia?

Nunca sofri ameaças diretas. Mas há, sempre, um receio e um medo que paira. Nada superior a vontade e determinação de defender minhas posições.

Agora, entender o caso do “Escola Sem Partido”, exige um interpretação similar ao que disse me relação ao ensino superior e o caso da UFSC. Entretanto, no caso do ensino básico e fundamental, por exemplo há ainda dois fatores mais intensos: de um lado o ataque aos trabalhadores e trabalhadoras da educação, uma investida intensa para deslegitimar suas funções, desqualificar o ensino e abrir brechas para privatizações e terceirizações – como presenciamos no caso das OS em Florianópolis; e de outro lado, no que tange os conteúdos a serem disseminados ou não pela educação, se verifica uma disputa ideológica para consolidação ou não destes ou daqueles valores – mais ou menos democráticos.
Precisamos compreender, e as esquerdas precisam revisitar alguns destes aspectos, que a sociedade capitalista não está marcada apenas por uma dimensão de disputa material do mundo. Estas estruturas materiais se desenvolvem sobre uma dimensão que é simbólica, que é de valores, que é cultural. Este substrato é composto por valores patriarcais e sexistas, clientelistas, heteronormativos, racistas, e em geral na defesa de uma família monogâmica.

Se quisermos questionar o Capital, precisamos questionar estes valores estabelecidos.
A falácia construída em torno da tal “ideologia de gênero” na mais é que uma reação contra discussões que buscam questionar os papeis que homens e mulheres desempenham na sociedade, questionar realidades que muitas vezes crianças e adolescentes vivenciam no seu dia-a-dia, sim, como abusos sexuais, estupros, violência doméstica, etc.

8- Você se arrepende de ter defendido alguma bandeira publicamente? Se tivesse oportunidade, qual tema ainda gostaria de defender?

Não me arrependo. Tenho me construído como uma figura pública e este caminho é cheio de desafios. As oportunidades são constantes, pois acredito que minha militância é explicita e não se restringe aos momentos eleitorais que já disputei. Acredito ainda que neste processo de construção – em que aprendo muito em cada intervenção e debate – o desafio está em articula cada vez mais os elementos de classe com “minhas bandeiras” mais aparentes pela defesa da Diversidade Sexual e de Gênero.
Sou convicta de que as duas coisas não andam em caminhos diferentes, mas é preciso sempre ouvir as pessoas e suas interpretações sobre tais questões, também, para que as elaborações se apresentem de modo mais concreto para elas.

9 – O fascismo tem tomado força pelo mundo afora. Podemos ver a truculência nos atos que aos poucos vai exterminando a população palestina e tanto outros casos de violência em diversos países. O que está acontecendo com o mundo, o que está acontecendo com as pessoas que escolheram um Dolnald Trump e um Bolsonaro?

É um processo que não é isolado, mesmo. Estamos passando por um momento de restruturação do Capitalismo no mundo todo, e acho que isto vem acompanhado de muitos fatores. Um deles, que já vem sendo apontado há alguns anos pelos estudiosos da Democracia, é a descrença dos cidadãos nas Instituições Democráticas: como partidos, justiça, governos e políticos. Não à toa abstenções, votos nulos e brancos é uma realidade crescente em diferentes democracia representativas no Mundo. Tanto Trump, como Bolsonaro e até João Dória, por exemplo, canalizam este sentimento de anti-política formal. Há contradições profundas nisso tudo, mas grosso modo vejo este como um elemento importante.

No caso brasileiro penso que o chamado anti-petismo se associa a isto também.

10 – A política te rendeu mais amigos ou inimigos? Por quê?

Certamente mais amigas e amigos. Por que diante de todo este tragicômico cenários sobre o qual conversamos até aqui, há aquelas pessoas que se contrapõem a tudo isso, às vezes não necessariamente “organizadas” em movimentos sociais, mas com anseios de ouvir e dialogar com pessoas que pensam igual a si; com anseios de encontrar pessoas que se dipõem a canalizar suas ideias, e defender publicamente posições que também são delas. Acho que me disponho um pouco a isto e as pessoas se aproximam.

11- Passadas as eleições 2018, o que mais te motiva a continuar na vida política e pública? Que mensagem você gostaria de deixar para a comunidade LGBT, em especial?

Este sentimento de que posso canalizar a vontade de parte significativa de pessoas, como disse anteriormente, é uma das coisas que me motivam. Outro sentimento é o de que os movimentos da sociedade entre avanço e refluxo de direitos são cíclicos e é preciso se manter no front e na resistência fazendo contrapontos.

O ânimo para se organizar e reivindicar direitos é necessário, e por isso precisamos de mais e mais aliadas e aliados. Acho que esta mensagem é importante…

12 – Sobre a iniciativa em conceder à ex-presidenta Dilma o título de Cidadã Honorária, como você apresenta o projeto e quais as justificativas?

