Travo de amargor

Publicado em: 19/09/2010 às 16:17
Travo de amargor


Por Urda Klueger.

Agora faz pouco mais de 13 meses desde que Atahualpa e eu viemos morar neste pequeno paraíso. Algumas coisas mudaram, desde então: nossa casinha, que era verde, foi pintada de branco e rosa; coloquei algumas grades e portões; plantei um minúsculo jardim com as plantas das quais o meu cachorro gosta, e que cresceu tão bem que já é tempo de reformá-lo. Além da flora, criou-se aqui uma fauna inesperada e que me enche de orgulho: são 11 as crianças que brincam, atualmente, na minha varanda, embora duas delas comecem a passar pelas mudanças de hormônios da préadolescência e já não brinquem tanto. Atahualpa ama cada uma daquelas crianças, e quando elas resolvem brincar de pet-shop, ele se deleita dentre elas, sendo penteado e acarinhado, e brincando de correr atrás dos seus bichos de pelúcia.

Quando elas se forem, aquelas crianças que abandonam as bonecas para começar a pensar em namorados, haverá por aqui a Aline, da casa da frente, uma menina que está perto de dois anos e que fala com sotaque baiano, a maior graça, e as outras SEIS!!! – que nasceram num espaço de apenas cinco meses nestas duas ruazinhas de dez casinhas de cada lado!  Todas são  meninas e há um parzinho de gêmeas – logo a Marcela, a mais velhinha de todas, chegará ao primeiro aniversário, e eu me lembro que ela nasceu a 30.11 – como agora já e setembro, penso que em mais duas primaveras essas menininhas todas, decerto capitaneadas pela Aline, estarão correndo pelas ruazinhas acima e abaixo, e virão brincar no parquinho que é do lado da minha casa, e decerto também na minha varada!

São tempos idílicos da minha vida, tempos tão bons que não queria que terminassem nunca, embora saiba que tenho um limite para viver aqui: em algo como vinte anos terei que sair daqui, ou tangida pela Louca da Foice, ou para envelhecer com serenidade em uma casa de repouso.

Por ora, no entanto, não quereria que nada se alterasse muito, a não ser que o ciclo da vida continuasse acontecendo, como este de meninas que chegam e que se vão, tão linda é a harmonia deste lugar, tão linda é a paisagem, tão inebriante o olor de vida das tantas plantas que se esforçam na reprodução, nestas dias de ânsia de primavera, quando minha casinha e toda a região ficam plenas de cheiro de flor.

O sinal dos tempos acaba de aparecer aqui pertinho, no entanto. É onde havia um terreno baldio, uma pequenina fábrica abandonada e a casinha de um homem. Doutos engenheiros entenderam o valor deste lugar único, e decidiram que era tempo de construir dois grandes edifícios, muito perto daqui.

– É para gente de classe média alta – confidenciou-me uma vizinha bem informada, impando de orgulho. Céus, se ela soubesse quantas baixarias acontecem na classe média alta, como em qualquer outra – já vivi em ambientes de tal fauna, sei bem as humilhações que se pode sofrer nas unhas da tal classe média alta, principalmente quando se valoriza pouco coisas como unhas bem pintadas, por exemplo.

Mas o que me incomoda mais, neste momento, não é isto. O que me incomoda serão as torres subindo na paisagem, cortando a beleza distante dos nossos morros e o nosso vale com as noites cheias de perfume, e as coisa estão acontecendo com uma rapidez impressionante. Há uma semana atrás tudo ainda estava como era – de um dia para o outro veio um trator e arrasou com tudo: o terreno baldio, a pequena fábrica abandonada, a casinha do homem – um impressionante e grande homogêneo terreno vazio nasceu  em apenas um dia, e agora fazem uma cerca.

Antes que a cerca seja concluída, tenho andado por lá com Atahualpa, e é então que o meu coração dói mais que tudo: no lugar onde havia a casinha do homem, ficaram dois cachorros. Eu própria não sei mais dizer exatamente onde era a casinha, mas os cachorros sabem exatamente o lugar do seu antigo lar, e lá estão cuidando dele.  Passamos lá, eu e Atahualpa, e eles vêem e nos farejam, e depois voltam para um lar que agora é apenas imaginário, e de lá não arredam pé. Meu coração fica partido quando os vejo ali, naquele lugar sem mais nenhuma esperança. Onde comem, onde bebem? Há um poluído ribeiro próximo, será que…? Mas quanto resistirão? Até vir a próxima chuva, ou o próximo trator?

O amor e a fidelidade nos seus pequenos corações caninos têm seus dias contados. Onde está aquele dono que não os levou junto? Não sabia que ali já não haveria futuro para eles além da chuva e das pedradas? Por que não considerou aquela fidelidade de toda a sua vida?

É duro, é triste. Este perfume de primavera, neste ano, está com o maior travo de amargor.

Blumenau, 05 de setembro de 2010.

Deixe uma resposta