Trump e a nova fase do imperialismo

Publicado em: 21/03/2017 às 15:49
Trump e a nova fase do imperialismo

Por Leonardo Leite.

No blog da Boi­tempo, Gi­o­vanni Alves fez uma com­pe­tente aná­lise da atual longa de­pressão do sé­culo 21(1). Apoiado na tese do mar­xista in­glês Mi­chael Ro­berts, ele mostra que a raiz da crise é a re­dução da lu­cra­ti­vi­dade do ca­pital ao longo dos úl­timos anos. Com base nessa cons­ta­tação, deixa uma per­gunta in­tri­gante que ins­pirou a re­flexão que de­sen­vol­verei neste texto: “o que irá con­tri­buir para a saída da longa de­pressão do sé­culo 21?”.

O pro­te­ci­o­nismo de Trump: ig­no­rância ou sin­toma da crise?

Os pri­meiros mo­vi­mentos de Do­nald Trump na Casa Branca pa­recem dar o tom de sua po­lí­tica através de uma mis­tura de na­ci­o­na­lismo, ra­cismo e xe­no­fobia. Os grandes meios de co­mu­ni­cação e os in­te­lec­tuais que os sub­si­diam pa­recem per­plexos com os rumos to­mados pelo ca­pi­ta­lismo es­ta­du­ni­dense. Dentre os vá­rios exem­plos dessa per­ple­xi­dade, me chamou a atenção um ar­tigo do eco­no­mista Paul Krugman, ven­cedor do Nobel de Eco­nomia em 2008, pu­bli­cado no úl­timo 30 de ja­neiro, no qual ele su­gere que a im­po­sição uni­la­teral de ta­rifas de im­por­tação pelo go­verno Trump po­deria “des­man­telar” “todo o sis­tema de co­mércio in­ter­na­ci­onal” graças, em úl­tima ins­tância, à su­posta “ig­no­rância” do pre­si­dente eleito (2). Mais re­cen­te­mente, em 13 de fe­ve­reiro, ele ge­ne­ra­lizou sua crença e disse que “Trump é as­ses­so­rado por ig­no­rantes” (3).

Seria in­ge­nui­dade de nossa parte crer na tese de Krugman, es­pe­ci­al­mente por dois mo­tivos. Em pri­meiro lugar, os passos de Trump, in­cluindo de­cretos e or­dens exe­cu­tivas, tweets e con­versas te­lefô­nicas, tem es­treita co­nexão entre si, pos­suem um fun­da­mento ra­ci­onal que pode e deve ser ex­pli­cado para além da tese da “ig­no­rância” ou da ir­ra­ci­o­na­li­dade. Em se­gundo lugar, o “des­man­te­la­mento” do co­mércio in­ter­na­ci­onal já está em vigor desde antes da posse de Trump, pre­ci­sa­mente desde a ex­plosão da grande de­pressão na qual o ca­pi­ta­lismo mun­dial está ato­lado. Na re­a­li­dade, como de­sen­vol­verei adi­ante, a ofen­si­vi­dade de Trump nas re­la­ções in­ter­na­ci­o­nais é muito mais sin­toma do que causa da de­ca­dência ca­pi­ta­lista.

Como sa­bemos, a eleição de Trump re­sulta de um amplo apoio da classe tra­ba­lha­dora em­po­bre­cida, es­pe­ci­al­mente nas co­mu­ni­dades do cha­mado Cin­turão da Fer­rugem. De acordo com um ana­lista francês, a de­si­gual­dade so­cial “criou grandes co­mu­ni­dades de pes­soas sem fu­turo, para as quais a as­pi­ração pre­do­mi­nante pode apenas ser voltar o re­lógio para trás” (4). O pano de fundo de sua vi­tória é o mesmo que ali­mentou o Brexit de agosto do ano pas­sado e põe Ma­rine Le Pen em con­di­ções de vencer as elei­ções fran­cesas. Na me­dida em que esse giro à di­reita vai se efe­ti­vando, os go­vernos des­locam suas es­tra­té­gias po­lí­ticas para mais pro­te­ci­o­nismo, xe­no­fobia etc., pois a po­pu­lação (o elei­to­rado) pa­rece que “perdeu a fé no pro­gresso”, ou seja, “eles olham para trás porque tem medo de olhar para frente” (5).

