Shopping de SC decide fechar exposição acusada de naturalizar a escravidão

Publicado em: 12/07/2017 às 11:22
Legenda foi retirada da exposição após críticas nas redes sociais (Foto: Reprodução/Facebook)

Segundo historiador, legenda em uma das peças expostas legitimava violência ao descrever escravo que se rebela como ‘infrator’; curador afirmou que objetivo da mostra era o oposto

O Shopping Continente, na cidade de São José, em Santa Cataria, informou que decidiu retirar de suas dependências a exposição “Negras Memórias”. A mostra, que exibia peças e documentos originais do período da escravidão no Brasil, foi acusada por historiadores de reproduzir o discurso escravista.

A crítica foi gerada especificamente por uma legenda explicativa fixada em um tronco usado para agredir escravos. O texto afirmava que o objeto era utilizado para castigar escravos rebeldes que haviam cometido delitos e que, ao contrário do senso comum, escravos não sofriam maus tratos cotidianamente.

“Foi um instrumento utilizado para castigar os escravos rebeldes que haviam cometido delitos ou tinham mau comportamento. Ao contrário do que o senso comum acredita, a maioria dos escravos não sofria maus tratos cotidianamente. Os instrumentos de punição, assim como esse tronco, eram usados em situações específicas. A responsabilidade pelos atos dos escravos eram (sic) dos seus donos, portanto, quando algum deles cometida (sic) um roubo, deveria ser punido e ir para o castigo. Assim, serviria de exemplo para outros escravos infratores”, dizia a legenda.

Uma imagem do texto, compartilhada nas redes sociais pelo professor Paulo Pinheiro Machado, do departamento de História da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), gerou reações negativas de diversos historiadores. Especialista em História do Brasil, com ênfase no período do Império e das primeiras décadas da República, Machado explica que a legenda da exposição reproduz o discurso escravista.

“Os problemas [do texto] são a naturalização da violência e a legitimação da escravidão. O escravo que foge ou se rebela é um ‘infrator’”, afirma o especialista.

Segundo o professor, além de referendar a ideia de que ser “desobediente” era uma infração, o texto também errou ao dizer que os escravos “não sofriam maus tratos cotidianamente”.

“A escravidão é um conjunto de maus tratos, da captura até o trabalho”, destaca.

A exposição foi organizada pelo Instituto Cultural Soto, sob curadoria de Jules Soto, coordenador do Museu Oceanográfico Univali (Universidade do Vale do Itajaí). Procurado pelo Painel Acadêmico, o pesquisador rebateu as críticas, disse que a legenda foi retirada de contexto e afirmou que o objetivo da mostra não era reproduzir o discurso escravista.

“Falar que a exposição faz apologia à escravidão é nada menos que absurdo. O objetivo era justamente o contrário”, afirmou Soto. De acordo com ele, a intenção da exposição era mostrar peças originais do período, ainda recente em nossa história, para gerar reflexão.

Apesar disso, o curador afirmou que a legenda foi retirada da mostra e submetida para avaliação logo depois de ser exposta e criticada nas redes sociais. Na entrevista, concedida no início da tarde de ontem, Soto já considerava a possibilidade, confirmada pelo Shopping Continente horas mais tarde, da mostra ser desmontada antes da data prevista para seu término (31/7).

A exposição, que contava com documentos e peças originais do período, como uma coleira de ferro e uma palmatória, estava em exibição no Shopping Continente desde 26 de junho e foi anunciada como uma parceria entre o Instituto Cultural Soto e a Univali.

Após contato da reportagem de Painel Acadêmico, a Univali afirmou que é parceira de longa data do Instituto Cultural Soto em outras parcerias bem-sucedidas, como o Museu Oceanográfico, mas declarou que a exposição ‘Negras Memórias’ não passou pelo processo de validação da Universidade, não a caracterizando como apoiadora oficial. Em nota, a Instituição disse ter compromisso com ações afirmativas que combatem discriminações étnicas, raciais, religiosas, de gênero ou casta.

Segundo o Shopping Continente, todos os itens da exposição devem ser retirados do centro comercial ainda hoje. O Painel Acadêmico tentou, mas não conseguiu, contato com os responsáveis pela mostra após o Shopping informar sua decisão.

Fonte: Painel Acadêmico.

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