Sobre golpes e sangue na América Latina. Por Fernando Calheiros


Arte Fernando Calheiros

Por Fernando Calheiros, para Desacato. info.

A América Latina sangra. Longe de ser espontânea, essa sangria secular intensificada na fase neoliberal do capitalismo tornou inconciliáveis as contradições históricas, instaurando um novo período de golpes de Estado nos países latino-americanos. Trata-se de uma grave hemorragia que não se deixa mais estancar, ao contrário, quanto mais empenho em tentar suturá-la, mais ela jorra e se alastra, inundando todo o continente.

Rompendo tratados, traindo os ritos..

Diferentemente dos golpes de Estado executados nos países latino-americanos durante o século XX, com ditaduras dotadas de forte aparato bélico e militar, o que temos agora é uma nova forma a qual se convencionou chamar de “golpe branco”. Esse novo tipo de golpe opera basicamente a partir do controle e manipulação da informação pela grande imprensa conservadora, passando por uma politização do judiciário em articulação com os setores econômicos hegemônicos e grupos políticos de oposição.

Iniciada no ano de 2009 em Honduras, país com um largo histórico de golpes e de submissão aos interesses imperialistas, essa nova forma de golpe será orquestrada pelas forças de oposição com forte amparo do exército nacional, processo que irá depor o então presidente eleito democraticamente Manuel Zelaya. Dividido internamente entre simpatizantes e apoiadores do presidente deposto, os confrontos foram marcados por violência e mortes. Mesmo diante de fortes pressões diplomáticas solicitando a volta de Zelaya o golpe se consolidou, gerando uma forte crise política e econômica em Honduras que persiste até hoje.

Em junho de 2012 essa nova forma de golpe chega ao Paraguai. Articulado logo depois da posse do progressista Fernando Lugo, a investida golpista ganha impulso a partir do massacre ocorrido no assentamento sem terra Marina Kue, alvo de um processo violento de reintegração de posse que acabou vitimando 11 camponeses. Acusado de “incapacidade administrativa”, em menos de uma semana o golpe é consumado por meio de um julgamento político armado para depor Lugo. Várias manifestações de resistência explodem por todo o país, sendo violentamente repreendidas pelas forças armadas paraguaias.

Em 2016 será a vez do Brasil sofrer o “golpe branco”. Numa conjuntura que tem início nas jornadas de junho de 2013, passando pelas acirradas eleições de 2014, o golpe jurídico-parlamentar deflagrado em abril de 2016 rasga o pacto social estabelecido pela Constituição de 1988, violando a soberania popular ao destituir a presidenta eleita Dilma Rousseff, acusada de cometer irregularidades contábeis, as famosas “pedaladas fiscais”, uma prática comum em todos os governos anteriores. Contando com forte apelo e manipulação da grande imprensa junto a setores do judiciário, criam-se as condições propícias para a instauração do golpe de Estado e sua posterior consolidação a partir da prisão política do ex-presidente Lula.

A bola da vez agora em 2019 é a Bolívia. Marcado por forte inclinação fundamentalista religiosa, o golpe com traços nitidamente racistas, gestado pela velha oligarquia branca contou com o núcleo das forças armadas bolivianas e o apoio da Organização dos Estados Americanos (OEA), essa última que, ao levantar suspeita de fraude nas últimas eleições presidenciais assume o papel de legitimadora do golpe de Estado. Sem o apoio das forças armadas, Evo Morales, no cargo desde 2006, acaba renunciando sob justificativa de evitar um banho de sangue no país, esse que atualmente vem sendo palco de fortes confrontos entre os bolivianos contrários ao golpe e os grupos que o apoiam.

É bom lembrar que esse novo período de golpes de Estado começa a ser ensaiado ainda em 2002 na Venezuela, a partir de uma tentativa frustrada realizada pelas forças conservadoras de oposição ao então governo de Hugo Chávez. Agora em 2019, mais uma tentativa de golpe sem sucesso é articulada por Juan Guaidó, principal figura de oposição ao atual governo de Nicolás Maduro, sucessor de Cháves.

