Um governo Sanders seria um desastre para Bolsonaro

Por André Pagliarini.

Três meses atrás, Bernie Sanders twittou seu apoio ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso desde abril do ano passado por acusações de corrupção. Sanders estava respondendo às reportagens explosivas publicadas pela The Intercept Brasil documentando o conluio entre o Deltan Dallagnol, procurador da República e principal coordenador da força-tarefa da Operação Lava Jato, e o juiz Sergio Moro, responsável pelo caso. Por anos, Moro sustentava que o tratamento do petista foi totalmente apolítico — mesmo depois que ele foi nomeado ministro da Justiça do governo Jair Bolsonaro, o maior beneficiário da prisão do Lula. Essa narrativa foi desmontada pelos desdobramentos da #VazaJato.

Bernie se juntava “a líderes políticos e sociais de todo o mundo que pedem ao judiciário brasileiro que solte Lula e anule sua condenação”. Mesmo depois de vários meses, o Intercept tem muitos mais documentos à sua disposição e seu impacto geral ainda desconhecido. Mas uma mudança importante pode estar em jogo na política brasileira, principalmente se a sentença de Lula for anulada pela revelação dos esquemas de Moro.

Bolsonaro já se mostrou mal preparado para lidar com as dúvidas que agora pairam sobre a condenação de Lula. Perguntado sobre as reportagens do Intercept logo apos a primeira publicação, Bolsonaro saiu bruscamente da sala. Durante a eleição do ano passado, as pesquisas demonstraram claramente que Lula, substancialmente à frente de Bolsonaro, teria vencido a eleição. Se o julgamento apressado de Lula foi conduzido por uma agenda política partidária — algo que a esquerda apontava desde o início, mas que agora é fato comprovado —, a legitimidade do Bolsonaro como presidente pode ainda ser colocada em questão no plano nacional.

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Mas os comentários de Bernie ressaltam outro desafio que Bolsonaro pode enfrentar no exterior: a perda de um aliado poderoso, embora instável, chamado Donald Trump. De fato, como observei anteriormente na Jacobin, o governo Bolsonaro “não tem demonstrado a capacidade de trazer o Brasil de volta da margem caso os ventos da diplomacia internacional começassem a mudar” a visão de mundo reacionária que une Bolsonaro e Trump.

Como Bolsonaro lidaria com um socialista democrático na Casa Branca? Para entender os possíveis efeitos de um governo Sanders no Brasil, vale examinar uma hipótese caso um presidente norte-americano se eleja após criticar duramente os abusos autoritários de autoridades latino-americanas. Há cerca de quatro décadas, a presidência de Jimmy Carter, por mais moderada que tenha sido, conseguiu minar a confiança da ditadura militar brasileira, apoiada por todos os presidentes dos EUA desde o golpe de 1964. Mas as tentativas de Carter de mitigar os abusos autoritários de ditadores latino-americanos foram limitadas por sua recusa de desafiar noções mais amplas do imperialismo estadunidense e a ortodoxia econômica. Dada a natureza do projeto político que ele está avançando, Sanders pode inspirar forças democráticas no Brasil, frustrando as ambições da direita reacionária.

O Eixo Autoritário

Aeleição de Jimmy Carter em novembro de 1976 sinalizou uma mudança não apenas para as prioridades domésticas dos Estados Unidos, mas também para sua política externa. “Estamos agora livres”, declarou Carter em 1977, “daquele medo excessivo do comunismo que uma vez nos levou a abraçar qualquer ditador que se juntasse a nós”. De 30 de maio a 12 de junho, a primeira-dama Rosalynn Carter visitou a Jamaica, Costa Rica, Venezuela, Colômbia, Peru, Equador e Brasil para transmitir pessoalmente uma mensagem do novo presidente: o respeito aos direitos humanos passaria a ser a métrica pela qual o governo estadunidense mediria suas relações com os países da América Latina e do mundo. Pelo menos em termos simbólicos, Washington não apoiaria, inquestionavelmente, regimes antidemocráticos.

O governo do general Ernesto Geisel (1974-1979) irritou-se com o ar de superioridade moral e política do novo presidente norte-americano. Segundo a lógica nacionalista do regime militar, Brasil não era apenas mais uma república latino-americana. Seus assuntos domésticos não deveriam ser fustigados por uma primeira-dama que durante sua estadia no Brasil não se encontrou uma vez, mas duas vezes com dissidentes: primeiro, quando ela recebeu uma carta de estudantes em greve na Universidade de Brasília (funcionários do governo a descartaram como falsa) e prometeu entregá-la ao presidente, e segundo quando ela se encontrou com dois missionários em Recife que haviam sido presos e espancados pelas autoridades locais poucos dias antes da chegada da primeira-dama.

Apesar do desconforto com a visita de Rosalynn Carter e de outras tensões no relacionamento EUA-Brasil, o governo Geisel procurou minimizar publicamente quaisquer divergências com a superpotência hemisférica. Quando o ministro das Relações Exteriores, Antonio Francisco Azeredo da Silveira, se reuniu com o Secretário de Estado dos EUA, ele proclamou que “no Brasil não existe sentimento antiamericano e o governo se esforça para garantir que esse sentimento não ocorra”. Durante a presidência de Carter, a relação com Brasil sofreu atritos sem precedentes, mas sem interrupção definitiva.

