Serra da Boa Esperança, geografias de um território revisto e (re)sentido do Contestado

Por Nilson Cesar Fraga.*

Estou nos fazeres da ciência geográfica desde 1992 e, desde aquela época, se fazia a Geografia indo ao campo, tanto a dita humana, como a física – ou simplesmente geografias, como prefiro fazer –, um conjunto de coisas para buscar entendimento sobre o espaço geográfico. Impossível construir o conhecimento, desvendar mistérios e decodificar o mundo vivido dos outros, sentir suas paisagens, sentir seus lugares, vivenciar seus territórios e as regiões geográficas diferenciadas, sem experienciar o espaço, nos rincões do mundo alheio ao meu. Assim, não duvidemos que se façam as geografias no campo, em cumplicidade com o mundo, nas condições existenciais do mundo real – aquele pisado, sentido e saboreado pelos de lá são e pelos que para lá vão, ou apenas por lá passam. Mas, nesse mundo que estamos pisoteando há mais de duas décadas, o do Contestado, e que é marcado pelo silêncio e pela invisibilidade, mesmo sendo um mundo cheio de vidas, histórias, lembranças e com entranhas passíveis de serem resgatadas das sombras, pois está longe de ter sido esgotado, há geografias emergindo a cada nova visita. E posso dizer, livremente, que esse parágrafo inicial é inspirado no meu aluno Heitor Matos da Silveira, que trilha nesses desvendares de uma Geografia além da cultural, para uma Geografia mais profunda, em busca de ressignificações, no laboratório e no trabalho de campo!

Nesse fazer geografias no campo, sentindo o cheiro da terra, das florestas, do interior das casas das pessoas e do ar e dos ares alheios, fomos levados para a Serra da Boa Esperança. Estivemos em busca da memória do lugar, terra por onde passaram pessoas que lutaram a epopeia do Contestado, muitas das quais passaram cem anos na marginalidade a que foram lançadas pela história oficial, pela história dos ditos vencedores.

Suas memórias que envolvem a bravura e o heroísmo de erguer-se contra a tirania dos que tiravam suas terras e foram recusadas por muito tempo na historiografia nacional, que foram difamadas, que foram vilipendiadas pelos que voltaram para seus gabinetes e, envoltos pelos interesses e obrigações de lá ter estado, escreveram a versão do seu contrato social, sobre o tema e sobre si no tema.

Mas subimos a serra, em busca das reminiscências dos descendentes, buscando na memória cabocla um pouco da imaginação dos fatos ocorridos antes de terem nascido, mas que sabiam, pois foram contados de geração em geração, mais honestos que muitos escritos, permitindo redescobertas e desvelamentos, mesmo que parcialmente, pois muito já se perdeu no espaço e no tempo do Contestado.

Não abrimos mão de explicar um pouco mais sobre o Contestado para além dos dados sistematizados pelos escritores desse acontecimento marcante na história republicana. Fomos em busca da ótica dos que foram dominados e que, ainda, pagam um preço alto pela ousadia dos seus antepassados. Fomos várias vezes e falamos com muitas pessoas, na Serra da Boa Esperança.

Marco regional como pouso de São João Maria, profeta dos caboclos e caboclas devotos, que pregava a palavra de Deus, que aconselhava os aflitos, que abençoava as pessoas e os seus bens, que medicava enfermos, que curava os doentes com ervas e plantas nativas, a Serra da Boa Esperança conviveu com ele, por diversas vezes, tantas que até se confundem as lembranças e memórias dos habitantes mais velhos – entre os séculos XIX e XX, o profeta do Contestado passou sobre a vida das pessoas dessa serra.

            Sua passagem está marcada nessa comunidade, nos olhos d’águas, nos locais dos seus pousos, nos cruzeiros que ergueu e nos cedros que plantou.

            A Serra da Esperança, outrora da Boa Esperança, mas sempre Serra da Boa Esperança, não é mais o lugar dos caboclos e caboclas que viveram a Guerra do Contestado, nem mesmo o território ocupado por eles antes dessa guerra.

Muito pouco do mundo vivido caboclo se vê na Serra. Hoje, é um lugar relativamente vazio, fruto do êxodo rural ocorrido, sobretudo nos anos que vão de 1960 a 1980.

Mas há um vazio cheio de coisas na Serra da Boa Esperança, pois há relíquias em todos os cantos que registram o mundo secular daquele lugar. Existe, na Serra, toda uma diversidade geográfica que dá vida àquele lugar – a paisagem descrita em livros e relatos militares são a grande marca dos tempos. O que não há se pode imaginar, quando se lê ou se fala com alguém.

O que se vê na Serra da Boa Esperança? O vazio e o silêncio! O vazio do que fora e vivera no passado, pois já foi um lugar que fervilhou de gentes caboclas por volta de 1915, isso apenas para pensarmos em 100 anos. O silêncio, este em 2015. Silêncio de uma guerra que eliminou aquelas pessoas de 1915. Há, ainda, o silêncio da guerra secular em si. Chegar lá, cem anos depois, foi fácil – hoje, quase todos os caminhos levam à Serra da Boa Esperança.

Saindo de Lebon Régis, outrora e dignamente chamada de Santo Antônio do Trombudo, ou, antes ainda, de Salto do Rio dos Patos, ou, mais distante ainda, de Fazenda do Salto, hoje se chama pelo nome de um general que teve suas mãos sujas de sangue, que dizimou Taquarussu do Bom Sucesso, que varreu de sangue o planalto… Mas essa é outra história.

Voltemos para a estrada!

