Um caso exemplar de cotas para negros

Por Urariano Mota.
A semana passada, depois de publicar “As cotas para negros nas universidades”, pude acompanhar a discussão gerada pelo texto e pelas cotas. Entre vários argumentos contra, todos muito democratas, daquela democracia “o que faz um negro em meu ambiente?”, o mais comum era que as cotas eram racistas porque tratavam os negros como mendigos retardados. Perdoem a grossura, que dói até na reprodução, mas os democratas eram desse gênero. Acontece, Cartola, que para nossa felicidade, pude ver um testemunho vivo de um beneficiário de cotas. A ele, sem qualquer conserto:
“Me chamo Gutemberg da Silva Rocha, tenho 27 anos, e estudei todo o meu ensino fundamental e médio na Escola Senador Aderbal Jurema, no bairro do Curado IV, na periferia do Recife, onde praticamente nasci e onde costumo ir quando visito o Brasil.
Me graduei em Relações Internacionais pela FIR (Estácio) em junho de 2011. Desde o primeiro período já era nítida a diferença que existia entre mim, mais dois colegas ‘cotistas’, e os demais do curso. Com exceção de uma moça negra, todo resto da turma era de pele clara e com um poder aquisitivo estável. Verdade seja dita, havia algumas pessoas ali que não se importavam com a questão de cotas nem com a cor da pele, mas era nítido que havia um preconceito oculto na maioria.
Fui beneficiado pelo Prouni, e o vejo também como um sistema de cotas, com uma dinâmica diferente, porém com a mesma essência do sistema utilizado para incluir os negros. Ele permite que pessoas de menor poder aquisitivo (uma grande parcela é negra) tenha a mesma oportunidade de educação de um jovem de classe média (maioria branca).
Minha média geral foi 8,29, enquanto a média da turma ficou em torno de 6,75.
Atualmente trabalho em Luanda-Angola para a construtora Queiroz Galvão. Faço as compras internacionais da empresa. Resido em Luanda há mais ou menos 1 ano. Os angolanos se identificam muito com o Brasil, o que facilita nossa relação com eles. Não é estranho ter acesso a shows de artistas brasileiros, restaurantes com comidas das mais diversas regiões do Brasil, televisão, etc… Enfim, Angola se espelha muito no Brasil, porém mantendo suas tradições.
Sou a favor das cotas para negros, não apenas pela dívida histórica, mas também para que os negros olhem um médico ou um engenheiro atuando e sintam que também é possível chegar lá. Sou mais a favor do forte investimento na educação de base, para que em um futuro próximo todos possam concorrer de igual para igual, e assim não se fazerem necessárias essas cotas. Porém, como esse processo é longo, não podemos deixar que uma geração inteira se perca por causa de erros do passado.
Envio em anexo uma foto que tirei na África do Sul com a estátua de Mandela ao fundo. Acredito que ela simboliza bem este depoimento, pois como é sabido, Mandela representa a luta, bem como a perseverança naquilo que ele acreditava ser o certo.
Bem, sempre tenho dificuldades de me descrever, porque todo dia conheço algo novo em mim. No entanto, o Gutemberg que se faz presente hoje é persistente, atencioso e muitas vezes inteligente o suficiente para contornar momentos de dificuldades e transformá-los em aprendizado para chegar ao êxito. Sou um amante da natureza, e acredito fielmente no ‘Não faça aos outros aquilo que não gostaria que fizessem com você’. Faço parte daquele grupo que normalmente sofria com o bullying nas rodas de amizade, talvez por nem sempre ter a mesma opinião que a massa, e também por nem sempre saber o momento certo de ficar calado (Um defeito que já venho há algum tempo tentando corrigir, e vou conseguir!).
Sonhei um dia em seguir a carreira política, atuando principalmente em causas humanitárias e projetos sociais, porém a vida me abriu a oportunidade de trabalhar com Comércio Exterior, o que foi uma grata surpresa, pois me possibilita(ou) interagir com pessoas de diferentes culturas e opiniões, além de viver no continente africano, auxiliando nossos irmãos angolanos a reconstruírem seu país e identidade. Pretendo voltar em alguns anos ao Brasil, levando uma enorme bagagem cultural e profissional, para assim ter condições de ajudar outras pessoas, principalmente do Curado IV, o meu bairro periférico, a terem as mesmas oportunidades que eu tive”.
Fim do depoimento. O colunista aqui se esconde diante da sua grandeza.

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