Nós mulheres possuímos uma longa trajetória de invisibilidade política e social, e é notório que quando ascendemos aos espaços de representação façamos destas oportunidades um lócus de para dar luz às nossas ações. Entre os meses de junho e julho de 2018 assumi a vaga de vereadora na Câmara Municipal de Florianópolis, durante o curto, mas intenso período apresentei uma série de projetos com vistas ao benefício de toda população florianopolitana, com enfoque nos Direitos Humanos, Direitos das Mulheres e da População LGBT. Além disso, apresentei 7 (sete) Projetos de Resolução que concede homenagens e honrarias à Mulheres importantes na política, na cultura e na atividade social nacional, regional e local.

Dentre as honrarias propostas já foram aprovadas em Plenário o Projeto de Resolução nº2.151/18 que concede “Troféu Pedro Medeiros” à companheira Ivani Battistella da Silva; no mesmo sentido, foi aprovado o Projeto de Resolução nº2.147/18 que concede “Medalha Cruz e Souza” para querida Dandara Manoela, cantora catarinense.

Pois bem, o Projeto de Resolução 2.152/18, também de minha autoria, busca conceder à Presidenta Dilma Rousseff o “Título de Cidadã Honorária de Florianópolis”. De acordo com as regras da Câmara Municipal, o objetivo desta honraria é “homenagear pessoas ou entidades, não florianopolitanos que, reconhecidamente tenham prestado serviços relevantes ao Município, Estado, União ou à Humanidade”.

Considero que apenas o histórico de luta e resistência de Dilma Rousseff em defesa do restabelecimento democrático no Brasil já seria suficientes para cumprir com os objetivos da honraria. Mas, além disso, enquanto Ministra ou Presidenta – entre os anos de 2008 e 2015 – Dilma, como formuladora do Pacto de Aceleração do Crescimento (o PAC), foi responsável pela destinação de verbas importantíssimas para melhoria de infra-estrutura em Florianópolis, especialmente nas periferias da cidades. No caso do Projeto de Melhorias no Maciço do Morro da Cruz foram destinados, em 2008, R$ 25.000.000,00. Além disso, de acordo com informativos do Governo Federal, facilmente acessados pela internet, verificamos que ao longo dos 13 anos dos governos petistas em Florianópolis, possuía no Ministério das Cidades tem uma carteira de investimentos no valor de R$ 1,5 bilhão. Sendo que apenas para obras de saneamento já foram destinados R$ 492,7 milhões; e mais: na área de mobilidade urbana o PAC destinou para Santa Catarina, apenas em 2015, um montante de R$ 43,9 milhões dos quais o maior aporte ficou com Florianópolis – R$ 35 milhões.

Mais uma vez, estes feitos também se caracterizam de extrema relevância para os objetivos da honraria proposta de homenagear pessoas que “reconhecidamente tenham prestado serviços relevantes ao Município”.

13 – Esta sua iniciativa envolvendo a ex-presidenta Dilma, foi recebida com preconceito por quem, especificamente? Você considera que sua ação foi mal interpretada ou foi preconceito em razão de ser apresentada por uma vereadora lésbica e de esquerda? O fato de Dilma ser mulher e do PT também aumenta esse preconceito?

Acredito que a reação ao projeto não tem a ver com minha identidade enquanto mulher lésbica, mas esta associada há dois fatores principais: aos meus posicionamentos de esquerda, especialmente por ser petista; e também por posturas xenófobas vinculadas ao fato de eu não ser nascida em Florianópolis.

Sem dúvida o fato de Dilma ser mulher, e do PT, aumenta preconceitos – os mesmos preconceitos que sustentaram na sociedade as justificativas do Impeachment. É um ataque sobretudo à esquerda uma vez que os ataques surgiram de um reconhecido vereador da Capital, aliado do Movimento Brasil Livre (MBL) e do Projeto “Escola Sem Partido” – além de outras posturas anti-democráticas e de ofensiva contra os movimentos sociais e partidos de esquerda.

 

Mauricio dos SantosMaurício dos Santos é jornalista e Professor de Redação. Pós-Graduação: Marketing (2013) e Arteterapia (2015). Autor do livro: Acima da Cabeça só existe o Coração.

A opinião do autor/a não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.

1 COMENTÁRIO

  1. Na definição de fascismo há um componente que não pode ser ignorado. O fascismo está directamente relacionado com as classes possidentes e corresponde sempre à necessidade dessas classes ganharem segurança nos seus investimentos. O fascismo nunca teve a oposição da comunicação social de direita. Pelo contrário apoia-se nela. Sempre que num país a esquerda e em particular os movimentos reivindicativos adquirem forte expressão, aquelas classes que temem e odeiam os pobres, os miseráveis, os sem abrigo, os trabalhadores em geral, sentem a nostalgia do fascismo, da segurança ganha através da violência. O mesmo sucede por maioria de razão perante um governo de esquerda ou apenas sensível à esquerda.

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