Saindo de Lebon Régis, no sentido de Caçador, pega-se a estrada rural para Perdizinha; sim, a Perdizinha dos crematórios de cadáveres da Guerra do Contestado e, a partir daí, se sobe a serra, seguindo através das plantações de pinus, com uma e outra propriedade com suas casinhas às margens dessa estrada. Mas há, ainda, bastantes araucárias nesse caminho. Num dado momento, antes do entroncamento que leva para Pastagem, São Miguel e Timbó Grande, nos deparamos com a estrada salpicada de pinhões. Paramos e fizemos farta arrecadação ao catar os pinhões ali mesmo, com o carro no meio da estrada.

O pinhão é comida rica, alimentou gerações de caboclos e caboclas, assim como engordou milhares de porcos e de outros animais da floresta por tempos imemoriáveis. Tínhamos comida garantida para o trabalho de campo na Serra da Boa Esperança. Nesse dia estavam comigo Márcia Elizabete Schüler, Heitor Matos da Silveira, Carlos Nedi Veiga da Silva e Cedival Alves Guedes, todos eles pesquisadores e andantes pelo mundo do Contestado. Na semana anterior, haviam dividido, ainda, comigo as descobertas na Serra, a Edna Pereira da Silva e a Naibi Souza Jayme. Tantas eram, contraditoriamente, as coisas existentes na vazia e silenciada Serra da Boa Esperança, que precisamos ir a campo por duas semanas seguidas.

O primeiro contato com o lugar se dá por meio da exuberante paisagem, cercada por uma considerável planície emoldurada por serras e cerritos. Ouso dizer que se parece com um altiplano no coração do Contestado. É um lugar muito grande, quando a escala somos nós mesmos e que nos permite imaginarmos quantos casebres caboclos caberiam ali, isso por volta de 1915 ou, mesmo, antes disso. Mas, cem anos depois, é possível contar umas cinco ou seis casas no núcleo central da vila da Serra da Boa Esperança.

A igreja católica é o que marca o núcleo central, caracterizada por ser um templo moderno, pintado em verde-claro, com duas enormes cruzes tomando a fachada dianteira, estas pintadas com tom de verde mais escuro. Há, ainda, na frente, no lado esquerdo da igreja, um enorme cruzeiro das missões de 2014 e, no topo da fachada central da igreja, se vê um cruzeiro de madeira, que aparenta ser muito antigo, provavelmente da antiga capela, que era de madeira. Tal cruz no topo da igreja está completamente tomada por musgos e barba-de-velho, uma planta da família das bromeliáceas, também conhecida como barba-de-pau, samambaia, barba-espanhola, barba-de-macaco, barba-de-pai-ventura, cabelos-do-rei, camambaia, crina-vegetal, erva-dos-bardonos, samambaia-de-norte e hirahuasso, indicada para dores e inflamações no reto, ingurgitamento do fígado, hérnias, úlcera varicosa e varizes (plantasquecuram.com.br, maio de 2015). Tão coberta está pela barba-de-velho, que da cruz ficou apenas o formato. O sino da igreja, que sabemos ser antigo, da década de 1930, está cercado por tijolos na torre central – estando coberto e cercado pelos tijolos e reboco, não se pode vê-lo e nem ao menos tocá-lo, pois parece que o pedreiro desejava capsulá-lo ou, mesmo, escondê-lo da comunidade. O sino escondido ainda é um mistério que nos intriga.

A igreja, singela, possui um altar belíssimo, esculpido em madeira, não sendo possível saber a data da sua confecção e aquisição, mas a etiqueta do fabricante gaúcho constante nele traz a data de 1918, provavelmente a data da fundação da empresa fabricante de altares. Ao lado da igreja se encontra o salão de festas, cercado, assim como a igreja, por amplo gramado verde e podado. Ao lado esquerdo, numa pequena baixada, se encontram três casas simples de moradores do lugar e, nos fundo, numa parte elevada, se tem o prédio em alvenaria de uma antiga escola municipal, sendo, na atualidade, a residência de uma família, pois a prefeitura busca e leva as crianças para escolas na sede ou em localidades próximas.

Não muito distante da igreja, pouco mais de 200 metros, fica a placa retangular, apoiada sobre duas placas menores, feitas em ardósia, que marca os lugares significativos relacionados à Guerra do Contestado, quando se rememoraram desta os 70 anos, eretas em todo o sertão do Contestado, no primeiro governo de Esperidião Amin, nos anos de 1980. Tal placa se localiza na beirada da estrada que corta a comunidade da Serra da Boa Esperança. Foi naquele local que, num dado momento do século XIX, fez pouso o profeta João Maria – o Monge do Contestado. Existe, no mesmo local, um cruzeiro bastante danificado pelo tempo; é ele um dos poucos marcos em que os escritos falam especialmente sobre os monges.

Então seguimos pela mesma estrada. Depois de subirmos uma pequena elevação no terreno, ou seja, um morrinho, chegamos ao cemitério caboclo da Serra da Boa Esperança, que serve à comunidade desde a chegada dos primeiros habitantes, isso no século XIX. Nele, uma mistura entre o mundo caboclo e o dos que chegaram antes e depois da guerra. A entrada do cemitério fica na beirada da estrada, possui leve inclinação na direção da sede da vila, mas uma pequena mata nos impedia de vermos a igreja lá no fundo do vale, assim como os pinus cobriam todo o lado direito dela. Chamou a atenção os túmulos feitos em madeira, alguns com formato de casinhas, onde sepultavam as crianças; e outros, também em madeira, com formato de caixões de defuntos, ricamente ornamentados, trabalho artístico feito por excelente escultor – os detalhes dos entalhes são impressionantes. No mais, há muitas carneiras simples, algumas apenas num montinho de terra com uma singela cruz chanfrada na cabeceira – esse tipo de cruz dos cemitérios caboclos se encontra no centro da bandeira do Contestado, usada pelos caboclos ao longo da Guerra do Contestado, desde 2001. Tal bandeira é, oficialmente, um símbolo regional catarinense.

