Um dia com os amigos do Lula em Curitiba

Batidas de panelas ecoaram dos condomínios de classe média na Avenida Paraná, Curitiba, PR, poucos minutos depois das oito horas da manhã do dia primeiro de maio. Era a resposta à caminhada que militantes e ativistas realizavam entre o terminal de ônibus Boa Vista e a vizinhança da Delegacia de Polícia Federal, onde o ex-presidente Lula está preso desde o dia 7 de abril.

Por Marcelo Zapelini, para Desacato.info.

Fotos: Marcelo Zapelini, Mayara Scalabrin Bergamo e Samir Tuffy.

Alguns arriscavam gritar palavras que seus filhos, ao seu lado, não deveriam pronunciar antes que completassem idade suficiente. “Ei Lula, vai tomar no cu”, como uma mensagem a ser entregue ao líder por seus seguidores. Eles, porém, reagiam. “Que palhaçada, bate panela, mas quem lava é a empregada”, quando a ironia não fosse suficiente para acalmar os condôminos lembravam que “bate panela, pode bater, mas quem tira o povo da miséria é o PT”, numa referência a retirada do Brasil do mapa da fome da ONU, agora recolocado.

Nas calçadas, os transeuntes paravam para fotografar e filmar aquelas centenas de pessoas que insistiam em gritar “Lula Livre”. Um motociclista tirou o capacete e comentou com uma mulher, que estava ali: “nunca vi tanta gente junta. Já foi lá em cima (na Polícia Federal)? Tem uma multidão maior” e emendou, ou por desejo, ou por ironia ou por mera especulação “Com essa pressão, é capaz que soltem o homem”.

Eles sabiam que não seria solto, a caminhada, porém, tinha um desejo mais singelo: desejar um “Bom Dia, presidente Lula”. Reza a lenda que ele ouve e responde de dentro de sua prisão, no terraço da delegacia.

Do topo da colina em que estão as tendas da Vigília Lula Livre, a menina Vitória, 12 anos, vinda de um acampamento do MST, em Abelardo Luz, SC, pula, dá uma volta no ar e bate palmas: “Hoje o chão vai tremer”. Ela e a família terminam juntos a caminhada que não iniciaram para o ritual que abre a programação do feriado. Pontualmente, às 9h, milhares de pessoas (um total de 2 mil para a PM e incalculável para a organização) deseja bom dia para Lula, várias vezes.

Seria esse um bom dia, mesmo? Na opinião da paranaense EnirWarmeling, é sim, “é um bom dia porque estamos lutando pela justiça, pelo direito e pela liberdade de Lula. Quando milhares de pessoas se reúnem por este motivo, é um bom dia”.

Atos políticos e religiosos aconteceriam depois, mas fora da programação oficial há diversos espaços de convivência. Na tenda da democracia, pessoas podem bordar retalhos com o Projeto Linhas do Horizonte, de Minas Gerais. Esses retalhos formarão um grande tapete para que o ex-presidente pise ao ser liberto. “Bordar também é uma forma de luta”, resume a professora da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), que destinou uma parte dos seus três dias no acampamento para ajudar a preparar esta homenagem de muitas mãos, na maioria femininas.

Uma outra tenta oferece papel e caneta para que cartas sejam escritas para Lula. Ester Figueiredo, professora universitária estadual, de Vitória da Conquista da Bahia, com o olhar marejado, tirou de sua bolsa uma flor vermelha bordada por sua neta Nina e a embrulhou cuidadosamente na carta em que disse:“te entrego essa flor para que você continue na luta”.

Enquanto pessoas vem para agradecer e incentivar, outras aproveitam para ganhar um dinheiro extra, comoVanderlei Batista, que vende cocadas, bebidas em geral e água de coco. No dia anteriorda chegada das novas caravanas, havia vendido pelo menos 60 cocos para os manifestantes,já “a vizinhança vem, principalmente, pelo quentão sem álcool”. Como ele estão? “A vizinhança está preocupada com a retirada dos banheiros químicos e as pessoas precisam deles. Assim fica feio para a Curitiba”.

Uma das moradoras, Deise Waurek, filha de uma antiga professora sindicalista da APP Sindicato, foi contratada para ajudar na barraca, tanto é o movimento. “Minha mãe sempre foi envolvida com isso (manifestações) e eu estou com ela. Estou acostumada, não tem outro jeito”. Ela critica a imprensa pela “cobertura parcial que não mostra a realidade das vivências”. “Há muito preconceito, se a imprensa quisesse mostrar a realidade estaria no meio no povo”, disse.

