Sobre a alienação em saúde

Engarrafamentos são motivo de estrês. Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

Por Douglas Kovaleski, para Desacato.info.

Antes de tratar da alienação no caso da saúde passo a tratar da categoria alienação a partir da teoria marxista. De maneira breve, a alienação significa perda do controle. Um poder externo ao sujeito* e fortemente destrutivo. Marx trazia nos Manuscritos Econômico-filosóficos, de 1844, aspectos gerais da alienação: a alienação em relação à natureza, em relação a sua própria atividade produtiva, em relação à espécie humana e em relação às outras pessoas. Mas o que mais chama atenção, na obra de Marx, é a profunda inflexão teórica com a autoalienação decorrente da centralidade do trabalho (assalariado).

Trata-se de uma separação total e completa e no nível da consciência do trabalhador entre sua ação e a intencionalidade da condução da vida. Pois a vida passa a ser orientada de forma geral e totalizante sob a égide do capital. Nesse contexto, a vida de cada trabalhador é orientada por outrem, ou melhor, por um modo de produção que toma as rédeas da vida humana, desde a economia, política, na vida conjugal e em cada espaço dessa sociedade. Não defendo, contudo, que todas as relações sociais sejam capitalistas, há relações não capitalistas, mesmo que sejam difíceis de serem encontradas e ainda assim são influenciadas pelo capitalismo. Entretanto esse tema será tratado adiante, pois demanda um grande esforço teórico.

Partindo da alienação, passo a desenvolver uma sequência de textos para a discussão da alienação e sua interface com o campo da saúde. O primeiro aspecto trata a alienação do homem com o meio ambiente. Essa forma de alienação afasta o homem da natureza e então ele se afasta da mesma. A imensa maioria das pessoas não planta para seu consumo, não capina a terra e desconhece os ciclos de vida das plantas e dos animais. Uma pequena parcela tenta negar essa alienação e se relaciona com a natureza como o sagrado, uma nova espécie de religião que cultua e contempla a natureza, mas não planta seu próprio alimento, ou seja, mantem-se alienada, pois não vive a partir da natureza.

Esse estranhamento individual do homem com relação à natureza deve ser analisado com calma, no entanto, não deve ser analisado de maneira isolada, pois concretamente, o que afastou e continua afastando o homem da natureza é a produção nos moldes capitalistas. Esse modo de produção precisa de condições objetivas para se reproduzir. Para isso, precisa de força de trabalho em condições de trabalhar, portanto viva e alimentada.

A produção de alimentos em quantidades adequadas e a baixos custos passa a ser uma preocupação central para a burguesia. O componente qualidade do alimento perde importância na produção alimentar em grande escala e o agronegócio, baseado nos latifúndios, cumpre de forma brilhante os objetivos do capital, destruindo florestas, expulsando a população rural para as cidades e poluindo o meio ambiente. Meio ambiente que se desequilibra profundamente com a massiva concentração de pessoas em áreas urbanas, locais geralmente insalubres, pois concentram poluentes no ar, problemas habitacionais e de trânsito agudizados pela desigualdade de riqueza dos grupos sociais. Esta situação constitui-se de maneira diversa entre os países e nos múltiplos contextos sociais, a depender da intensidade da exploração capitalista e da correlação de forças entre burguesia e classe trabalhadora na luta por direitos sociais.

Assim, podemos compreender melhor e na radicalidade (por ir à raíz) que o tema necessita a condição de saúde das pessoas na atualidade. Quadros de hipertensão, diabetes e câncer que são as maiores causas de adoecimento e morte de maneira crônica são facilmente explicados pela alimentação e produção do alimento alienada. Soma-se a isso o estrês causado pelo trânsito e condições de superexploração dos trabalhadores que vivem em condições de insegurança, dificuldade para empregabilidade, renda insuficiente e medo com relação ao futuro. Sem falar nos acidentes de trânsito que ceifam vidas e produzem incapacidades e sofrimento humano.

Douglas Francisco Kovaleski é professor da Universidade Federal de Santa Catarina na área de Saúde Coletiva e militante dos movimentos sociais.

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