Porém, o que mais chamou a atenção no cemitério foram dois troncos enormes e parcialmente queimados que se encontram pouco abaixo do cruzeiro central. Por meio de informações que obtivemos, há duas possibilidades explicativas para os troncos calcinados. Uma diz que os caboclos e as caboclas se encontravam na igrejinha, cuja base eram os troncos mencionados, e fora bombardeada, quando os caboclos se encontravam dentro dela, pelo Exército, explodindo, queimando e mutilando os caboclos e caboclas que estavam no seu interior. Há que recordar que, em tempos de combates nos redutos do Contestado, as igrejas serviam de refúgio, pois, por serem locais santos, havia a ingenuidade de que não seriam atacados – mas tal estratégia não funcionou bem ao longo da guerra. Os relatos de dezenas de igrejas queimadas com fiéis dentro são impressionantes, e fazia isso o Exército, para baratear os custos da guerra. No entanto, outra versão diz que estavam fazendo uma festa de igreja e que tais ações estavam proibidas pelas lideranças caboclas da guerra – leia-se Adeodato –, naqueles dias, e que, ao saber da referida festa na comunidade, os ditos “jagunços”, em represália, atearam fogo à igreja.

De qualquer forma, a igreja da antiga vila da Serra da Boa Esperança, foi atacada, incendiada e queimada durante a Guerra do Contestado, fato que atenta para a violência vivida pelas comunidades do sertão, naquele período. Os dois troncos queimados são tudo o que resta de um passado de violência, insegurança e dor.

Mas o cemitério, cercado de pinus e fragmentos de uma floresta recuperada pela ação do tempo, guarda outros segredos ao seu redor. Do lado esquerdo, uns dez metros depois das taipas que lhe servem de muros, há um pouso de São João Maria, marcado por um cruzeiro corroído pelo tempo e encostado numa árvore grande e volumosa, que da base na terra, forma um “v”. Tinha, ao redor do cruzeiro, uma cerquinha de estacas, mas ela se encontrava tombada no chão, fruto da ação do tempo – da umidade e dos ventos serranos. O cemitério se encontra além da base de um morro, que chega a 1.359 metros de altitude.

Caminhando até a parte da frente do cemitério se chega a uma trincheira ereta com grandes blocos de rochas, cujas posição e localização a menos de 100 metros da antiga igreja da vila, permitiam que servisse de base defensiva contra os que vinham pela antiga estrada, ou picadão, que passava por ali.

Ao mesmo tempo, se a igreja foi bombardeada pelas “forças”, servia de base para a instalação de canhões. Alguns metros mais adiante, do lado direito da trincheira, se vê um enorme cedro plantado por São João Maria e, mais adiante ainda, mas não muito longe, um caminho tropeiro com formato de ravina, dado o pisoteio de milhares de animais que passaram por ali, por tempo mais do que seculares. A trincheira se encontra cercada pelo pinus que domina a paisagem na atualidade, mas, ao mesmo tempo, nos permite imaginarmos o numeroso pisoteio das tropas de bois, muares e porcos.

Este sítio histórico, bastante danificado pela ação do tempo e do abandono, permite vislumbrar a importância que teve a vila da Serra da Boa Esperança, em tempos que antecedem a Guerra do Contestado e, mesmo, posterior à guerra.

Essa localidade fica estrategicamente situada no grande conjunto de montanhas da Serra do Espigão. A vila se localiza, ainda, num grande platô, nascente de vários riachos, formadores de pequenos vales, tudo isso cercada por um conjunto montanhoso ao norte, entre 1.320 e 1.370 metros e, ao sul, entre 1.325 e 1.360 metros de altitude. Já o platô tem em torno de 1.250 metros, e o vale mais profundo, onde se localiza o pouso de São João Maria, defronte à atual capela da vila, apresenta um pouco mais de 1.200 metros de altitude. Tudo isso forma uma paisagem belíssima, sendo o local que o monge disse que seria a terra da promissão, onde os caboclos e as caboclas do Contestado viveriam em paz.

A Serra da Boa Esperança é um pouco disso tudo, para quem passa por lá e se deslumbra com sua bela paisagem – cercadas pelo conjunto de montanhas, as poucas casas do lugar estão no platô e no fundo daqueles pequenos vales, em síntese, é um belíssimo altiplano, ainda dominado por muitas araucárias, lavouras, pastagens e terras abandonadas com capoeirão.

Mas temos mais a dizer sobre aquele lugar. Convidado a nos guiar, o senhor Valdir Ribeiro de França nos acenou, já que estávamos ali tão próximos dos morros, a meio caminho, na versão dele, para subirmos o morro e irmos até a Santa Emídia, onde verte a fonte de água de São João Maria, que se localiza, em linha reta, ao norte da atual capela de Santa Cruz, a aproximadamente 1.350 metros de altitude.

E fomos para lá, seguindo-o cheio de vigor, com a possibilidade de mostrar os lugares da sua terra, a terra dos seus antepassados.

Foi uma subida puxada, sempre com nosso guia à frente. Inicialmente, seguimos pelo meio da plantação de pinus, logo depois de visitar e estar no caminho tropeiro. Ao sair da plantação de pinus, andamos por entre outras árvores e muitas araucárias, entremeadas por campos de pastagens até adentrar em mata mais fechada, já na encosta do morro, o qual, consultando as bases cartográficas disponíveis, chega a 1.359 metros de altitude, o ponto culminante, na sua parte final, quando já subíamos nos segurando na galhada da vegetação que recobre aquela encosta íngreme, em terreno muito úmido.

