Toque de Midas e orelhas de burro

Midas

Por Paulo Sanda.

“Mitos são verdades psicológicas, só os tolos os tomam por mentiras” (Luiz Felipe Pondé)

Midas é uma figura da mitologia grega com duas características interessantes: o toque dele transformava qualquer coisa em ouro e possuía orelhas de burro. Ele espelha bem a nossa situação, embora não com as duas características ao mesmo tempo.

Vamos primeiro ao conto.

Certo dia, alguns camponeses trouxeram para Midas, que era o rei da Frígia, um velho bêbado.

Midas logo o reconheceu. Era Sileno, mestre de Dionísio (Baco), deus das vinhas e do vinho. Midas fez uma grande festa em homenagem a Dionísio e lhe entregou Sileno.

Dionísio, muito feliz por rever seu mestre e com a bela festa, disse a Midas que lhe concederia a realização de qualquer pedido que fizesse. Midas, ganancioso e nada reflexivo, não pensou duas vezes. Pediu a Baco que tudo que suas mãos tocassem fosse transformado em ouro. Dionísio não ficou muito feliz com o pedido, mas como havia já havia prometido, cumpriu o desejo de Midas.

Midas começou então a tocar as coisas ao seu redor e tudo ia se transformando em ouro. O banco no qual estava sentado, a grama, as estátuas, as árvores. Ele pensou que com isto seria o mais rico e poderoso de todos os reis.

Contudo, ao voltar-se para a mesa do banquete, sentiu fome depois de ter transformado centenas de coisas. Midas pegou uma coxa de um assado e quase quebrou seus dentes, pois ela também havia se transformado em ouro. Também o vinho de sua taça se transformou em ouro em pó ao seu toque, assim como tudo o mais que ele tentava comer ou beber.

Transtornado, Midas chorou. E sua filha ao ver o pai triste correu para lhe consolar. Mas ao tocá-la, ela se transforma em uma estátua de ouro. Desesperado, Midas pede a Dionísio que desfaça tudo.

Dionísio lhe diz para se lavar no rio Pactolo. Feito isto, tudo que ele havia transformado em ouro voltou ao seu estado normal.

Midas, horrorizado com o que sua ganância havia feito, abandonou o palácio e seus tesouros e foi viver no bosque, onde se tornou amigo de Pã, um fauno que tocava uma pequena flauta.

Um dia, Pã desafia Apolo, para ver qual deles fazia a melhor música: Apolo com sua harmoniosa lira ou ele com sua flautinha? A vitória foi de Apolo, mas Midas amigo de Pã se indignou, pois achava que a flautinha havia sido melhor. Apolo furioso deu a Midas orelhas de burro para combinar com sua “sabedoria” musical. Para que ninguém descobrisse isto, o rei Midas passou a usar um turbante. Somente o seu barbeiro sabia. Mas Midas o ameaçava, “se disser isto a alguém, você morre!”. O barbeiro, desesperado pela vontade de contar a situação hilária, abriu um buraco na terra e gritou:

– O Rei Midas tem orelhas de burro.

Então tampou rapidamente o buraco para que o som não saísse. Tempos mais tarde naquele terreno cresceu o junco, e sempre que o vento passava por ele podia-se ouvir:

“O rei Midas tem orelhas de burro!”.

Os mitos são muito interessantes. A intenção deles não é contar um fato jornalístico, por exemplo. A intenção dos mitos, uma vez contados, e a de traduzir conceitos, verdades em sua própria época.

Na época em que este mito foi elaborado, se falava da harmonia universal, e do perigo de se quebrá-la. Zeus havia colocado ordem no cosmo e qualquer ato que fosse contra isto provocaria sérios danos. Proponho, porém, uma releitura para nossos tempos.

Pensando sobre esta história, cheguei a conclusão que nós temos tanto o toque de Midas como suas orelhas de burro (que me desculpe o animal!).

Conforme nos mostrou o professor José Eustáquio Diniz em seu artigo “A redução do crescimento econômico global rumo ao estado estacionário”, nós conseguimos o toque de Midas.

Se antes o crescimento econômico era pequeno, após a revolução industrial e o domínio do homem sobre diversas fontes energéticas abundantes, ele se tornou cada vez maior. E chega a seu ápice no século XX. Os números vocês podem ver no artigo do professor, que aliás, recomendo fortemente que o façam! Pois bem! O professor Diniz também nos fala que este grandioso crescimento só foi possível graças à abundância de recursos naturais (energéticos e matéria-prima), acompanhado do crescimento demográfico e cultural. Estávamos, digamos assim, como Midas após receber o toque de ouro, transformando tudo ao nosso redor em Capital: carvão, petróleo, minérios, florestas, rios, mares, etc. Mas estes recursos outrora abundantes, agora estão ficando escassos. E estamos para descobrir, inclusive, que, sem eles, o capital construído simplesmente não vale nada. Mesmo que resolvêssemos queimar o dinheiro para gerar energia, ele não vai servir tão bem como o carvão e o petróleo. Aliás, para ter o capital transformado em cédulas para poder queimar é preciso celulose que é extraída da madeira.

Não será também possível beber um copo de moedas, para matar a sede é preciso água. Sabe aquela dos rios e mananciais que foram poluídos ou destruídos em nome do desenvolvimento?

Alimento então que dirá? Tente comer seu cartão de débito ou crédito. Ou uma salada de títulos de ações do mercado financeiro ou commodities, quem sabe!

Bem, fica assim provado que temos o toque de Midas? E as orelhas de burro? Você ainda pergunta?

Paulo Sanda, Teólogo, palestrante, associado da ONG RUAH, é um dos coordenadores do Portal Palavra Aberta.

Fonte: EcoDebate

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