Só Deus cura? Um novo capítulo da religião contra a ciência

O pretexto agora são as vacinas. Enquanto isso, doenças que pareciam sob controle, como o sarampo, proliferam em ritmo de epidemia medieval

Foto: Arek Socha / Pixabay

Por Nirlando Beirão.

As estatísticas são aterradoras: nos três primeiros meses de 2019, quadruplicaram os casos de sarampo em todo o mundo. O alerta é da Organização Mundial da Saúde (OMS). No ano anterior, o surto da moléstia – até então considerada sob controle, ao menos nos países mais abonados – já vinha dando sinais de virar epidemia, causando “muitas mortes, principalmente entre as crianças”.

Os números iniciais coletados até início de abril nos 170 países monitorados pela OMS citam 112.163 casos desta doença altamente infecciosa e potencialmente mortal. No mesmo período em 2018, 28.124 casos foram anotados.

Catalogado entre as “doenças da infância”, o perigo do sarampo chegou a ser declarado abolido nas Américas neste século, tendo o Brasil merecido da Organização Pan-Americana de Saúde um certificado de erradicação da moléstia – certificado que está sob ameaça desde 2016, quando ocorrências tópicas passaram a pipocar, primeiro no Ceará, depois em Roraima e no Amazonas, para o que a imigração de venezuelanos tem servido de perfeita desculpa. Extraoficialmente avalia-se que, por ano, os casos de sarampo no Brasil tenham chegado aos três dígitos.

A África Subsaariana, foco endêmico de todas as mazelas, está sendo bombardeada pela recente praga. De um ano para cá, as ocorrências de sarampo cresceram 700%. Mas, muito embora as condições de higiene determinem a maior ou menor facilidade de contágio, a atual irrupção em escala global mostrou que o mal não discrimina suas vítimas por país ou classe social. Países como a Geórgia e o Cazaquistão passaram a figurar, ao lado do Sudão e de Madagáscar, na lista negra do sarampo. E, no mês passado, o prefeito de Nova York, Bill de Blasio, declarou “estado de emergência sanitária” ao saber que, de um ano para outro, o número de pessoas infectadas numa única área da cidade, a comunidade de judeus ortodoxos do Brooklyn, passara de 2 para 285.

A epidemia chegou a países ricos. Em Nova York, o foco é a comunidade de judeus ortodoxos

Há o dedo de Deus, ou dos que falam em nome dele, na tragédia. Aferrados à leitura literal do Velho Testamento, os judeus hassídicos de Crown Height e arredores tendem a ser resistentes aos progressos da ciência médica mesmo diante de casos extremos de vida e morte. A intolerância obtusa condena não apenas as crianças da comunidade, mais vulneráveis ao sarampo, como também facilita a propagação do vírus insidioso para além das fronteiras do gueto.

É desumano, incompatível com o estágio civilizatório atual, que se sacrifiquem rebentos no altar de Abraão a fim de se satisfazer crendices obscurantistas e ideias perdidas na escuridão dos séculos. E o judaísmo ortodoxo, ou facções dele, está longe de ser um exemplo isolado. O catolicismo tem um longo prontuário no que diz respeito a confrontar quem desafia seus dogmas – embora a própria essência da ciência seja o cultivo permanente da dúvida, até que a verdade, depois de testada, seja comprovada.

Galileu Galilei teve de se esquivar da fogueira da Inquisição, quatro séculos atrás, fingindo não acreditar, como ele próprio demonstrara, nas pegadas do polonês Nicolau Copérnico, que a Terra era um mero planeta e não o centro do universo, como queria a cosmogonia cristã. Há gente no Brasil miliciano que ainda recusa o Sistema Solar. Outro baque no narcisismo religioso veio de Charles Darwin, no século XIX, ao observar que foram os acasos filogenéticos e as ocorrências mutantes que produziram o homem, nada a ver com o sujeito moldado em barro pelo Criador, “à sua imagem e semelhança”. Para as seitas que leem a Bíblia ao pé da letra, Darwin ainda hoje é impossível de engolir.

O anticientificismo e o anti-intelectualismo que vicejam entre os cultos evangélicos menos esclarecidos convertem-se, na prática, numa negação radical da Medicina. Se dá errado a cura, é culpa dos médicos; se dá certo, é pela graça divina. O seriado Sob Pressão, criado por Jorge Furtado e já com duas temporadas na Globo, é um admirável retrato do dia a dia de um hospital de subúrbio no qual as precariedades brutais são desafiadas pela abnegação teimosa da equipe. O ingrediente agravante são a superstição e a patetice dos familiares: os mórmons que recusam transfusões de sangue, os pentecostais que esperam pela manifestação do Espírito Santo, os adversários da vacinação obrigatória.

Em Sob Pressão, a abnegação da equipe do SUS não vale nada. Só Deus é quem cura

O Brasil tem tradição neste último quesito. Em novembro de 1904, inconformada com a obsessão higienista da jovem República, a população da capital prorrompeu num quebra-quebra que durou uma semana. O pretexto era a campanha de vacinação obrigatória contra a varíola comandada pelo médico sanitarista Oswaldo Cruz.Cartão postal de 1904 com cena da Revolta da Vacina: a jovem República higienista irritou o populacho do Rio com a vacinação por decreto

Um levante eminentemente popular. Nos Estados Unidos do século XXI, ao contrário, o movimento dos antivaxxers é midiático e se veste de glamour. Muitas das estrelas de Hollywood se tornaram militantes, em grande parte influenciadas pela Cientologia, um conjunto de crenças e práticas de autoajuda criado pelo Ron Hubbard em 1952. Encontrou solo fértil naquela Califórnia paz e amor que odeia os tratamentos clínicos tradicionais, defende o parto natural e desconfia de uma conspiração orwelliana do Estado contra o indivíduo. Muito da expansão da aids na populosa comunidade gay de San Francisco, no início da década de 1980, ocorreu por resistência à profilaxia proposta pelas autoridades sanitárias – como se o Estado nada tivesse a ver com a intimidade do cidadão.

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