E lá chegamos, para nos deleitarmos com uma ampla vista do platô onde se encontra a vila, vendo, logo à frente e no sentido Sul, os fundos da capela de Santa Cruz e o pouso de São João Maria. Foi como sobrevoar a paisagem da Serra da Boa Esperança, tão alto é o lugar. É como se o monge tivesse escolhido aquela fonte d´água, que nasce entre as rochas do topo da montanha, tendo como base um barro argiloso preto, bastante grudento, para lá de cima, ver a vila e o lugar do seu pouso. Mas são conjecturas, afinal, mais de cem anos antes, não temos como imaginar a paisagem do lugar, pois, por certo, as montanhas e o platô deveriam ser tomados por vegetação mais densa e pelo verde-escuro da floresta de araucárias, com algumas roças, pastagens e casinhas às margens daquele caminho tropeiro.

Lá, naquele ponto onde verte a água santa do profeta do Contestado, eu, Heitor, Cedival, Carlos e o senhor Valdir recuperamos as forças depois da exaustiva subida, bebendo água daquela fonte secular – água pura, leve e gelada –, onde, do lado direito da fonte, há duas capelinhas de madeira, escuras pela ação do tempo e da umidade, onde estão três vidros com as fotos de São João Maria, também desgastadas pelo tempo.

Revigorados por aquela água e pela esplendorosa paisagem, descemos e voltamos para a vila, para continuarmos os trabalhos de pesquisa; entrevistarmos o senhor Walter Alves de Moraes, na sua própria residência, uma casa ampla, que fica entre a capela atual e o velho cemitério. Assim que entramos e nos apresentamos, sua esposa já colocou água para ferver no fogão à lenha, para nos fazer um café. Então perguntamos ao senhor Walter sobre o ataque à igreja na época da Guerra do Contestado e ele nos deu outra versão dos fatos, dizendo que não fora o bombardeio dos canhões do Exército que a queimara. Disse-nos que um grupo de 200 cavaleiros jagunços, acompanhados por Adeodato, atacaram e incendiaram a igreja que ficava junto ao cemitério, onde se encontram os cepos queimados, pois havia proibição de realização de festas naquele período – isso seria uma imposição de quando Adeodato chefiava a guerra cabocla nos sertões do Contestado.

O grupo de cavaleiros ou o piquete de Adeodato rodou alguns quilômetros até encontrar o festeiro chamado José Elias, que foi encontrado pelo grupo e morto em seguida. Proferiu o senhor Walter que corre uma lenda, ou história, que José Elias havia dito aos amigos que, ao passarem pela cruz no local em que ele estaria sepultado, poderiam dizer adeus, que ele mesmo responderia.

Sobre tais fatos, conversamos ainda com outro morador da Serra da Boa Esperança, Amauri Rocha, que mencionou que a vila, em determinado dia, foi surpreendida pela chegada de Adeodato montado num cavalo baio, acompanhado de mais de 200 cavaleiros. Disse-nos que o líder caboclo chegou montado nesse cavalo branco e vestido com trajes que pareciam militares, incluindo um chapeuzinho na cabeça que dava a impressão de estar uniformizado. Recorda-se, por meio da história passada por seu pai e seu avô, que a força exercida com o movimento dos cavalos dessa tropa chegou a movimentar a terra do precário caminho que dava acesso à vila, isso pela intensidade do pisoteio dos cavalos em marcha. Chegaram à casa de Amaro Correa da Rocha, com quem Adeodato tinha relação de amizade antes da guerra. Disse-nos ainda que, ao chegar com aquele cavalo bonito, enfiou a cabeça do animal na varanda, sendo que Amaro prontamente saiu da casa e cumprimentou Adeodato com um aperto de mãos e perguntou sobre José Elias, aquele que havia feito a festa na igreja da comunidade.

Contou-nos o entrevistado que seu avô, naquela época, um menino de oito anos, ficou do lado do cavalo do Adeodato e pôde sentir o calor exalado pelo animal que havia feito longa cavalgada, chegando, mesmo, a sentir o bafo quente lançado pelas ventas do animal. Esse fato teria ocorrido no finalzinho de 1914, quando o piquete de Adeodato cruzou a Serra da Boa Esperança, numa das numerosas incursões que faziam pelo sertão do Contestado, em diligências entres os redutos. Amauri Rocha comentou, ainda, que o Exército não chegou a conhecer pessoalmente Adeodato, é como se o grande líder do mundo caboclo fosse intocável.

Impossível não imaginar e construir mentalmente tal cena épica. Adeodato montado em seu cavalo branco, seguido por 200 outros cavaleiros pelas trilhas, picadas e caminhos do sertão em guerra, sobretudo os que levavam até a Serra da Boa Esperança – é possível, ainda, edificar na imaginação, essa passagem, de um bravo homem, ao melhor estilo dos grandes líderes da literatura histórica, tal qual Carlos Magno, “o grande”, e seu império na floresta de araucárias, como se o Contestado fosse seu Império Carolíngio. Adeodato seria o grande esplendor da Serra Acima sulista.

Há que lembrar que, mesmo sendo um homem analfabeto, Adeodato registrou na história e na memória secular catarinense suas conquistas militares, isso ao organizar um exército forte e destemido e, assim como o Carlos Magno europeu, exigiu a participação dos grandes proprietários de terras na região conflagrada.

