Série Pose é tudo o que sempre falamos sobre representatividade trans

Por Neto Lucon

Pose é a série norte-americana exibida pelo canal FX desde junho deste ano que está dando o que falar em todo o mundo. Criada por Ryan MurphyBrad Falchuck e Steven Canals, ela traz o número mais expressivo de personagens e artistas trans trabalhando, além de tratar o tema com extrema sensibilidade, respeito e relevância.

A trama se passa em 1986 e evidencia o enfrentamento e resistência de mulheres trans negras numa Nova York cujas noites encantavam pelas luxuosas ballrooms, bailes em que pessoas LGBT disputavam troféus ou o título de legendary nas categorias de vestimentas ou de dança. Mas que também evidenciava o lado cruel da transfobia, seja no seio familiar, trabalho, comunidade gay, relacionamentos, além do boom da aids, suas mortes e medos.

A série é tudo o que sempre falamos sobre representatividade trans. Ou seja, o ato de artistas trans estarem presentes, terem oportunidade de mostrarem o seu trabalho e serem empregadas por suas habilidades – ainda que equivocadamente a discussão tenha ganhado a imprensa hegemônica como o direito de artistas cis interpretarem ou não personagens trans. É sobre incluir artistas trans, pois artistas cis já estão dentro da máquina.

Em Pose, a representatividade é de fato trans. São cinco personagens trans que brilham logo nos primeiros episódios. Dentre elas está Elektra Abundance, interpretada pela atriz Dominique Jackson. Ela é uma mulher transexual veterana que lidera uma casa que acolhe mulheres trans e homens gays ou bissexuais cis expulsos de casa. Com rosto, olhar e atuação extremamente expressivos, Dominique consegue mostrar as camadas da personagem, que vai da megera que faz de tudo para vencer os campeonatos até o sonho interrompido de realizar a cirurgia genital.

Outro ponto alto está na protagonista Blanca Rodriguez Evangelista, vivida com muita maestria por Mj Rodriguez. Ela é uma das filhas de Elektra que resolve mudar de vida e abrir a própria casa depois que descobre ser soropositiva. A saída da antiga casa e o surgimento de uma nova turma nos concursos implicará em grandes embates e momentos. É uma personagem humana, sensível e forte. E Mj é um arraso de atuação e voz – sim, ela chega a cantar em um dos episódios. E por falar em música, a trilha sonora é ótima!

Sentimos contudo a ausência de personagens e atores homens trans. No sexto episódio houve uma rápida aparição do modelo trans Laith Ashley, como um dos gostosões do clube. Pode ser um sinal de que nos próximos episódios e na próxima temporada (sim, ela acaba de ser renovada), eles sejam escalados e preencham a lacuna.

TRANS AFETIVIDADE

Engana-se, contudo, quem pensa que a série se limite nos bafos dentro dos bailes – o que por si só já seria incrível, pois há muita gente que pensa que Madonna inventou Vogue. Pose também aborda temas relevantes que ajudam a traçar um perfil de como era a realidade de pessoas trans no período. Angel Evangelista, interpretada pela atriz Indya Moore, expõe a vida amorosa de uma mulher trans.

Ela trabalha como profissional do sexo e vive um amor conturbado com Stan Bowes, vivido pelo ator cisgênero Evan Peters. O rapaz é casado, faz um programa sexual e se vê completamente envolvido por Angel. Porém teme deixar a esposa cis e ter a carreira profissional prejudicada. Angel aceita num primeiro momento, faz algumas exigências, até que a situação começa a ficar insustentável.

Ainda sobre representatividade trans, é impossível não pensar que, se fosse em qualquer outro trabalho, pensariam em escalar o ator cis Evan Peters para viver a Angel. E a atriz Indya não estaria na obra ou estaria no máximo em uma personagem secundária, como uma amiga que aparece vez ou outra. É só ver casos e obras anteriores e as justificativas de que seria importante escalar um ator conhecido para a visibilidade e os elogios e prêmios pela atuação, ainda que a performance caísse em estereótipos.

Imagine perder a oportunidade de conhecer o talento de Indya ou de qualquer outra atriz trans em Pose? Imagine perder a possibilidade de conferir a projeção e o sucesso que uma artista trans poderia ter pela primeira vez? Ou então perder a contribuição de mostrar um artista de Hollywood, conhecido por filmes como X-Men, beijando e amando uma mulher trans? Afinal, demonstrar que a transafetividade é possível, ocorre na vida prática e que precisa ser encarada com sensibilidade, sem piadinhas ou estereótipos, é importante.

TEXTO PROFUNDO

Neste sentido, a série também acerta em chamar pessoas trans para escreverem e fazerem parte do processo criativo. Uma das responsáveis é a militante trans Janet Mock – a primeira mulher trans negra a escrever e dirigir uma série de TV – e Our Lady J. O resultado é um texto mais enriquecido de conhecimento com toque de experiência, delicadeza e profundidade.

Tanto em que uma cena em que a mulher de Stan, Patty (Kate Mara), pede para ver o genital de Angel para comprovar que ela é uma mulher transexual, Angel diz: “Se quer ver quem eu sou, meu genital é o último lugar que deveria olhar”. Ou então quando Elektra diz: “Sou quem sou porque sei quem sou. E me recuso a deixar qualquer outra pessoa dizer o contrário”.

Além disso, aborda as inseguranças e tratamentos de beleza, nem sempre confiáveis e de resultados satisfatórios, que muitas das mulheres trans passavam (e ainda passam). Enquanto Angel entra em crises ao se comparar à esposa cis do amado, Candy (Angelina Ross) sofre por não ter curvas e ser ignorada nos concursos.

Pose evidencia ainda que o inimigo transfóbico nem sempre está do outro lado. Em um dos episódios, Blanca vai a um clube gay, mas é convidada a se retirar. O gerente é chamado e pede para ela ir embora, pois se trata de um espaço para homens gays. Em outro dia, ela retorna ao espaço, mas é agredida e retirada por policiais. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

HIV, TRANSFOBIA E OUTROS TEMAS

A comunidade gay cis também pode se sentir representada na série. Há o carismático e talentoso personagem cis Damon Rich (Ryan Jamaal Swain), que evidencia o drama e sonhos de um adolescente que é expulso de casa quando os pais descobrem que ele é gay.

Damon almeja ser bailarino e encontra Blanca no percurso, passando a morar no espaço Evangelista. A relação dos dois mostra a construção de novas famílias, o afeto que estabeleceram na dor e a resistência par anão deixar dos sonhos. O personagem também tem suas primeiras experiências amorosas e sexuais, sendo que o par romântico é Ricky (Dyllon Burnside).

Outro personagem cis gay que tem conquistado o público é Pray Tell, interpretado pelo ator Billy Porter. Ele é responsável por apresentar as competições, tem pensamento rápido, é debochado, mas na vida particular vive o drama de ter todos os seus namorados vítimas da aids.

Aliás, a temática do HIV evidencia como o vírus era encarado no início, como atravessou a comunidade LGBT e como os tratamentos contribuíam para a morte rápida dessas pessoas. Na série, Pray cuida de um namorado que está debilitado e decide, depois de muitos meses, também fazer um teste.

Com muita emoção, lágrimas, diversão e esperança, Pose é símbolo de resistência, ressignificação, história e orgulho. Vai para ela o título de legendary.

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