Essa ge­ne­ra­li­zada des­crença no “pro­gresso” tem efe­ti­va­mente uma base real e con­creta. Nos Es­tados Unidos, as pes­soas estão ga­nhando cada vez menos do que seus pais, ge­ração após ge­ração: 90% das pes­soas nas­cidas nos anos 1940 ga­nhavam sa­lá­rios mai­ores que seus pais, en­quanto apenas 50% da ge­ração dos anos 1980 pode dizer o mesmo (6). Trata-se de uma de­te­ri­o­ração quase con­tínua das con­di­ções de vida que se acentua prin­ci­pal­mente dos anos 1970 em di­ante, quando os sa­lá­rios dos tra­ba­lha­dores em em­presas pri­vadas ficam pra­ti­ca­mente es­tag­nados em termos reais, isto é, quando com­pa­rados à in­flação(7).

Em­bora a re­tó­rica iso­la­ci­o­nista de Trump tenha con­se­guido cap­turar esse eleitor, o fato é que não é o co­mércio com a China ou com o Mé­xico o prin­cipal res­pon­sável por essa si­tu­ação. Um es­tudo re­cente, ci­tado por Mi­chael Ro­berts e Paul Krugman, mostra que a “con­cor­rência com a China levou à perda de 985 mil em­pregos in­dus­triais entre 1999 e 2011. Isto é menos do que um quinto da perda ab­so­luta de em­pregos in­dus­triais ao longo desse pe­ríodo e uma fração ainda menor do de­clínio in­dus­trial de longo prazo”.

Assim, como diz Ro­berts, houve ga­nhos de “efi­ci­ência” pelas em­presas es­ta­du­ni­denses, re­for­çando a in­ca­pa­ci­dade dos sin­di­catos em pres­si­onar os sa­lá­rios para cima: “80% dos postos de tra­balho per­didos (nos Es­tados Unidos) não foram subs­ti­tuídos por tra­ba­lha­dores na China, mas por má­quinas e au­to­mação” (8), o que também ajuda a en­tender a queda da taxa média de lucro ex­posta por Gi­o­vanni Alves. Re­su­mindo: não é o co­mércio o res­pon­sável pela de­te­ri­o­ração das con­di­ções de vida (e das es­pe­ranças) dos de baixo, mas a pró­pria pro­dução ca­pi­ta­lista.

Desse modo, po­demos as­se­gurar que as po­lí­ticas pro­te­ci­o­nistas de Trump, to­madas iso­la­da­mente, não serão su­fi­ci­entes para re­verter a de­ca­dência da eco­nomia es­ta­du­ni­dense. Se isso é ver­dade, de­vemos nos per­guntar, então, por que sua ên­fase no pro­te­ci­o­nismo. Não po­demos tratar isso como “ig­no­rância”, há algo mais pro­fundo em jogo. Tomo as pa­la­vras do ex-mi­nistro da Fa­zenda da Colômbia, José Ocampo: “o vo­lume de co­mércio mun­dial tem cres­cido menos que 2% desde 2007. Este é o mais té­pido cres­ci­mento desde a Se­gunda Guerra Mun­dial, com o vo­lume de co­mércio cres­cendo a uma taxa menor do que a pro­dução global pela pri­meira vez na era do pós-guerra” (9). In­clu­sive nos se­tores de mais alta tec­no­logia as ten­dên­cias pro­te­ci­o­nistas estão a todo vapor, desde antes de Trump. De acordo com re­la­tório do maior think tank re­la­ci­o­nado à tec­no­logia e ino­vação, vá­rios países, dentre os quais China, Ale­manha e Rússia, estão im­pondo “po­lí­ticas pro­te­ci­o­nistas para ex­pandir a pro­dução do­més­tica e a ex­por­tação de bens e ser­viços de alta tec­no­logia” (10).