É notório que a história epopeica de Carlos Magno era conhecida no mundo caboclo, pois José Maria, o monge guerreiro, lera tal história para o povo que o seguiu até o Banhado Grande, nos campos do Irani, quando antes havia estado, por algum tempo, em Taquarussu do Bom Sucesso – em suma, além da bíblia sagrada, o livro com a história de Carlos Magno havia sido passado em leitura para os caboclos e caboclas, em muitas noites de rezas, discussões sobre a vida e a morte e sobre o futuro deles, quando o próprio monge havia dito que ressuscitaria na Serra da Boa Esperança, a terra da promissão.

Adeodato deve ter bebido dessas fontes, pelo menos ouvido falar ao redor de uma fogueira que iluminava, mas que também aquecia o corpo e cozinhava a comida, nas noites frias do Contestado.

Ah, quantas coisas se falavam sobre o grande imperador das “oropa”, nas fogueiras de bate-papo e chimarrão, por aquele imenso sertão das araucárias!

Adeodato Manoel de Ramos, um negro com nome e sobrenome, era nobre. Quando muitos dos seus eram enterrados com o singelo nome de João Maria Preto, gravado nas carneiras do Contestado, em cruzes chanfradas, ele podia ter mais de um nome no sertão, Leodato, Deodato, Liodato; esse homem que “varô” florestas e campos, odiado pelas elites da sua época, sendo a maioria coronéis de fazendas, era também causador de medo no sombrio sertão. Fora jovem do Cerrito, próximo de Lages, para o Trombudo, Santo Antônio do Trombudo, hoje lastimavelmente chamada de Lebon Régis, pagou alto preço por sua ousadia, e escreveram com o sangue do ódio a sua biografia; acusado e condenado, teve uma morte vulgar. No dia 23 de janeiro de 1923, foi morto por um capitão, na Cadeia Pública da capital catarinense, cidade cujo nome atual está representada por um marechal de ferro, o qual a história oficial fez herói republicano, tal qual Lebon Régis, que fez suprimir a dignidade do nome honroso de Santo Antônio do Trombudo – dois militares com as mãos sujas do sangue caboclo do Contestado e de brasileiros outros, dão o tom da arrogância dos ditos vencedores sobre o povo que vive nessas duas e noutras cidades do estado e do país.

Mas Adeodato ficou na história, nos livros e nas memórias, mesmo estando lá, estraçalhado em vísceras jogadas ao chão, com sua biografia envolta numa trama de carne viva, na absoluta solidão dos que se ergueram contra a tirania da sua época e foram lançados num teatro sem plateia, sem palco, sem luzes, desglorificados e silenciados pelos vencedores ruidosos de patrimônio moral disperso na carnificina que geraram.

Mas Adeodato não morrera no presídio, ele está aqui e nas sombras das memórias dos que vivem nesse sertão. Vimos Adeodato na Serra da Boa Esperança, nas falas incrédulas dos seus descendentes, e há uma fotografia dele publicada no jornal O Estado, do dia 12 de agosto de 1916 – diferente da maioria dos seus, Adeodato é materialidade e imaterialidade, assombrando, ainda, o sertão do Contestado.

Adeodato era valente, destemido, feroz, dominador. Era, de fato, um chefe. Temido e obedecido sem discussão, firmara o seu prestígio nos entreveros e o seu domínio se alicerçava na dureza com que reprimia as rebeldias. A sua lei eram o rabo de tatu e o fuzilamento, teria dito e escrito Osvaldo Cabral, na sua obra A Campanha do Contestado, em 1979, na página 250. Por isso e muito mais, entendemos que Adeodato teria de ser, ainda, apenas um bandido, pois ousou construir um “império” no(do) mundo sertanejo, onde imperaria a felicidade para seus semelhantes – sonhos e utopias, o caboclo os tinha! Tal ousadia faz dele, ainda, o mal encarnado no planalto.

Mas não podemos ver na liderança de Adeodato a política expansionista de Carlos Magno; mesmo assim, há outras semelhanças. A exemplo do imperador europeu, que expandiu os limites conquistados por seu pai, Pepino, “o Breve”, Adeodato manteve e até ampliou o território de domínio e controle da líder Maria Rosa, “a Breve”.

Assim como nas regiões conquistadas e dominadas por Carlos Magno, Adeodato construiu fortalezas aqui no Contestado onde as araucárias, as imbuias, os cânions, os vales profundos e os ocos de imbuias mortas eram as fortalezas que salvaguardavam as igrejas e as casas caboclas, onde se organizavam os redutos nos quadros santos, e essas eram ligadas por estradas e caminhos, onde o cristianismo não fora obrigado, pois os caboclos e as caboclas já eram cristão-católicos fervorosos, no seu mundo rústico.

E o império caboclo, numa alusão ao livro homônimo de Donaldo Schuler, não tinha uma sede fixa, assim como o Carolíngio não o tinha – viajavam de um lugar para o outro, com toda sua organização político-administrativa e religiosa.

Mas o Contestado de Adeodato não conseguiu ser, afetivamente, um renascimento, pois, em poucos anos, as forças repressivas legalistas da República do Diabo, como bem dizia o povo do sertão, os dominou, destruindo suas casas, suas igrejas, mapeando e invadindo seu mundo livre, sem que tivessem tempo de construir uma escola ou um hospital sequer. Não conseguiram construir palácios e igrejas imponentes, pois eram pobres e simples, mas não eram miseráveis, pois viviam, antes da guerra, com dignidade, envoltos pela solidariedade e irmandade e pela fartura doada pela natureza do sertão.

E quem sucedeu Adeodato não foi seu filho, nem mesmo outro caboclo, foi o Estado, não tendo no sertão do Contestado um Adeodato Filho, “o Piedoso”. Quem governou as terras ancestrais do Contestado foi o governo de Santa Catarina, “o Impiedoso”, que fez daquela terra uma terra maldita, desde a maldição das políticas públicas ineficientes, até as políticas públicas de destruição dos caboclos e caboclas do Contestado, que davam alma àquele território.