Bem atrás da tenda principal onde acontecem os discursos, mora o massoterapeuta Igor Stadler, que considera a manifestação um transtorno, mas “temos que aceitar, pela democracia”. “Quanto ao transtorno isso é normal, é direitos de eles defenderem o seu candidato, mas eles também têm que aceitar a nossa opinião”, ponderou.

Como as ruas estão com pontos de controle policial a clientela diminuiu, se antes eram nove por semana agora são apenas três. Os clientes do bazar na garagem da casa, mantido pela sua esposa também desapareceu. A solução foilevar o estoque para o meio da multidão. “Às vezes uma coisa é ruim, mas pode ficar boa”, filosofou.

Nem todos conseguiram manter-se à margem do movimento. Dona Rosa, proprietária da casa, de número 184 onde são preparadas mais de 2000 refeições por dia, incluindo o café da manhã, acabou se envolvendo quando primeira barraca chegou ao seu quintal, no dia 16, dia em que o Acampamento Lula Livre precisou ser levantado por ordem judicial.

Leiga declarada em política, dona Rosa disse que não fez “nada de extraordinário, apenas abri a porta de casa” o que ela não sabia é que isso levaria a uma revolução pessoal e chegou à filiação ao PT abonada pela senadora Gleisi Hoffmann. “Eu sou uma mulher privilegiada, porque eu sempre pedia para Deus: eu queria ganhar na loteria, fechar a minha rua, fazer uma festa e encher a minha casa de gente. E Deus realizou.Eu ganhei muito mais que na loteria, ganhei amigos, companheiros, uma família”, revelou.

Ela lamentou que Curitiba se envolve pouco com política e que as pessoas não dão a chance de conhecer um pouco mais. “Não precisa defender o Lula, mas venha conhecer a realidade desse povo, todos trabalhadores”, convidou.Ela disse que chorou “um monte” por ver “tanta união, tanta força junta” e diferente do que se pensa, “não são bagunceiros, não são baderneiros; são pessoas como a gente, são pessoas honestas”.

Reginaldo Oliveira Neto, serralheiro de Extrema, MG, é um dos acolhidos por Dona Rosa, que por sua vez acolheu a cachorra chamada Resistência, que perambulava sem dono pelas ruas. O bicho anônimo entre os quase 230 mil cães que perambulam por Curitiba chegou à fama em pouco tempo, Gleisi gravou um vídeo, o senador Lindbergh Farias e o ex-ministro Marcadante divulgaram fotos que fizeram com ela. “Aqui no acampamento ela é mais conhecida que muitos famosos”. Resistência deve mudar-se para Minas, mas o quando depende da Justiça. “Eu vim para cá ficar até o Lula sair, depois que eu for embora com o Lula, ela vai junto”, contou.

Enquanto as histórias se entrelaçam, políticos fazem discursos, grupos realizam apresentações culturais,eventos singelos acontecem,ao ladotrês do palco três pessoas erguem as mãos com o clássico sinal do “L” de Lula para uma foto e num momento seguinte, dezenas estão fazendo mesmo.

Distante dali, onde o som das caixas acústicas não chega, professoras paulistas do Sindicato dos Educadores da Infância, atraem atenção com suas cirandas: “Poti, poti, perna de pau, Moro safado, nariz de pica-pau”, talvez seja possível encontrar o vídeonas redes sociais, pois dezenas de pessoas pediram “bis” para registrar a apresentação completa.

Nas bordas da vigília, os Meios de Comunicação de Massa espreitam a movimentação para o noticiário comercial. O viés ideológico e parcial incomoda os manifestantes, que eventualmente, discutem com os jornalistas. “A verdade é dura, a Rede Globo apoiou a ditadura”, gritavam ao bloquearam o trabalho de um radialista e um cinegrafista, que desistiu das imagens.

“Vocês são os só os profissionais, mas trabalhar para a empresa mãe do golpe é complicado, você escolheu. A narrativa de vocês não condiz com a realidade”, explica ao jornalista da rádio CBN a arquiteta vinda de Santa Catarina, Zoraia Vargas. Para os jornalistas, o melhor caminho é o acesso por um posto de controle ao lado. Apenas jornalistas com carteira profissional são permitidos e a circulação é proibida, exceto para moradores.

Nessa área, atrás de uma linha guardada pela brigada de disciplina do MST, os jornalistas podem entrevistar deputados e lideranças. Uma delas é a deputada pelo Rio de Janeiro Benedita da Silva (PT), cercada de repórteres ela disse que Lula foi condenado por apoiar a ascensão social dos trabalhadores e que se “se ele não puder ouvir (o ato) com seus ouvidos, o está sentindo com seu coração, no mesmo compasso das pessoas aqui fora”.