Ou seja: Trump não está “des­man­te­lando” o “sis­tema de co­mércio in­ter­na­ci­onal”, como su­gere Krugman, mas está agindo em um mundo já des­man­te­lado. A longa de­pressão do sé­culo 21 também é uma crise pro­funda do im­pe­ri­a­lismo na me­dida em que o co­mércio ex­te­rior, uma das formas de ma­ni­fes­tação mais im­por­tantes do im­pe­ri­a­lismo em sua fase con­tem­po­rânea, não foi su­fi­ci­ente para ame­nizar ou ate­nuar a queda da taxa média de lucro.

Desde 1980, se ins­talou uma mag­ní­fica apro­pri­ação de re­cursos da pe­ri­feria pelo centro do ca­pi­ta­lismo mun­dial: dados da or­ga­ni­zação Global Fi­nan­cial In­te­grity mos­tram que essa trans­fe­rência lí­quida de di­nheiro entre 1980 e 2012 foi da ordem de 16,3 tri­lhões de dó­lares – o equi­va­lente apro­xi­mado ao PIB dos Es­tados Unidos – re­sul­tante de pa­ga­mento de juros da dí­vida ex­terna, re­messa de lu­cros pelas com­pa­nhias trans­na­ci­o­nais e ope­ra­ções co­mer­ciais não re­gis­tradas (11).

Se o que se con­ven­ci­onou chamar de glo­ba­li­zação é, por­tanto, um pro­cesso in­ten­sa­mente as­si­mé­trico de con­cor­rência no mer­cado mun­dial, no qual o di­nheiro flui con­ti­nu­a­mente da pe­ri­feria para o centro, trata-se de uma glo­ba­li­zação pro­pri­a­mente im­pe­ri­a­lista. Nesse sen­tido, a de­si­dra­tação do co­mércio ex­te­rior pelas grandes cor­po­ra­ções e a con­se­quente gui­nada pro­te­ci­o­nista dos go­vernos re­velam que está em curso uma de­sin­te­gração da úl­tima fase do im­pe­ri­a­lismo, as­so­ciada com a emer­gência da fase se­guinte. Sendo assim, é nesta es­quina da his­tória que os mo­vi­mentos de Trump devem ser en­ten­didos.

O im­pe­ri­a­lismo sempre se re­cicla

O pro­te­ci­o­nismo emer­gente de hoje é muito pa­re­cido com a res­posta im­pe­ri­a­lista à longa de­pressão da dé­cada de 1870. De 1879, quando Otto Von Bis­mark ergue fortes bar­reiras co­mer­ciais na Ale­manha, até 1913, o pro­te­ci­o­nismo se for­ta­lece e se ge­ne­ra­liza pra­ti­ca­mente no mundo in­teiro, com ex­ceção da Grã-Bre­tanha. Até a dé­cada de 1890 não há dú­vida que o berço da re­vo­lução in­dus­trial era a prin­cipal eco­nomia do pla­neta. En­tre­tanto, o de­sen­vol­vi­mento in­dus­trial em ou­tros lu­gares do mundo, es­pe­ci­al­mente França, Ale­manha e Es­tados Unidos, tornou as em­presas destes países tão ou mais com­pe­ti­tivas no mer­cado mun­dial, di­mi­nuindo a par­ti­ci­pação das ex­por­ta­ções bri­tâ­nicas no total co­mer­ci­a­li­zado (12). As­sistia-se, por­tanto, um pe­ríodo his­tó­rico de crise de li­de­rança na hi­e­rar­quia im­pe­ri­a­lista.