Esse império caboclo, tal qual o Carolíngio, foi fragmentado, não em estados nacionais, mas em municípios, muitos dos quais, até pouco tempo, nem ousavam falar e rememorar sua história mais profunda, aquela que lhes dá uma alma cabocla – apenas e sobre um mundo de migrações que lhes deu uma aura europeizada nos pós-guerra. Mas isso está mudando lentamente. O Contestado se esconde atrás de uma cortina de fumaça de uma guerra que, oficialmente, terminou em 1915, nos 54 dias de combates no vale de Santa Maria, hoje vale da Morte e, ainda, no acordo de Limites de 1916 – mas não acabou, a guerra segue até nossos dias, quando lutamos pelo reconhecimento do mundo caboclo, pela sua identidade e pela sua cultura, incluindo-a na cartografia social nacional.

Adeodato foi transformado no demônio do Contestado e seus descendentes também são parte dessa imagem infernal construída pelos que se julgam vencedores. Amauri Rocha nos disse que seu avô se emocionava todas as vezes que contava para alguém a história de Adeodato chegando com seus cavaleiros na Serra da Boa Esperança. E nós que pisamos as terras ancestrais do Contestado, conversando com as pessoas de lá, sabemos os motivos de tal emoção desse senhor, que, infelizmente, não tivemos a oportunidade de conhecer – acreditamos que tais memórias envoltas pela emoção são fragmentos de provas de que Adeodato era uma espécie de Carlos Magno do sertão do Contestado e de toda a Serra Acima, não era e não é a imagem do demônio construído pelas fontes oficiais, nas noites frias planaltinas, terras onde muitos intelectuais orgânicos que escreveram sobre o Contestado nunca pisaram, pois resolveram ficar nos seus gabinetes quentes e aconchegantes, falando do mundo do outro, sem ter ido até lá.

Não duvidamos que os ensinamentos dos monges, sobretudo do Zé Maria, que diz, quem tem mói, quem não tem mói também e no fim todos ficam iguais, seja a frase que melhor explicita o mundo e a índole cabocla, pois os caboclos e as caboclas do Contestado eram bons e queriam o bem, pois suas casas tinham portas, mas não tinham tramelas – esse é um traço de permanência da cultura cabocla, que vivenciamos todas as vezes que estamos pelo Contestado.

Os demônios estão em todos os lugares, inclusive nos palácios e, muitas vezes, estão sentados em poltronas ornadas com dispendioso veludo vermelho.

O caboclo queria o bem! Disse isso Zé Maria, que também queria o bem!

Adeodato era inspirado em Zé Maria, em José Maria, em José Maria, nos monges!

Quem era Adeodato?

Quem é Adeodato?

É, em princípio, o grande enigma e o grande mito dos sertões do Contestado. Biografias a parte, ele vive e infesta as mentes contestadenses.

Adeodato, crente na fé no monge, ele resiste, ele permanece!

Sobre São João Maria, os três monges são um só na crença popular, pois um é a reencarnação do outro. O senhor Walter Alves de Moraes mencionou que ele, o Monge, deixou marcas na comunidade, tais como o cedro, as águas santas e os locais de seus pousos, fato que nos leva a crer que dois ou até mesmo os três monges peregrinos passaram pela Serra da Boa Esperança. Falou-nos, ainda, de uma passagem que ocorreu com seu primo, isso quando eram crianças. Quando tinham entre sete e oito anos, seu primo era portador de uma ferida no pé há mais de cinco anos e ela piorava a cada ano. Certa vez seu primo disse ter sonhado com um padre que vestia uma túnica preta, como era o costume naquela época. No sonho, o padre questionou a situação da ferida no pé do rapaz, que perguntou onde encontraria o remédio para tal ferida, e o padre do sonho indicou a Santa Emídia e que fizesse um emplasto com o barro existente na fonte d´água e colocasse sobre a ferida, amarrando-a com um pedaço de pano – só isso bastaria.

E os dois garotos foram até a Santa Emídia, naquela água santa do monge – local que para nós foi de difícil subida, mas de onde tivemos bela vista da Serra da Boa Esperança –, pegaram o barro, colocaram sobre a ferida, amarraram com um pano e fizeram orações típicas de crianças, fazendo o pedido para a ferida curar. Alguns dias depois, ao tirar o emplasto, a ferida estava curada, aliás, desaparecera do pé do menino, como que milagrosamente.

E a fonte de água e barro santo do monge permanece lá, até hoje, levando pessoas morro acima, fazendo suas preces e seus pedidos, como nos muitos espaços sagrados de São João Maria, que encontramos no Paraná, em Santa Catarina, no Rio Grande do Sul e noutros estados.

Cada espaço sagrado desses tem sua própria história, o da Serra da Boa Esperança tem a cura do pé do menino.

E, quando olhamos para a vila da Serra da Boa Esperança hoje, nos deparamos com uma comunidade muito pequena, apenas uma igreja, a capela e algumas casas, uma das quais servindo de templo para os evangélicos, além do cemitério histórico e dos locais sagrados de São João Maria, tudo isso cercado pela belíssima paisagem que vimos, sentimos, ressignificamos e descrevemos aqui – aliás, isso tudo constitui a paisagem daquele lugar.

