Simpósio da Pós-Graduação em Literatura reflete o significado dos monstros na cultura ocidental

Rafael Sens fala sobre o livro “Heroes and Villains”, de Angela Carter. Foto: Ítalo Padilha/Agecom/UFSC

Androides, lobisomens, bruxas. Esses e outros monstros, que sempre rondaram o imaginário da cultura ocidental, são personagens difundidos na literatura e cinema. Como exemplo vale citar o filme “A Forma da Água“, vencedor do Oscar 2018, do diretor Guillhermo del Toro, onde uma criatura criada em laboratório é vista como um mal  que pode ser torturado e odiado, por ser diferente biologicamente. Nesse contexto da indústria cultural, tais seres foram protagonistas do “Simpósio de Monstruosidades — Estética e Política”, organizado pelo Programa de Pós-Graduação em Literatura da Universidade Federal de Santa Catarina (PPGLIT/UFSC), na última quinta-feira, 28 de junho. Ministrado pelos professores Marcio Markendorf e Daniel Serravalle de Sá, o evento ocorreu no auditório da Biblioteca Universitária, durante o dia inteiro, reunindo seis mesas temáticas, além de palestras de abertura e encerramento.

Com o objetivo de apresentar trabalhos acadêmicos que problematizam o monstro na cultura ocidental nas mais variadas manifestações e lugares institucionais, a ideia foi revelar como o monstro, percebido como o anormal, o freak, o queer, o outro e o diferente, torna-se elemento metafórico para a produção de preconceito, abjeção, marginalização e violência.

A mulher vista como monstro

A tarde começou com apresentação da mesa III: Monstruosidades femininas. Cíntia dos Santos, a primeira palestrante, divulgou relatos históricos de como a mulher era vista entre os séculos XV e XVII, quando houve o período de caça às bruxas e milhares de mulheres foram acusadas de feitiçaria e mortas na fogueira — ódio que iniciou na Idade Média, com o Cristianismo. Segundo Cíntia, as mulheres eram vistas como  “machos deficientes”, portadoras do demônio. Visão que, ainda possui reflexos nos dias atuais, por meio dos inúmeros casos de misoginia.

A segunda fala foi de Natália da Silva, que estudou a representação da sexualidade feminina como algo demoníaco, no filme “A Bruxa“, de 2015.  Ela analisou cenas do longa-metragem, indicando significados por trás das cenas, como  por exemplo, o contato da protagonista com um animal que representa o mal, que pode ser interpretado como início da vida sexual da personagem. Desta forma, os desejos femininos seriam vistos como algo abominável, digno de repressão e retaliação.

O último assunto da mesa foi o mito da Medusa na mitologia grega, criatura que pertence ao grupo das Górgonas — seres ferozes, de aspecto feminino e com grandes presas. A pesquisadora Luiza Mazzola abordou três interpretações sobre a construção da figura mitológica. Na primeira, Medusa teria seus cabelos transformados em cobras pela deusa Atena, após exibi-los para a divindade, que teria ficado com inveja. Outras duas versões teriam relação com um caso de estupro, ocorrido com a personagem. Assim, Medusa teria virado um monstro devido à violência sexual que sofreu, passando a se vingar de todos os homens que se aproximassem dela, transformando-os em pedra. Já a última explicação volta a ter relação com Atena, que como um ato de proteção, transformou Medusa em monstro para ela nunca mais ser violentada por um homem.

O  que nos torna humanos?

A quarta mesa do evento teve como tema “Humanos e não humanos”.  O palestrante Rafael Sens falou sobre o livro “Heroes and Villains“, da escritora Angela Carter, ficção pós-apocalíptica na qual o mundo é dividido em três castas: professores, soldados e trabalhadores. O pesquisador abordou a construção estética dos monstros da estória, seres que vivem exilados em buracos na areia e em ruínas de cidades antigas, devastadas por uma provável guerra nuclear. As criaturas, vistas como vilões, possuem corpos deformados, sendo essa a única característica que as classificam como o “mal”.

A segunda apresentação sobre o tema, conforme enfatizado pelo próprio palestrante, Lauro Henrique, não buscou trazer respostas, mas perguntas. Com um teor mais filosófico e existencialista, o assunto foi a obra “Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?“, do autor Philip K. Dick. A ficção, que inspirou o filme “Blade Runner“, também aborda um planeta futurista pós-apocalíptico, onde humanos e androides dividem cidades cinzentas e radioativas. Lauro levantou elementos narrativos da trama, refletindo sobre quais ações e características diferenciam os humanos dos androides, a fim de levantar as seguintes perguntas: “Já estamos virando androides?”; “O que é um monstro?”; “Para onde vamos?”.

Por fim, a mesa foi encerrada com outro debate sobre a fronteira entre humanos e robôs, mas desta vez através da série televisiva “Westworld“, do canal HBO. Elisa Ramos discutiu a relação entre as duas raças na obra, através de cenas da primeira e segunda temporada, refletindo sobre ações de determinados personagens.

Outras mesas

Mais tarde teve as mesas “Anomalias, abjeções e políticas” e “Estética musical e relações de poder”. Já na manhã, o evento iniciou com o tema “Monstruosidades Queer”, seguido de “Monstros e transgressões”.

Com cerca de 80 inscritos e auditório cheio, o simpósio trouxe à tona a reflexão: quais os significados dos demais monstros presentes em nossa cultura?

 

Alan Christian /estagiário de Jornalismo da Agecom/UFSC

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