Com mer­cados cada vez mais fe­chados em função das ta­rifas e ou­tras bar­reiras à im­por­tação, a saída en­con­trada para pe­ne­trar em mer­cados es­tran­geiros foi in­vestir e co­meçar a pro­duzir dentro dessas eco­no­mias. O mar­xista aus­tríaco Ru­dolf Hil­fer­ding ra­pi­da­mente per­cebeu isso no clás­sico O ca­pital fi­nan­ceiro, dando o sub­sídio para Lenin sus­tentar que na era do im­pe­ri­a­lismo clás­sico “a ex­por­tação de ca­pi­tais, di­fe­ren­te­mente da ex­por­tação de mer­ca­do­rias, ad­quire uma im­por­tância par­ti­cu­lar­mente grande” (13). For­maram-se grandes cor­po­ra­ções fi­nan­ceiras e pro­du­tivas com ope­ra­ções em vá­rios ter­ri­tó­rios na­ci­o­nais. Com os con­dutos para a trans­fe­rência in­ter­na­ci­onal de valor via co­mércio ex­te­rior par­ci­al­mente des­man­te­lados, os Es­tados (e o sis­tema de múl­ti­plos Es­tados) ga­ran­tiram a ri­gidez de ou­tros con­dutos, ne­ces­sá­rios para a fluída cir­cu­lação de lu­cros e juros pro­du­zidos no ex­te­rior.

A es­sência do im­pe­ri­a­lismo (a trans­fe­rência in­ter­na­ci­onal de valor) per­ma­neceu in­tacta, em­bora se ma­ni­fes­tasse por uma com­bi­nação di­fe­rente de formas (14). O mi­li­ta­rismo e a cor­rida ar­ma­men­tista, tí­picas desse pe­ríodo, in­te­gram, evi­den­te­mente, a in­ter­venção es­tatal para ga­rantir o pleno fun­ci­o­na­mento de con­dutos para a apro­pri­ação de valor pelos cen­tros im­pe­ri­a­listas. Em­bora o im­pe­ri­a­lismo nunca pres­cinda da força ex­tra­e­conô­mica, es­pe­ci­al­mente das forças ar­madas, o grau com o qual ela é uti­li­zada de­pende das cir­cuns­tân­cias tí­picas de cada fase his­tó­rica.

Quando uma fase im­pe­ri­a­lista se de­sen­volve a partir dos in­ves­ti­mentos no ex­te­rior, da “ex­por­tação de ca­pital” nos termos de Lenin, a força ex­tra­e­conô­mica é mais ne­ces­sária do que quando o co­mércio ex­te­rior é o carro-chefe. Para um in­ves­ti­mento dar frutos, isto é, lu­cros ou juros, ele pre­cisa ser imo­bi­li­zado du­rante algum in­ter­valo de tempo. Por exemplo, quando uma cor­po­ração mul­ti­na­ci­onal monta uma fi­lial em outro país, é pre­ciso algum tempo até que este braço da em­presa pro­duza, venda e gere lu­cros. O mesmo é vá­lido para um em­prés­timo in­ter­na­ci­onal: o banco credor pre­cisa es­perar o in­ter­valo ne­go­ciado no con­trato para que o di­nheiro re­torne acres­cido de juros. Em re­sumo, o di­nheiro in­ves­tido (pro­du­tiva ou fi­nan­cei­ra­mente) no ex­te­rior pre­cisa ficar imo­bi­li­zado, tempo no qual o in­ves­tidor está su­jeito a riscos de na­tu­reza di­versas.

Ocorre algo di­verso quando se trata do co­mércio ex­te­rior, pois, neste caso, a tran­sação se con­clui no pró­prio ato: a compra ou a venda de algo é ime­diata e, por­tanto, su­jeita a uma quan­ti­dade menor de riscos.

O ar­gu­mento que de­sen­volvo aqui tenta mos­trar que, sob o ca­pi­ta­lismo, a in­ten­si­dade das ri­va­li­dades bé­licas entre as grandes po­tên­cias não de­corre me­ra­mente de as­pi­ra­ções in­di­vi­duais (sub­je­tivas) à li­de­rança da hi­e­rar­quia im­pe­ri­a­lista. É pre­ciso que exista um de­ter­mi­nado con­junto de fa­tores ma­te­riais a im­pul­si­onar a de­fesa dos in­te­resses na­ci­o­nais, cer­ta­mente cor­po­ra­tivos, para um nível tal que exija sua con­versão em uma de­fesa pro­pri­a­mente ar­mada.