Mas não temos como reconstituir a paisagem daquele lugar nos tempos da Guerra do Contestado – isso só é possível por meio da nossa percepção, mesmo assim, advinda das falas e memórias das pessoas mais velhas, que nos receberam nas suas casas ou nos seus sítios históricos, encaminhando-nos às descobertas, sendo guias dos seus mundos. Dessa maneira conseguimos imaginar um pouco da organização social daquele lugar no passado. E o senhor Walter Alves de Moraes nos disse que a vila já foi bem grande e bastante movimentada, além de ser cheia de atividades com os movimentos e o trabalho de muitas gentes. Isso, principalmente, entre os anos de 1940 e 1950, mesmo havendo um hiato temporal entre os anos pós-guerra até os anos de 1930.

Nos anos de 1940, a comunidade, em mutirão, com as mãos e picaretas, abriu a estrada que a ligaria com a estrada principal, que vai de Lebon Régis até Caçador, abrindo a comunidade para a dinâmica socioeconômica regional daquela época e possibilitando que a Serra da Boa Esperança passasse a viver sem depender dos velhos e precários caminhos tropeiros.

Foi nessa época que chegou o primeiro caminhão naquele lugar, gerando grande curiosidade entre os habitantes, que correram para ver “aquela coisa barulhenta” – nem duvidamos que isso tenha sido uma grande novidade e, que, inclusive, mudaria os rumos da vila até a década seguinte. Depois da abertura da estrada, a Serra da Boa Esperança passou a conviver com um intenso ciclo madeireiro, que atingia toda aquela região catarinense.

A vila chegou a ter cinco armazéns grandes, farmácia, dentista, ferraria que produzia todo tipo de ferramentas, sapataria que fabricava diversos tipos de calçados, e também montarias, arreios, selas e aparelhos para as cabeças dos cavalos. Impossível estimar a população daquela época. Muitos habitantes eram empregados de duas grandes madeireiras, uma com serra fita que funcionava 24 horas por dia beneficiando a madeira abundante que havia na Serra da Boa Esperança e nas comunidades circunvizinhas. Por fim, para que se possa ter uma dimensão maior do lugar naquela época, havia, ainda, uma fábrica de móveis, que produzia armários de cozinha, guarda-roupas, estantes, cadeiras, mesas e outros móveis de uso naquele período.

Mas não podemos esquecer que, sendo uma comunidade interiorana, a agricultura e a pecuária se faziam presentes na economia local. Os porcos eram tropeados até Videira; um homem ia à frente espalhando o milho, enquanto outros tocavam as varas de porcos, e os cães treinados impediam que os porcos debandassem pelos matos. Há que se mencionar, e comprovamos, que os porcos eram enormes, podendo passar de 400 quilos cada um, algo assustador para os padrões de porcos criados em cativeiro hoje, nos chiqueirões da região. Havia a necessidade de vários pousos com os porcos antes de chegarem a Videira, cuja distância pelos caminhos da época não passava de 70 quilômetros – ou seja, o processo era moroso, vivia-se no tempo lento, incomparável à disponibilidade logística atual. Com o gado produziam o charque que era levado para Caçador em lombos de mulas, em viagens de pouco mais de 40 quilômetros, o que demandava pousar no caminho – essa produção que seguia para Videira e Caçador era levada para os mercados consumidores, depois seguiam pela Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, a ferrovia do Contestado, um dos elementos de entendimento da Guerra do Contestado, responsável pela expulsão dos caboclos das suas terras ancestrais para outros lugares.

Na agricultura, a fase do trigo foi a mais marcante, o qual, depois de colhido, era malhado a casco de cavalos, nos disse o senhor Walter Alves de Moraes. Depois é que surgiu a trilhadeira puxada a boi e, em carroças, era levado até onde os caminhos permitiam chegar os caminhões e, por fim, eram entregues nos moinhos de Caçador.

Vivendo e sentindo a Serra da Boa Esperança, em alguns dias do mês maio de 2015, foi possível notar que o brilho da história de vida daquelas pessoas remanescentes da secular ocupação cabocla ainda existe e vem crescendo e se avolumando, mostrando que ter ancestralidade cabocla é digno e é lindo, pois há todo um contexto de existência que explica a vida dessas pessoas hoje, mas que as faz seguirem, de cabeça erguida, pois sua história é uma das mais profundamente enraizadas na formação nacional.

Falta, tanto aqui na Serra da Boa Esperança como noutros lugares do Contestado, gerar mecanismo que abram o mundo ancestral caboclo do nevoeiro que a oficialidade brasileira lhes legou.

Palco de sangue e da dor das vozes caladas, essa região inteira vem se erguendo das cinzas, como uma fênix, reconstituindo-se a partir da sua memória e do rompimento da falaciosa ideia de que todos no Contestado eram jagunços – devemos sempre lembrar que os jagunços foram contratados pelos coronéis para expulsarem e matarem os caboclos, esses caboclos que viviam em paz nessas terras, desde tempos imemoriais, que foram atacados e tiveram de se defender. O Caboclo é bravo! A Cabocla é brava!

Os cascalhos das estradinhas da Serra da Boa Esperança e de outras localidades, entregues ao abandono, precisam ser recolhidos, pois, debaixo desses cascalhos, há toda uma história de vida abandonada que precisa da sua própria ressignificação, para avançar, desde a hora de tomar o café da manhã, numa casinha simples, até a hora de deitar na cama, depois de um dia de trabalho, ao silencioso som da natureza, que ainda impregna o Contestado de vida e de memórias que precisam ser desveladas.

Os resíduos dos seus mitos calados, anos a fio, há que ser quebrado e contado e levado de geração em geração, como vem sendo feito, ao pé do ouvido, desde 100 anos antes, pois o caboclo, mesmo calado, é inabalável em sua luta, em sua dignidade, em sua beleza.