Em novembro de 1977, o recém-criado jornal de oposição brasileiro Em Tempo usou o aniversário de um ano da eleição de Carter para refletir sobre as políticas de direitos humanos do governo norte-americano. O jornal, que mais tarde se envolveria diretamente na criação do Partido dos Trabalhadores, serviu como palco para diversas perspectivas de esquerda num momento em que vozes progressistas permaneciam altamente circunscritas sob a ditadura que iniciara há treze anos.

“Qual é a de Jimmy Carter ao levantar tão alto a bandeira dos direitos humanos?” Em Tempo perguntava. O jornal observou que pouco de significativo havia mudado no ano desde que Carter chegou ao poder com uma agenda pós-Watergate de transparência em casa e equanimidade no exterior. No entanto, Em Tempo reconhecia uma mudança definitiva no tom da governança latino-americana. Os ditadores começaram a empregar termos como “normalização constitucional”. Carter assinou vários tratados internacionais de direitos humanos que aguardavam o apoio dos EUA há anos e “puxou o tapete que dava respaldo ideológico e político à maioria das ditaduras da periferia capitalista”. Para o jornal, esses esforços serviam principalmente para “recompor a imagem odiosa do imperialismo norte-americano herdada da guerra do Vietnã e das ações de ‘desestabilização’ da CIA, como a que levou à queda e morte de Salvador Allende no Chile”.

Mas os jornalistas do Em Tempo não viam tais ações como decorrentes meramente da benevolência do presidente norte-americano. De fato, interpretavam tais medidas como os estágios iniciais de uma nova estratégia para conter eventuais avanços socialistas. Com relatos credíveis de tortura em vários países latino-americanos aumentando ao longo dos anos, os Estados Unidos não puderam mais simplesmente ignorar a questão das violações de direitos humanos em seu próprio quintal, especialmente porque esses abusos supostamente alimentavam a “alternativa socialista” à hegemonia dos EUA, de acordo com Em Tempo. Carter, então, no relato do jornal, encarnava o projeto de reformular a abordagem do império norte-americano para sustentar o capitalismo internacional.

O jornal também observava que o governo Carter estava dividido em duas alas, uma mais conservadora, liderada pelo subsecretário de Estado para Assuntos Interamericanos Terence Todman, preocupada em garantir lucros norte-americanos no exterior, e outra facção mais humanitária, liderada pela Secretária Assistente de Estado para direitos humanos e assuntos humanitários Patricia Derian e o ex-assessor de Ted Kennedy, Mark Schneider, interessados em exercer influência americana em nome dos princípios democráticos. Em 1977, não estava claro qual lado prevaleceria.

Enquanto Em Tempo cobria assuntos internacionais, seu foco principal era o novo sindicalismo surgindo no Brasil da época; e nos outros grupos sociais que vêm à tona durante o lento retorno à democracia, como a União Nacional dos Estudantes (UNE) e organizações de direitos das mulheres, LGBT e negros. O jornal freqüentemente expressava preocupação com a perspectiva de infiltração americana no movimento sindical brasileiro, que eles temiam ter como objetivo minar seu principal líder, Lula. Em Tempo relatou no final de setembro de 1978, por exemplo, que o AFL-CIO, a maior central operária dos Estados Unidos e Canadá, trabalhava em estreita colaboração com a CIA para exportar um tipo de sindicalismo que criaria uma mão de obra no exterior compatível com os imperativos do capitalismo norte-americano.

Em setembro de 1978, uma reportagem publicada no Em Tempo dizia que a AFL-CIO, principal central sindical dos Estados Unidos, trabalhava junto com a CIA para exportar um tipo de sindicalismo que criaria trabalhadores no exterior receptíveis ao capitalismo norte-americano. O jornal defendia o Lula contra acusações de que ele seria um agente da inteligência americana e criticava Ari Campista, chefe da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria e um pelego notório, por sugerir que sindicatos brasileiros rompessem com aliados internacionais.

Supostamente em nome do nacionalismo, tal medida isolaria os sindicatos brasileiros e contradizia a noção de internacionalismo proletário, de acordo com o jornal. Na análise do Em Tempo, Campista representava o impulso interesseiro dos antigos líderes trabalhistas corruptos que rejeitavam a solidariedade internacional em nome de um nacionalismo tacanho. À medida que o movimento sindicalista urbano se fortalecia, o jornal também freqüentemente continha artigos sobre o campo, argumentando que o advento do agronegócio multinacional fazia parte dos “novos planos do imperialismo”.