A his­tória do im­pe­ri­a­lismo mostra que a ên­fase ide­o­ló­gica no pro­te­ci­o­nismo em subs­ti­tuição à de­fesa do livre-co­mércio é uma res­posta à crise de uma forma de im­pe­ri­a­lismo cen­trada no co­mércio ex­te­rior, a qual não é mais su­fi­ci­ente para im­pul­si­onar a acu­mu­lação de ca­pital nos cen­tros im­pe­ri­a­listas e, ao mesmo tempo, re­vela a emer­gência de uma nova fase do im­pe­ri­a­lismo, mar­cada pela im­por­tância cres­cente dos in­ves­ti­mentos no ex­te­rior. A de­fesa da nação exige, nesta nova fase, maior su­porte mi­litar para mi­tigar os riscos e ga­rantir que as fontes de di­nheiro no ex­te­rior per­ma­neçam a fluir para os cen­tros im­pe­ri­a­listas.

Longa de­pressão do sé­culo 21 e nova fase im­pe­ri­a­lista

No dis­curso de posse de Trump, a ên­fase à ca­te­goria nação (“Ame­rica First”, uma versão re­mo­de­lada do slogan de cam­panha “Make Ame­rica Great Again”) an­te­ci­pava o que es­tamos as­sis­tindo. A única menção a ques­tões ex­ternas foi a dis­po­sição em “er­ra­dicar” o “ter­ro­rismo is­lâ­mico” da “face da Terra”, como pode ser visto no se­guinte trecho do do­cu­mento ofi­cial sobre po­lí­tica ex­terna da Casa Branca: “der­rotar o Es­tado Is­lâ­mico (ISIS) e ou­tros grupos ter­ro­ristas is­lâ­micos ra­di­cais será nossa maior pri­o­ri­dade” (15). Sua dis­po­sição be­li­ge­rante se fez valer pela pri­meira vez em uma ope­ração mi­litar no Iêmen, au­to­ri­zada em 25 de ja­neiro, na qual vi­la­rejos ie­me­nitas so­freram três ata­ques por drones desde então, ma­tando de­zenas de civis, in­cluindo uma me­nina de 8 anos (16).

Essa mo­vi­men­tação pa­rece con­firmar a dis­po­sição à guerra do novo go­verno dos Es­tados Unidos. Ainda antes de ser eleito, Trump afirmou que a culpa para o avanço do ISIS foi a re­ti­rada im­pru­dente das tropas es­ta­du­ni­denses do Iraque, es­pe­ci­al­mente do con­trole dos poços de pe­tróleo (17), o que su­pos­ta­mente teria fa­ci­li­tado o fi­nan­ci­a­mento desta or­ga­ni­zação. Re­cen­te­mente, no dia 2 de fe­ve­reiro, a Casa Branca ad­vertiu o Irã pelo teste com míssil ba­lís­tico, o que foi visto por Teerã como uma ati­tude “sem fun­da­mento e pro­vo­ca­dora” (18). Em suma, todos os mo­vi­mentos de Trump su­gerem que o Ori­ente Médio con­tinua a ser o alvo pri­o­ri­tário dos Es­tados Unidos, cujos in­te­resses na re­gião cer­ta­mente são mais pro­fundos do que “com­bater o ter­ro­rismo”.

O fun­da­mento ma­te­rial para esse in­te­resse – que não é novo, diga-se de pas­sagem – é a ex­pro­pri­ação de fontes de energia vin­cu­lada com a ne­ces­si­dade de au­mentar a lu­cra­ti­vi­dade dos ca­pi­tais im­pe­ri­a­listas. A pro­pó­sito, as es­co­lhas de Do­nald Trump para os prin­ci­pais cargos no go­verno não deixam dú­vidas sobre a in­ces­tuosa re­lação entre grandes cor­po­ra­ções e as po­lí­ticas de Es­tado, o que fica evi­dente com a no­me­ação de Rex Til­lerson, ex-pre­si­dente da pe­tro­leira Exxon Mobil, para Se­cre­tário de Es­tado (cuja função será lidar com as­suntos ex­ternos, di­plo­macia etc.). In­clu­sive a con­tro­versa re­lação entre a equipe de Trump e o go­verno da Rússia, es­can­ca­rada com a re­núncia do ge­neral Flynn, fica menos ne­bu­losa quando a questão ener­gé­tica apa­rece em pri­meiro plano.