Que a Serra da Boa Esperança seja, sempre, a terra da promissão, e que a esperança seja sempre boa, como numa plantação de sonhos e utopias – a marca primordial e ancestral deles e delas ali no lugar das portas sem tramelas.

Por fim e pautado num pensamento mais profundo e até mesmo mais distante, espraiado pelas terras ancestrais do Contestado, não recuso dizer que, além das montanhas do Contestado, no miolo dessa terra, onde ainda vivem muitos descendentes da saga cabocla, há esperança, porque sempre ouve esperança no coração das pessoas pretéritas que viveram naquele espaço. Mas isso além da lógica e da razão, mas com sonhos e resistências, pois o fio da resistência é a garantia do futuro.

Há que se pensar nas localidades do Contestado a partir daquilo que são, das suas raízes, da sua cultura, do mundo caboclo, ou seja, da simplicidade do lugar, daquilo que o constituiu, para que se tenha o presente a partir do que se tem do passado, para que se possa ter futuro. Temos que romper o desprezo pela memória cultural do mundo e das coisas caboclas, que transformam o cidadão em refém da lógica do mundo distante. Há que se valorizar o que se tem onde se vive, ou seja, as bases culturais seculares caboclas, caso contrário, o território deles sempre estará a serviço dos outros – dos outros distantes.

Para que as localidades não sejam excluídas tem de se viajar no tempo histórico vivido pelas comunidades, resgatando e valorizando a alma impregnada de coisas locais, para que a Boa Esperança transcenda a Serra e seja o futuro e a dignidade de todos os caboclos e caboclas do Contestado, não importando seus sobrenomes nem seus lugares de origem, pois, hoje, caboclo e cabocla são os que vivem e fazem o Contestado, por toda a imensa Serra Acima.

Imagens dessa Serra da Boa Esperança!

 Boa esperança 2 Boa esperança

Em Santo Antônio do Trombudo, numa reunião para o evento do Centenário do Contestado, numa plantação de sonhos, aos 16 de junho de 2015.

* Pesquisador Produtividade do CNPq

Geógrafo – Doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento

Universidade Estadual de Londrina – DGEO – PROPGEO – UEL

Universidade Federal do Paraná – PPGGEO – UFPR

Laboratório de Geografia, Território, Meio Ambiente e Conflito – GEOTMAC – UEL

Coordenador do Observatório do(s) Centenário(s) da Guerra do Contestado – UEL/UFPR

1912/2012 – 1916/2016 – 100 Anos do Contestado em Guerra – PR/SC

3 COMENTÁRIOS

  1. Paula, muito obrigado pelas palavras e pela leitura além do imaginável das minha narrativas sobre a Serra da Boa Esperança e dos pedaços do Contestado que vamos reerguendo das cinzas da história, do espaço e da cultura do esquecimento republicano. Sem palavras aqui, pois teu olhar sobre esses escritos, simplesmente me calaram. Obrigado!

  2. Ao ler o texto sobre a Serra da Boa Esperança, do professor Nilson César Fraga, pude recordar semelhante tom de intensidade que percebi mais de dez anos atrás numa de suas aulas sobre o Contestado, na qual “redescobri” a guerra e o movimento graças a sua fala, capaz de evocar com uma riqueza de detalhes o mundo dos sertanejos e os horrores que passaram, sem a frieza típica de gabinetes, por vezes impressa por um número grande de pesquisadores e produtores de conhecimento.
    Por meio das impressões e percepções de Fraga, nos deparamos com um passado múltiplo e diversificado que ainda não foi redimido o suficiente, porém aberto à inúmeras possibilidades de pesquisa, basta interesse e dedicação. Interesse e dedicação associados à competência norteiam os trabalhos de Fraga referentes à temática do Contestado. Não é de hoje que o professor autor vem desvendando e ao mesmo tempo divulgando, de modo incansável, o que ele mesmo chama de mundo ancestral caboclo, o genocídio e a luta dos sertanejos. Em suas leituras, visíveis em aulas e palestras, produções científicas, publicações em diferentes veículos e criações de eventos, notamos a importância que ele concede ao trabalho de campo. Seu lado geógrafo e pesquisador já o fez trilhar uma área bastante considerável do território Contestado. Em tais viagens, em busca do que pode ter sido a vida dos desassistidos de tudo e excluídos da República, Nilson vem reelaborando suas visões e noções, vem construindo novas interpretações mais humanas, ousadas e originais, porém, não menos criteriosas, a partir das ruínas, dos silêncios, dos vazios cheios de coisas (como o próprio enfatiza) e das histórias contidas nas memórias de entrevistados, descendentes da saga cabocla, que durante muito tempo permaneceram e ainda permanecem reprimidas, afetadas, invadidas e modificadas a partir das heranças deixadas pelas representações, incorporadas como oficiais, provenientes dos relatos militares, da imprensa da época e da própria historiografia que detrataram, em visões preconceituosas desprovidas de análise social e cultural, os sertanejos e sua resistência, imprimindo ao movimento sinais de barbárie e fanatismo.
    Desconstruir tais imagens e interpretações é o que faz Nilson Fraga aglutinando cada vez mais pessoas em seus projetos (como alunos, novos pesquisadores e moradores dos municípios) inclusive nos eventos críticos de rememoração do fim da guerra, elaborados e organizados por ele; bem como, cobrando de instituições e autoridades municipais e até federais a responsabilidade para com injustiçados do presente e do passado. Tais práticas, além de ultrapassarem o âmbito acadêmico, por vezes distanciado da realidade das pessoas que habitam hoje áreas de conflito no passado, são de fundamental importância para que o Contestado seja liberto em diversos aspectos, sonho e, ao que parece, projeto de vida do próprio autor.

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