Essa atenção ao mundo do trabalho contribuía para uma visão crítica do governo Carter. Mesmo que o presidente estadunidense estivesse seriamente preocupado com as violações dos direitos humanos da ditadura, sua agenda econômica inspirava pouca confiança entre esquerdistas brasileiros que não acreditavam que Carter estava realmente disposto a desafiar a lógica implícita do regime militar. Como argumentou Catherine V. Scott, “a inclinação do governo Carter, quando confrontada com a crise do capitalismo no final da década de 1970 era introduzir novas políticas e estratégias de governo que aceleravam o enfraquecimento doméstico do trabalho organizado e buscavam maior integração financeira global que acabaria por restringir a capacidade do Estado de cumprir o contrato social keynesiano pós-Segunda Guerra Mundial”.

Em outras palavras, o neoliberalismo desmobilizador que se tornaria tão identificado com o sucessor de Carter, Ronald Reagan, e que decepcionou qualquer esquerdista brasileiro que esperava uma mudança significativa após os horrores de Nixon e Kissinger, tem sua gênese em um período anterior. O fracasso de Carter em conectar sua nova, e supostamente ousada, abordagem aos assuntos externos com uma nova visão econômica minou sua capacidade de transformar de fato o paradigma da diplomacia internacional. Aí reside a diferença crucial entre o legado de Carter e a abordagem que Bernie Sanders promete.

Se eleito, Sanders assumirá em conflito direto com Bolsonaro, a quem ele considera parte de “um novo eixo autoritário”. Após a eleição de Bolsonaro, Sanders comentou que “nossa tarefa é combater o autoritarismo e construir um movimento de pessoas que acreditam na democracia”. Esse linguajar reflete uma crença nítida na mobilização popular de base que conecta pessoas comuns nos Estados Unidos, Brasil e em todo o mundo.

Organização de base para além das fronteiras

Em uma matéria publicada em abril na revista New Yorker sobre a política externa proposta por Sanders, o candidato democrata lembrou-se de um programa de intercâmbio que ele implementou enquanto prefeito de Burlington nos anos oitenta que enviava crianças de Vermont à União Soviética e recebia crianças russas em sua cidade. “Foi uma experiência incrível ver essas crianças se dando tão bem, muitas atitudes em relação à política externa se baseiam na falta de conhecimento.”

Ele concluiu com um ponto que pode parecer ingênuo, mas que, no clima atual, parece revolucionário: “Trazer agricultores da Turquia para agricultores em Iowa. Sabe, apenas para fazer com que as pessoas se enxerguem como seres humanos. Eu acho que poderia ir longe.”

A implicação dessa afirmação é que esses agricultores, dados a oportunidade de conhecerem uns aos outros, talvez possam perceber os elementos compartilhados de suas lutas sociais, políticas e econômicas. Desse solo poderia brotar uma solidariedade duradoura. “Ele está trazendo essas opiniões sobre a importância de combater a desigualdade econômica na política externa”, declarou Suzanne DiMaggio, uma das consultoras de política externa de Sanders. De fato, no ano passado, falando na Universidade Johns Hopkins, Sanders afirmou que “precisamos de um movimento internacional que se mobilize por uma visão de prosperidade, segurança e dignidade compartilhadas para todas as pessoas”.

O primeiro elemento dessa receita — prosperidade compartilhada para todos ao redor do mundo — exemplifica uma diferença crucial entre a agenda frustrada de direitos humanos de Carter e a abordagem proposta por Bernie. Ao contrário de Carter, o fazendeiro de amendoim da zona rural da Geórgia com uma visão econômica ortodoxa, o senador de Vermont vê a política externa não como um tipo de alquimia que ocorre somente além das fronteiras dos Estados Unidos, independente dos arranjos econômicos e políticos domésticos, mas como consequência dos sistemas de governo que líderes herdam de seus antecessores. Uma ruptura real com a política externa do passado, em outras palavras, implicaria um forte desafio ao status quo político, um esforço que poucos presidentes americanos estão dispostos a fazer dado o alto custo político por pouca recompensa (sem falar nos compromissos ideológicos profundamente arraigados). Bernie se comprometeu repetidamente com esse esforço.

Além disso, Bolsonaro não possui as habilidades retóricas e políticas necessárias para amenizar os pronunciamentos violentos que fez sobre o campo da esquerda, da qual Sanders claramente pertence. Dado seu proto-neoliberalismo e o contexto da Guerra Fria, Carter conseguiu ter uma relação produtiva com os generais latino-americanos apesar de sua ênfase nos direitos humanos e o ego brasileiro fragilizado por palpites norte-americanos. Já em 1979, Carter havia efetivamente abandonado direitos humanos como um pilar de sua política externa, pressagiando o retorno de uma abordagem mais escancarada do imperialismo estadunidense sob Ronald Reagan (1981–1989).

Se Sanders está comprometido com uma política externa verdadeiramente revolucionária, no entanto, não há nada que justifique uma relação de trabalho com Bolsonaro. Pode parecer contra-intuitivo, dado quem se elegeu no ano passado, mas o caminho para um país melhor, um hemisfério melhor e um mundo melhor, cabe mais ao povo brasileiro do que à sua liderança atual. Os arquitetos de uma nova política externa dos EUA devem levar essa realidade a sério.

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