É sobre esse con­texto (da re­to­mada da lu­cra­ti­vi­dade) que se deve en­tender a ale­gada ur­gência em re­tomar a cons­trução dos po­lê­micos ole­o­dutos Keys­tone XL e Da­kota Ac­cess. Um deles serve para levar pe­tróleo do Ca­nadá para as re­fi­na­rias no Texas, de forma que “aju­daria a re­duzir em 40% a de­pen­dência ener­gé­tica ame­ri­cana da Ve­ne­zuela e do Ori­ente Médio”. O outro tem a função de ligar a pro­dução de gás e pe­tróleo de xisto até cen­tros de dis­tri­buição (19).

A cha­mada “re­vo­lução do xisto” – através da qual se ex­trai pe­tróleo e gás na­tural com o fra­tu­ra­mento hi­dráu­lico de ro­chas de xisto – se ar­re­feceu com as re­gu­la­men­ta­ções am­bi­en­tais, ob­jeto de ácidas crí­ticas do pre­si­dente Do­nald Trump, que pre­tende re­movê-las ra­pi­da­mente. O re­sul­tado es­pe­rado será pro­dução de energia com menor custo, au­mento da lu­cra­ti­vi­dade para as cor­po­ra­ções in­dus­triais es­ta­du­ni­denses e trans­for­mação dos Es­tados Unidos em ex­por­tador lí­quido de gás em fu­turo bem pró­ximo (20).

A ba­talha por fontes mais ba­ratas de energia, nos fronts ex­terno ou in­terno, in­de­pen­den­te­mente de con­si­de­ra­ções am­bi­en­tais ou hu­ma­ni­tá­rias, pa­rece ser, por­tanto, o fun­da­mento ra­ci­onal que ex­plica par­ci­al­mente os mo­vi­mentos de Do­nald Trump na pre­si­dência.

Na es­fera das re­la­ções co­mer­ciais, o Ame­rica First se traduz, nos termos ofi­ciais, em “re­jeitar e re­for­mular acordos co­mer­ciais fra­cas­sados”, o que foi feito pron­ta­mente com o aban­dono das ne­go­ci­a­ções do acordo de livre co­mércio do Pa­cí­fico (TPP, na sigla em in­glês), o “Amexit do sis­tema de co­mércio global” (21).

Ade­mais, os Es­tados Unidos se pre­param para “tomar me­didas enér­gicas contra as na­ções que (su­pos­ta­mente) vi­olam tra­tados co­mer­ciais e pre­ju­dicam os tra­ba­lha­dores ame­ri­canos” (22). Em­bora não sai­bamos ainda qual a in­ten­si­dade das “me­didas enér­gicas”, a dis­po­sição em pro­vocar a po­lí­tica de “Uma China” ou de­sa­fiar os me­xi­canos com a cons­trução do muro, por mais hi­pó­crita que seja, sig­ni­fica uma in­tenção em se mo­vi­mentar em di­reção à guerra co­mer­cial.

Em termos ge­o­po­lí­ticos, a re­gião que con­centra atu­al­mente o maior vo­lume de ten­sões entre os grandes po­deres im­pe­ri­a­listas é o Mar da China me­ri­di­onal, local de pas­sagem de “mais da me­tade da carga mer­cantil anual do mundo” e fun­da­mental para as ex­por­ta­ções chi­nesas (23).

Como lembra Alex Cal­li­nicos, “as rotas ma­rí­timas das quais de­pende a po­sição da China como a maior eco­nomia in­dus­trial e ex­por­ta­dora do mundo são pro­te­gidas pela ma­rinha es­ta­du­ni­dense, que tem do­mi­nado o Pa­cí­fico desde a der­rota do Japão em 1945. Tal si­tu­ação não é acei­tável para os go­ver­nantes da China, como in­di­cado pela ex­pansão ma­rinha do Exér­cito de Li­ber­tação Po­pular e pelos pe­sados in­ves­ti­mento em sis­tema bé­licos (por exemplo, uma frota de sub­ma­rinos que, em 2020, equi­parar-se-á à dos EUA e o míssil DF-21, que pode atingir alvos mó­veis no mar tal como porta-aviões), que podem negar aos na­vios de guerra ame­ri­canos acesso aos mares ao longo da costa chi­nesa” (24). Quando Rex Til­lerson disse, antes de ser no­meado Se­cre­tário de Es­tado, que iria blo­quear o acesso chinês às ilhas lo­ca­li­zadas no sul do Mar da China, a res­posta não ofi­cial de Pe­quim, através de jornal con­tro­lado pelo Par­tido Co­mu­nista, foi dura: os Es­tados Unidos as­su­mi­riam o risco de uma “guerra de grande es­cala” (25).

