Sobre a alienação em saúde 2

Imagem: Reprodução via Veladimir Romano em viladeutopia.

Por Douglas Kovaleski, para Desacato.info.

Dando continuidade ao trabalho que visa uma aproximação da categoria marxiana alienação com o campo da saúde, no intuito de melhor compreender a realidade vivida pela classe trabalhadora, no texto dessa semana será abordado segundo aspecto da alienação: a alienação do homem em relação a sua própria atividade produtiva.

A alienação com relação ao trabalho é central nessa compreensão, pois o homem deixa de trabalhar para prover diretamente a sua existência, deixa de fazer a cadeira para ele próprio sentar, não faz mais o que veste, sua casa, ou o que ele come, da mesma forma que vimos no texto anterior. Passa a produzir dentro de um novo contexto, onde ele trabalha para outrem e a partir desse trabalho recebe um salário. Esta atividade alienada não diz mais respeito aos gostos e habilidades deste trabalhador, mas passa a ser uma produção igual e para todos, onde produzirá cadeiras, roupas, alimentos, e aqui poderia citar todas as mercadorias, também padronizadas, para que pessoas, agora indiferenciadas consumam.

Essa produção e consumo em massa produzem um estranhamento do trabalhador com relação ao produto do seu trabalho, pois as atividades passam a ser meras repetições de movimentos, visando produtividade e qualidades mínimas para que o produto seja comercializado e concorra no mercado. O trabalhador não se percebe mais no seu produto, a obra não pode mais ser identificada com nenhum trabalhador específico.

Esse estranhamento traz consequências marcantes para a vida do trabalhador, pois a satisfação de trabalhar, de fazer algo útil e obter reconhecimento por esse trabalho desaparecem. Todo um esforço é trocado apenas por um salário, que proverá sua sobrevivência e de sua família. Isso numa hipótese otimista, pois o salário quase nunca provê dignamente as necessidades dos trabalhadores, sem contar no número de desempregados que nem salário têm e vivem em condições subumanas, muitas vezes como moradores de rua, o chamado lupem proletariado.

Falando em subumano, Marx trata nos Manuscritos econômico-filosóficos da desumanização causada pelo trabalho alienado. Esse processo, somado ao viés concorrencial e de competição inerentes ao capitalismo brutaliza e afasta o trabalhador de seus sentimentos de vínculo, afeto, solidariedade e retira a perspectiva de uma sociabilidade coletiva.

Com relação a esse aspecto se faz necessário observar o período de crise do capitalismo em que se vive. Momento marcado por uma redução drástica das taxas de juros, intensificação da concorrência entre as empresas e aumento da exploração da classe trabalhadora. Esta precisa trabalhar mais, ainda que em piores condições materiais de vida para não perder o emprego, mesmo assim a taxa de desemprego continua subindo e a concentração de riquezas toma proporções incompatíveis com a vida de uma imensa parcela da população.

A saúde da classe trabalhadora paga por isso, pois as formas de adoecimento correspondem ao sofrimento pessoal de cada trabalhador isolado em uma classe com dificuldades de se ver como classe (para a maioria dos trabalhadores) e, devido a isso, cada vez menos organizada e mais vulnerável diante dos avanços do capital.

Por isso é preciso ter clareza de que a prioridade para a classe trabalhadora é fazer muita formação política para, em primeiro lugar compreender a realidade e lutar na direção da libertação da classe trabalhadora.

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Douglas Francisco Kovaleski é professor da Universidade Federal de Santa Catarina na área de Saúde Coletiva e militante dos movimentos sociais.

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