Sete dias entre a vida e a morte

Por Fernando Evangelista.1

Para Juliana Kroeger

Quando acordei no hospital, depois de sete dias em coma, não conseguia me lembrar do que havia acontecido. Não recordava do chute, nem do impacto da bola contra a minha cabeça, nem da cabeça batendo no chão de cimento. Era 1987.

Eu cursava a sexta série do ensino fundamental. Como a maioria das crianças, achava o colégio uma incrível perda de tempo e de imaginação. Suportáveis mesmo só as duas aulas de educação física em sequência. Embora os exercícios fossem cansativos, o professor era competente e engraçado.

Além disso, ele ostentava três diplomas universitários e unia essas formações – educação física, teologia e filosofia – na nossa aula semanal de futebol, exclusiva para meninos. As meninas faziam atividades sob a orientação de outra professora, na quadra ao lado, as duas a céu aberto.

“Vamos treinar cobrança de pênalti”, orientou o professor naquela manhã de setembro. “Porém”, ele disse, “antes de chutar, cada um dos senhores pegará um papel dentro deste copo de plástico e vai ler bem alto, o mais alto possível, a palavra sorteada. Dentro do pote, vocês vão encontrar os sete pecados capitais, entre outras coisas. Ficou claro?”.

Pecados capitais? Não, estávamos confusos. Mas na escola, depois de um tempo, a gente não se pergunta mais qual a razão de determinada atividade. Para mim, da álgebra à ciência natural, da trigonometria à geografia, nenhuma delas fazia o menor sentido. Para ser sincero, também não via muito sentido na educação física, mas pelo menos a gente se divertia e não havia prova.

Além disso, os papéis eram bem definidos quando se tratava de esporte. Eu, por exemplo, era o goleiro. Eis uma lei futebolística imutável: Todo perna de pau, a não ser que seja o dono da pelota, será escalado para o gol.

“Você” – continuou o professor, apontando o dedo para mim – “deve defender cada uma destas bolas-palavras com gana e seriedade”. Alguns anos depois, quando assisti ao filme Sociedade dos Poetas Mortos, tive certeza de que meu professor inspirou a criação do sensível e sábio John Keating, interpretado por Robin Williams.

Como no filme, meus colegas tiravam os papeizinhos, gritavam o que estava escrito e chutavam as bolas em direção ao gol. Entre um chute e outro, o professor declamava trechos do livro Dentro da Noite Veloz, do Ferreira Gullar, seu poeta favorito.

Papel, palavra, chute, defesa, poesia. Eu defendia tudo. “Avareza”, gritava alguém, antes de chutar. E eu defendia a avareza. Defendi também a inveja, a gula, a preguiça, a luxúria, a vaidade. Os pecados estavam misturados entre os capitais e os outros, que  supúnhamos bem menos graves.

A cada defesa, como uma ode ao arqueiro infalível, o professor declamava mais Ferreira Gullar: “… todos te buscam, facho de vida, escuro e claro, todos te buscam e só alguns te acham. Alguns te acham e te perdem. Outros te acham e não te reconhecem e há os que se perdem por te achar…”

Menos pelos poemas e mais pelas minhas defesas, as meninas se amontoaram atrás da trave. A arquibancada, completamente vazia, foi sendo ocupada por estudantes de outras classes. Uma por uma das cobranças – no canto direito, no esquerdo, no alto, no ângulo – eu pegava. O vento desviava para fora os chutes indefensáveis. Era o meu dia de glória.

Entretanto, o último tiro coube ao Rômulo, o brutamonte. Seu apelido era Escadinha, em referência a um famoso bandido daquele tempo. Como já tinha repetido dezenas de vezes cada um dos sete pecados capitais, o professor deu a ordem, sem sortear a palavra: “Vai, Rômulo, chuta a vida”.

O Rômulo Escadinha era um sujeito bem revoltado com a vida. Ele tomou uma distância exagerada, pegou de bico na bola e ela veio como um foguete no meio do gol, diretamente contra a minha cabeça. Meu reflexo falhou e meus braços permaneceram imóveis ao lado da cintura.

A bola bateu um pouco acima da minha testa e voltou na direção do meio-campo. A bola não entrou. Eu desabei para trás, provavelmente já desmaiado. A cabeça chocou-se contra o chão de cimento. Fiquei sete dias em coma e nunca mais me recuperei: desisti do futebol e me apaixonei por Ferreira Gullar.

Com toda a força, a bola da vida bateu em mim e continua batendo, insistentemente. Por mais que eu tente, não consigo segurá-la ou compreendê-la. Ela me confunde e me escapa e então volta, sem aviso e sem cerimônia. Vai, volta e permanece. Ela só sobrevive assim, neste jogo do imprevisível e da liberdade.

A bola da vida está por tudo e em tudo. Está, inclusive, nas prisões do espírito, nas prisões de cimento, nas cidades de concreto, nas nossas casas vazias. “Dentro, no coração, eu sei, a vida bate”, diz o poeta. “Subterraneamente, a vida bate. Em Caracas, no Harlem, em Nova Déli, sob as penas da lei, em teu pulso, a vida bate”.

Desde aquela aula de educação física, numa manhã de setembro de 1987, a vida e eu seguimos juntos, em busca de alguma coisa que nem eu, nem ela, sabemos direito o que é.

 

1Jornalista, diretor da Doc Dois Filmes. Mantém a coluna Revoltas Cotidianas, publicada todas as terças-feiras.

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