Enquanto ela fala, acontece a alguns metros atrás, o ato inter-religioso por Lula Livre. Os celebrantes lembram aqueles que “tombaram contra a injustiça”, como Marielle Franco, vereadora assassinada em uma emboscada no Rio de Janeiro, e os Sem Terra mortos há 20 anos em Eldorado dos Carajás.A memória deles faz lembrar que “a luta alimenta a vida e a vida alimenta a luta”, repetem em coro os participantes.A comunhão, feita com pão de forma, é distribuída entre todos, porém, com um alerta: “quem pegar o pão vai se comprometer com a luta até a libertação do Lula”.

Esse ato antecede um ato político, que também servirá para organizar o povo na caminhada até o centro, onde acontecerá a manifestação pelo Dia do Trabalhador. Enquanto isso, o chefe da operação da PM, 1º. Tenente Bittencourt respondia à imprensa que a ação militar seria preventiva e visaria garantir o direito da manifestação e sem prejuízo do acesso dos moradores às suas casas “independentemente da quantidade de manifestantes”. De fato, até o final daquele dia não houve conflitos, nem durante a caminhada de 9,5 km até a praça Santos Andrade, em frente a um campus da UFPR.

Enquanto parte das pessoas precisou seguir de ônibus, os mais resistentes seguiram pelo mesmo caminho da manhã e foram além. Ocupando a distância de quatro quarteirões o grupo reencontrou os moradores dos condomínios, agora em maior número, porque poucos haviam acordado cedo para ver a caravana passar.

 “Aqui é Brasil, ó”, grita um homem desde o terceiro andar segurando a bandeira do Brasil. As panelas voltam a bater enquanto a rua responde que” fascistas não passarão”.

A passagem pela unidade de saúde Boa Vista, atrai pacientes, acompanhantes e funcionários para a calçada.Uma mulher sai indignada “que raiva, roubam 200 bilhões por ano e ainda fazem isso”, comenta com outra pessoa e depois grita repetidamente: “Vagabundos!” até que é puxada para dentro do prédio.

Sem ninguém que lhe coloque limites, Manuel Augusto de Jesus, carpinteiro, sinaliza com os polegares voltados para baixo e vaia. “Estão se manifestando na frente do hospital (pronto atendimento) que façam isso em outro lugar”. Embora reconheça que não conhece ninguém na manifestação e nem quer conhecer afirma que “nenhum deles trabalha, só ficam descansando, pagos pelo meu bolso” afinal “mamam nas tetas do Lula, mas isso vai acabar”.  Ele ainda culpou o PT pelos problemas no SUS, mas não soube quanto cada governo investiu: “não tenho tempo para isso, trabalho o dia todo e chego em casa só a noite”, respondeu.

Mais à frente, já no bairro remediado chamado Bacacheri, os automóveis se destacam.Parados pela passagem da manifestação, motoristas buzinam contra e a favor em uma confusão sonora.

Na esquina da Rua Holanda com Avenida Paraná, um homem atravessa a via vestido de vermelho batendo com a mão sobre a estrela do PT em sua camiseta e motoristas rebatem com buzinadas hostis. Da multidão vem sempre a resposta: “Luva Livre”.

Distantes três quarteirões do grupo de vanguarda da passeata, que carrega os tambores e faz cantorias, o grupo intermediário já caminha com certo silêncio até que do terraço de um edifício de dez andares, distante mais de 200 metros da avenida, um homem grita: “Lula Livre”. É o suficiente para o grupo reanimar-se e puxar o velho jingle de 1989.

Esse diálogo urbano permanece até a chegada no destino. Sem tetos que moram sob a marquise de uma loja do Walmart atravessam uma das pistas com os punhos erguidos e os manifestantes aplaudem.

Esperando uma frente unificada de fascistas Michelle Salazar se dissesatisfeita. “Estamos muito bem acolhidos, infelizmente a mídia planta a semente do mal. O quarto poder faz parecer que aqui no Sul, todo mundo é fascista, mas não são a maioria”, analisou a professora paulista, caminhando protegida por um guarda sol.

No Juveve, uma engenheira caminha com o marido na calçada e volta até a esquina para chamarpelo filho, no terceiro andar, e pede: “Fotografa”, depois volta a bater palmas ao som de “Lula lá” cantado pelos passantes. “Tem alguns que apoiam, mas este é reduto de coxinhas”, resume.

Em uma janela do vigésimo terceiro andar de um prédio mais à frente, surge uma bandeira do MST, o que leva os quatro quarteirões de manifestantes ao delírio. De outro prédio de classe média alta, com arquitetura rebuscada, surge uma ordem, que ignora o feriado: “vão trabalhar”. Eunice, uma servidora do judiciário do Rio de Janeiro faz eco com sua voz entre os prédios: “A gente já sabe, não precisa dizer, você comprou esse apartamento nos governos do PT”, quem está próximo ri e repete alto.

