Tempo… perverso tempo

Por Guigo Ribeiro, para Desacato.info.

Passou rápido, não? Num instante! Agora me dando conta, são memórias, formas do que acho que foi. Fotos de minha cabeça que, por um acaso, resolvi passar um pano úmido. E enquanto limpava, via crianças correndo de um lado para o outro em risos sem compromisso com o depois. O gosto do bolo da tarde e café com leite. O céu me convidando para ver o mundo. A felicidade futura no cargo ou lugar que desejava. A casa na praia. O sonho da eternidade num anel e envelhecer cercado pela continuação minha. Foi quando, dentre tantas fotos, uma me pegou mais forte! Vi aquela festa, a reunião de tantas pessoas que correram para pousar na foto e voltaram rápido para seus voos. Hoje estão em voos tão diferentes. Alguns até em outro plano, rota. Eu estava ali também. Com os caminhos que pretendia seguir. Com a coragem de quem quer comer duas vezes. Talvez três. Me veio um aperto grande ao constatar que me deixei. Que não peguei mais forte nas mãos do que me impulsionava.

Não sei bem explicar quando ou como foi, mas sei que foi e é difícil me deparar com isso. Meu corpo não tem a mesma fome de outrora. Ele come sempre no mesmo lugar. Normalmente numa poltrona. Meu corpo tem medo e de tanto medo, resolveu ficar no lugar onde se reconhecia como seguro. Tanta coisa foi passando. Só o medo que não. O medo da solidão ao tomar coragem para o adeus. O medo do julgamento, do fracasso, o medo de aceitar que não deu e buscar em outro lugar para tentar de novo. O medo de colocar novas cores na parede. De arrumar a sala de outro jeito. O medo de experimentar a coragem de não ser mais o que se é.

É difícil. Existe algum retorno pra caminho sem volta? O tempo foi passando e cada vez mais me deixando longe do que quis. E passando este pano nestas fotos me veio a vontade de antes junto à certeza de não ser possível. Como ousam dizer que nada é impossível? Tem coisa que quando a gente não faz no tempo certo, perde e ponto. É o quadro que me deparo agora. Andei pela exposição inteira sem grande interesse e este resolveu me acertar. A imagem de eu me deixando escorrer pelo canto de uma rua e indo sem direção para um lugar qualquer. Para ser esquecido. Eu me esqueci! E preciso dizer que existem outras fotos que me recuso a ver. Eu sei exatamente o que elas trazem. Eu sei o que elas podem me fazer gritar. Pessoas. Pessoas que passaram, mas ao mesmo tempo ficaram. Partidas que me mudaram de tal modo que nunca mais consegui caminhar do mesmo jeito. A lembrança que ficou e foi mais um bloco no muro que fui construindo ao meu redor. Dizem que quando alguém morre, leva um pouco da gente também. Isso é verdade. As partidas levaram minha fome, meus passos. Nunca consegui me separar das pessoas. Apesar de entender que estão em outro plano, nunca as deixei e elas nunca me deixaram. Por muitas, ainda choro quase sempre numa certeza de fato não superado. Choro como no momento em que recebi as ligações. Isso também me fez ficar mais em mim e no meu mundo, em minhas certezas. A dor me fez ser assim. Qualquer coisa.

Será que as pessoas pensam sobre isso? Sobre o caminho que estão indo e se de fato os escolheram? Gostaria de saber se a sensação é só minha ou há outras pessoas que partilham da mesma dor. Queria que os jovens pensassem sobre isso e que não caíssem nesse lugar que me encontro. Tudo isso pela foto que fui inventar de passar um pano! Talvez devesse deixar lá mesmo, sujo e guardado. Sem possibilidade de acesso. Sem contato. Deixar essas coisas em seus cantos me faz sofrer menos. Mesmo que sofra. Por que fui pegar a foto? Vai saber. Quando penso no ato de ter pego essa foto, me vem uma certeza: queria muito voltar no tempo. Só não sei se para aquele instante ou para tomar a decisão de não ter pego.

 

Guigo RibeiroGuigo Ribeiro é ator, músico e escritor.

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