Apesar de tais processos trazerem particularidades específicas de cada país, eles acabam apresentando semelhanças no que diz respeito à condição enquanto países de capitalismo dependente, fator intimamente ligado ao tipo de dominação sob a qual ocorreram as próprias formações sociais. Trata-se de uma questão importante que contribui para analisarmos a instauração desse novo período de golpes a partir da perspectiva de ofensiva do capital sobre o trabalho, buscando instituir novas formas de dominação e exploração dos povos latino-americanos. Ao que tudo indica, agora sem mais mediações ou concessões, tendo como principal objetivo a formação de uma nova hegemonia.

Um grito, um desabafo..

Se por um lado temos os golpes de Estado como uma reação das oligarquias latino-americana à crise da ordem burguesa, por outro, as recentes revoltas e levantes populares no Chile, Equador, Haiti e Bolívia insurgem na conjuntura apresentando-se como uma forma de reação e resistência não só às colapsadas democracias liberais, como também às investidas autoritárias articuladas pelas elites golpistas.

Como não há vácuo na política, os projetos neoliberais radicais que se apresentavam como solução da já colapsada forma burguesa – a exemplo dos governos de Mauricio Macri na Argentina e de Sebastián Piñera no Chile – estão sendo fortemente contestados e rejeitados tanto nas ruas quanto nas urnas. No Uruguai segue acirrada a disputa eleitoral no segundo turno entre a frente ampla de esquerda e a oposição conservadora, enquanto no Chile explode rebeliões e greves por todos os cantos do país.

Trata-se, no entanto, do grito dos explorados contra o acúmulo histórico de opressão e pilhagem que, somados as consequências deletérias desencadeadas pela implantação das agendas neoliberais por todo o continente, tornaram cada vez mais insustentáveis as condições de reprodução da classe trabalhadora nos países de capitalismo dependente.

Cansados de falsas promessas, assim como das diversas formas de opressão e violência institucional, com os canais tradicionais de representação de classe incapazes de promoverem a luta contra o capital, as trabalhadoras e os trabalhadores latino-americanos tomam as ruas num enfrentamento direto contra a exploração capitalista que os oprime.

Meu sangue latino, minha alma cativa…

Nessa conjuntura, o fato que se apresenta como uma imposição aos setores anticapitalistas é o da construção de um projeto contra-hegemônico dotado de uma proposta radical de ruptura com o agonizante e moribundo modelo de democracia liberal. Nesse quesito, há de se aprender com os limites e fragilidades dos projetos de conciliação que buscaram a partir de tímidos avanços suturar a sangria, mostrando de forma prática sua incapacidade de realizar a emancipação dos povos e a transformação social necessária.

Enquanto o novo não surge, os golpes de Estado seguirão sangrando as jovens e frágeis democracias latino-americanas, essas que mesmo com suas frágeis e limitantes constituições e seus parcos direitos se tornaram um estorvo para o capital. Continuarão a sangrar copiosamente não só as riquezas naturais e os direitos sociais, mas os próprios trabalhadores com a forte repressão e violência de Estado, que em apenas um mês já vitimou mais de uma centena de manifestantes no Chile, Equador, Haiti e Bolívia.

Diante de tão sombria e nefasta conjuntura, é importante não se deixar perder a esperança na construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Isso significa, a exemplo dos povos latinos em luta, não se afastar da utopia por outro modelo de sociedade, acreditando sempre na possibilidade de solidariedade e união entre todos os povos de nossa pátria grande. A luta de classes enquanto motor da história, indiferente a sua negação e à crítica roedora dos ratos, persiste. Resta-nos caminhar adiante, resistindo firme aos tempos de golpes e sangue na América Latina. Pois apesar de tudo, como nos ensina a canção, o que importa é não estar vencido.

Fernando Calheiros é cientista social e professor da rede pública. Atualmente cursa mestrado no Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Santa Catarina.

 

 

A opinião do/a autor/a não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.

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