Solidariedade estilo euro

Por Yanis Varoufakis.

Empréstimos finlandeses, compras de títulos pelo BCE, o duro amor do EFSF e variadas histórias de horror da Euro-casa Correcional pós-moderna

O mundo parece convencido de que a Europa, talvez sob coação, constituiu um grande Fundo de Solidariedade (o EFSF) com o objetivo de ajudar os estados-membros da Eurozona aflitos em termos fiscais a evitar a bancarrota uma vez que foram excluídos dos mercados monetários. As críticas verificadas quanto a este tipo de “solidariedade” centraram-se em duas questões: Primeiro, que a dimensão do Fundo não era suficientemente grande (e portanto era incapaz de ajudar a Itália e a Espanha). Segundo, que este Fundo assemelha-se mais a uma Casa Correcional Vitoriana (Victorian Workhouse) cuja finalidade real não era mostrar solidariedade para com os seus residentes e sim, ao contrário, tornar a sua vida tão desagradável ao ponto de dissuadir os trabalhadores fisicamente aptos de procurarem a sua assistência.

A primeira crítica, acerca da dimensão do EFSF-MEE, é verdadeira mas irrelevante. Como tenho argumentado desde o primeiro dia da criação do EFSF, o seu problema não é a sua dimensão mas a sua estrutura semelhante ao CDO . Quanto à segunda crítica, de que se assemelha a uma Casa Correcional do tempo de Charles Dickens, a atual situação da Espanha é instrutiva. Para obter dinheiro para dar aos seus bancos decrépitos, o país deve ser humilhado e submetido a novo afogamento fiscal a fim de que a Itália e outros sejam dissuadidos de se voltarem para a ajuda do EFSF. Neste sentido, quando funcionários da Europa dizem que não há necessidade de nova ação sobre a Espanha uma vez que o EFSF está disponível para ajudar, eles estão a convidar os espanhóis a entrarem na Casa Correcional para uma vida de miséria não merecida em prol dos seus banqueiros. E eles têm a audácia de chamar a isto “solidariedade” com o povo espanhol.

Mesmo assim, muitos comentadores estão preparados para dar aos líderes da Europa o benefício da dúvida. Pensam da Casa Correcional EFSF tal como os vitorianos pensavam: é melhor do que a alternativa de serem deixados na rua para morrer; um lugar onde é praticado o “duro amor vitorianos” a fim de refrescar a ética puritana da Europa. Bem, se isso é assim, convido aqueles que gostariam de pensar deste modo a considerarem os seguintes dois exemplos tendo em vista determinar se eles são mesmo consistentes com esta visão vitoriana de “solidariedade”.

“Solidariedade”, Manifestação A: Impor mais empréstimos sobre a bancarrota

Como escrevi recentemente em artigo no Le Monde , o estado grego em bancarrota foi forçado pela troika a tomar emprestado 4,2 mil milhões do EFSF a fim de transferi-los imediatamente para o Banco Central Europeu (BCE) para resgatar os títulos governamentais gregos que o BCE havia comprado anteriormente numa tentativa fracassada de sustentar o seu preço. Este novo empréstimo promoveu substancialmente a dívida da Grécia mas o BCE recolheu um lucro em torno de 840 milhões (graças ao desconto de 20% com que o BCE havia comprado estes títulos). Será isto “solidariedade com os caídos”, mesmo de um tipo Casa Correcional Vitoriana?

“Solidariedade”, Manifestação B: Tomar dinheiro da bancarrota para investir em países prósperos

Quando foi acordado o 2º “salvamento” grego, pode-se recordar que o governo finlandês pediu garantias, como colateral, que reduziriam sua exposição à Grécia. O governo grego concedeu-as, prometendo um colateral no valor de 925 milhões. Alguém poderia ser esperado que o dito colateral fosse constituído na forma de ativos (exemplo: imóveis possuídos pelo governo grego). Mas não! Helsinque não queria nada disso. Eles exigiram, ao contrário, cash! E eles receberam cash. No mês passado, em Maio de 2012, Atenas transferiu €311 milhões para o governo de Helsínquia , como primeira prestação. As minhas fontes aqui nos Estados Unidos contam-me que agora o governo finlandês procura investir este dinheiro em joint ventures com os EUA e outras firmas europeias. É isso a que chamo solidariedade com a Grécia…

Para concluir numa triste e desesperada nota, gostaria de apelar aos governos da Europa do Norte para cessarem e desistirem de mais ofertas de “solidariedade” aos nossos países fiscalmente aflitos e em rápido empobrecimento. A sua “solidariedade”, o seu “duro amor” está a matar nossos orgulhosos países e, neste processo, a destruir o tecido moral, político e económico da Europa.