De­pois da con­versa te­lefô­nica entre Trump e o pre­si­dente chinês Xi Jin­ping em 10 de fe­ve­reiro, na qual a pro­vo­cação do ame­ri­cano em re­lação à po­lí­tica de “Uma China” foi des­feita, pa­rece ter fi­cado claro que as ame­aças vindas da Casa Branca soam mais como ins­tru­mentos de bar­ganha. É como se os Es­tados Unidos en­trassem “com o pé na porta”, como diz o di­tado po­pular, para, na sequência, na imi­nência de uma guerra co­mer­cial, firmar acordos van­ta­josos para as cor­po­ra­ções es­ta­du­ni­denses.

O eco­no­mista Stephen Roach, ex-di­ri­gente do Morgan Stanley, alerta que “guerras co­mer­ciais são raras. Mas, como con­flitos mi­li­tares, elas ge­ral­mente co­meçam com dis­cus­sões ou de­sen­ten­di­mentos aci­den­tais. Mais de 85 anos atrás, o se­nador Reed Smoot e o de­pu­tado Willis Ha­wley deram o pri­meiro tiro pa­tro­ci­nando a Lei de Ta­rifas de 1930. Esta levou a uma ca­tas­tró­fica guerra co­mer­cial global” (26). Em­bora não tenha sido a Lei Smoot-Ha­wley a causa da grande de­pressão dos anos 1930, como pa­rece acre­ditar Roach e boa parte dos ana­listas li­be­rais, a es­ca­lada pro­te­ci­o­nista ali­mentou e foi ali­men­tada por ten­sões in­ter­na­ci­o­nais. Na re­a­li­dade, a crise es­tru­tural de então exigia res­postas, uma das quais foi uma nova me­ta­mor­fose do im­pe­ri­a­lismo.

Em re­sumo, as crises dos anos 1930 e 1870 nos ajudam a vi­su­a­lizar o mo­mento atual como uma tran­sição entre fases do im­pe­ri­a­lismo, na qual os mo­vi­mentos de Trump são ne­ces­sá­rios para ace­lerar a emer­gência do que está por vir. Os ser­viços de in­te­li­gência da Casa Branca já avi­saram, em re­la­tó­rios pú­blicos, que o mundo mudou. O re­la­tório Global Trends: Pa­radox of Pro­gress, do Con­selho de In­te­li­gência Na­ci­onal dos Es­tados Unidos, pu­bli­cado em 9 de ja­neiro de 2017, é ex­plí­cito: “os pró­ximos cinco anos as­sis­tirão o acir­ra­mento das ten­sões dentro e entre países. O cres­ci­mento global irá di­mi­nuir, assim como irão crescer os com­plexos de­sa­fios glo­bais. (…) Para me­lhor e pior, o ce­nário global emer­gente está de­se­nhado para en­cerrar uma era de do­mínio ame­ri­cano que se se­guiu à Guerra Fria. Assim, também, talvez es­teja a ordem in­ter­na­ci­onal que emergiu após a Se­gunda Guerra Mun­dial. Será muito di­fícil co­o­perar in­ter­na­ci­o­nal­mente e go­vernar da ma­neira que o pú­blico es­pera” (27).

Com isso em mãos, apenas a in­ge­nui­dade po­deria atri­buir os mo­vi­mentos de Trump à “ig­no­rância”. O mundo ca­pi­ta­lista está des­man­te­lado e em pro­cesso de re­cons­trução por suas pró­prias ló­gicas in­ternas.

Fonte: Controvérsia. 

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