Depois de duas horas de caminhada, a linha de frente para em uma esquina, toma fôlego e corre cantando “Lula, Lula” em direção à praça. Eles rapidamente somem em uma multidão de 40 mil pessoas, que já estava ali desde as 14h e os recebe com aplausos.

Entre os militantes de todo o país, dezenas de curitibanos aproveitaram para trabalhar e ganhar o dia, como o pipoqueiro com 30 anos de experiência, Paulo César. “É uma honra para mim. Posso trabalhar, ganhar o dinheiro e participar, de certa forma. Para mim, Lula foi o melhor presidente, se roubou ainda não mostraram as provas”. Ele tem saudade de num tempo em que as pessoas tinham mais dinheiro para pequenos prazeres como saborear suas pipocas.

O palco não atrai todos os participantes. Na verdade, há muitas atividades paralelas e informais que atraem os apoiadores de Lula. Comunistas realizam uma intervenção musical com tambores, outro grupo passa dançando samba com cartazes pró-Lula. Outro grupo participa de uma roda de capoeira trazida pelo Mestre Carioca.

“Houve um golpe que todo o mundo viu, e a capoeira não tem como ficar fora disso. O Lula é um homem retirante, nordestino, que veio para a cidade grande e pode construir a transformação social. A capoeira tem que estar lado a lado, combatendo essa opressão, essa injustiça, guerreando em favor da democracia e a igualdade racial”, apontou o mestre.

No palco, cantores populares animavam e denunciavam, enquanto líderes sindicais, sociais e políticos reverberavam o peso político do dia. Presidenciáveis também falaram em democracia.

Boulos, do Psol disse que “esse primeiro de maio é também pela democracia incompleta” pois não se democratizou nem a economia e nem a inclusão social, mas mesmo “essa democracia limitada e precária está sendo destruída”. Ele avisou que “as mentiras deles não vão parar a nossa resistência” e por isso o povo seguirá ocupando as ruas, a política e “até um triplex de vez em quando”.

Pré-candidata pelo PC do B, Manoela analisou que este é um dos primeiros de maio mais difíceis dos últimos tempos, é nesse em que “vemos a velocidade com que as elites destroem o estado brasileiro” e ainda disse que “enquanto um de nós estiver na solitária, proibido de falar, todos nós seremos as ideias de Lula”.

Aldo Rebelo, ex-ministro de Lula, agora no Solidariedade, ligado a Força Sindical, tentou discursar, mas acabou vaiado e foi interrompido por um “olê-olê-olá, Lula”, que tomou corpo. Ambas as organizações apoiaram o golpe contra Dilma e sofrem resistência da esquerda. Aldo ainda tentou enfatizar, sem sucesso, que não é possível enfrentar o fascismo sem tolerância entre amplos setores.

Sindicalistas de diversos países compareceram no palco, onde informaram que em todos os atos argentinos, que reuniram mais de um milhão de trabalhadores, ouviu-se a ordem: “Lula Livre”, assim também aconteceu em atos nos EUA, Chile, Cuba, Equador e outros do continente americano.

Gleisi, como porta-voz de Lula, revelou que o ex-presidente está bem e segue mais preocupado com o povo do que consigo mesmo. Ela ainda leu uma carta em que o ex-presidente diz: “é com tristeza que vivemos um momento onde a nossa democracia está incompleta, com um presidente que não foi eleito pelo povo”, diz um trecho da mensagem que ainda reforçou a esperança de “recuperar a prosperidade do Brasil naqueles tempos” do seu governo.

Descansando sob as árvores e longe do palco, Eliana Aquino, professora estadual de SP,disse que este Dia do Trabalhador é diferente porque éuma lembrança dos tempos difíceis pelo qual os trabalhares passam, “ele é um marco histórico. O povo está mostrando o seu sentimento. Enquanto Lula está sendo aqui ovacionado o Temer está sendo ‘ovacionado’, em SP (quando tentava visitar as vítimas sem teto de um prédio incendiado). Eu gostaria que tivesse mais gente no ato, mas já valeu”.

Para a pesquisadora de mulheres encarceradas, Marinês da Rosa esse dia do Trabalhador também é um marco histórico “e que bom que estamos vivendo isso aqui” com a unidade dos partidos, movimentos, gêneros e raças. “Quando se tem um líder popular como preso política a gente pensa no que vai enfrentar.”

Sentada no gramado da praça tomadapor pessoas de todos os lugares do país, essa cientista social sentia nascer uma mudança em si mesma. “Depois do que a gente viveu não dá para voltar do mesmo jeito. Agora tenho uma nova responsabilidade como mulher, professora, mãe”, revelou.

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