Fonte: http://resistir.info

1 COMENTÁRIO

  1. Parabéns Yanis, escreveu um artigo excelente.

    É exatamente isso que está acontecendo. Embora haja mais facetas nessa equação, que aqui não vêm ao caso.

    Fazendo um esforço para ser isento, há apenas algumas situações que me merecem ser aclaradas.
    Na verdade, o único país a ser completamente afastado dos mercados foi a Grécia. Os juros chegaram aos 100%. Concomitantemente, essa situação também se justificou pelo enorme conjunto de medidas a implementar a fim de concretizar o que em economia se apelida de correção técnica interna. Ou seja, os mercados verificaram que a Grécia não iria de forma alguma cumprir, não porque fosse um povo preguiçoso, mas porque simplesmente não era possível. Como sabe, essa correção técnica interna faz-se através da diminuição do rendimento disponível, o que de forma brusca permite reduzir o consumo.
    Aqui entre nós, e traduzindo de forma simples, isto quer apenas dizer, empobrecer as pessoas de tal forma que estas não consigam comprar nada para além do essencial à sua sobrevivência…
    E é esta questão que é gravíssima. Quando se sabe que essas medidas vão diminuir claramente a percentagem da população que pode pertencer à classe média, provocando um fosso enorme entre ricos e pobres. E que para além disso, impedem todo o crescimento económico, pois não só não se produz liquidez adicional para promover o investimento, como ainda essa liquidez não está disponível nos bancos que não têm emprestado como outrora o faziam.
    A situação da Islândia, de Portugal e da Irlanda é bem diferente da Grécia. Ainda que já seja suficientemente humilhante para os seus povos. Nestes países, como o Yanis também sabe, com juros acima dos 6%, tornou-se incomportável recorrer continuamente aos mercados para fazer face a todos os compromissos. Mas não estão falidos. Longe disso. Estes países continuam a ir ao mercado, e, neste momento, já têm juros de curto prazo apenas um pouco acima dos 4%, com clara tendência para diminuírem, pelo menos para uma percentagem em torno dos 2,5 ou 3%.
    Resumindo. A Islândia, a Irlanda e Portugal vão safar-se desta crise. Com muito sofrimento, pagando juros agiotas a falsos parceiros solidários, como o Yanis disse e bem, mas daqui a um ano e meio terão saído do olho do furacão.
    E a sua situação só pode melhorar. É que com os problemas em Inglaterra, escondidos desde o início, apesar do deficit apontar inicialmente o ano passado para os 34%, e com a sombra negra das dívidas colossais da Itália e da Espanha (esta por causa de uma bolha imobiliária sem paralelo nos outros países, onde permitiram vender casas às pessoas a 3 vezes mais o valor das mesmas), a Europa será obrigada a ligar as rotativas das notas de euro, como se faz nos Estados Unidos e bem, e a assumir uma posição política diferente do que os Lobbies financeiros têm obrigado os seus testas de ferro nos governos a assumir. .. Adicionalmente, a situação também melhorará pois Angel Merkel perderá as eleições, como todos os líderes associados à crise têm perdido, de esquerda e de direita, e ainda bem. (Isto é, ainda bem que França virou à esquerda, vai ser a sorte da Europa, mas ainda bem que, por exemplo, Portugal virou à direita, vai ser a nossa sorte – não por causa da política e da ideologia, mas porque isso tem permitido em todos os países onde já houve a alternância política, realizar um corte com o paradigma anterior, de desperdício e não prestação de contas à população). E, assim sendo, eu prevejo que a situação global europeia a médio prazo (2-5 anos) estará completamente resolvida e que a saúde das contas públicas europeias permitirá uma reposição de alguns níveis de solidariedade social oficial interna, a retoma para um crescimento económico mais saudável e a tão desejada criação de novos empregos.
    Um abraço Yanis.
    (Contacte-me sempre que desejar para o meu email)

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