Sentados sobre um barril de pólvora

Por Rita Coitinho, para Desacato. info. 

Quando criança ganhei um livrinho chamado “Dois idiotas sentados cada qual no seu barril…”, de autoria de Ruth Rocha e desenhos hilários de Jaguar. O livrinho era uma metáfora da Guerra Fria, coisa que eu só fui compreender adulta, lendo-o para os meus próprios filhos.

A história trata de dois vizinhos, um grandão e um magrinho, um de roupa azul e outro de roupa vermelha, cada um sentado sobre um barril de pólvora. Começam a discutir porque cada um tem uma vela acesa na mão e, se ela cair, pode botar fogo em tudo. Nenhum dos dois quer apagar sua própria vela, mas deseja que o outro o faça. A cada insulto trocado, mandam os filhos buscarem mais alguma arma, mais bombas, mais pólvora, até que vem o desfecho óbvio em que, numa troca de tapas, as velas caem e tudo vai pelos ares. As crianças dão boas risadas… Eu, já bem grandinha, fico de cabelo em pé a pensar em Donald Trump e os arsenais nucleares estadunidenses, capazes de destruir a Terra, se não me engano, 36 vezes – sempre me pergunto qual a racionalidade de se ter um arsenal capaz de destruir o planeta mais de uma vez, mas bom, isso leva à corrida armamentista, à indústria de armas etc., um tema bom para outro artigo em um outro dia. De qualquer modo, são muitas as vezes em que nosso planetinha, o único de que dispomos para viver e criar nossos filhos, netos, bisnetos etc. pode ser destruído se o senhor Trump apertar um certo botão que, diz ele orgulhosamente, “é bem grande e funciona”.

O livrinho da Ruth Rocha, que é mesmo muito divertido, contém um erro histórico fundamental: os arsenais do vermelhinho de boina e do azulzinho de cartola não eram idênticos. O azul, os EUA e seus aliados, possuíam um arsenal imensamente maior, embora o vermelho (a URSS) tenha direcionado grande parte de sua energia criativa, recursos naturais e humanos para ter, ele também, um arsenal de respeito. Era uma questão de sobrevivência. O desfecho da Segunda Guerra Mundial demonstrava que seria a URSS o próximo alvo do ocidente capitalista. Os “aliados” ocidentais nada fizeram logo que a Alemanha anexou a Polônia e invadiu a URSS. Só entraram decisivamente na guerra contra os nazistas após a ocupação (em tempo recorde) da França. Os EUA, aliás, nem assim. Somente depois de Pearl Harbour é que Roosevelt pôde ter uma desculpa para que o Congresso dos EUA aprovasse a participação do país na guerra. Até então apenas lucravam vendendo armas, carros, aviões e tanques. Há quem diga, aliás, que Roosevelt era ainda mais esperto do que a história pinta. Já estava de olho na futura reconstrução da Europa, um imenso programa de investimentos que tanto ajudou a economia dos EUA a partir dos anos 1950.

O “desembarque na Normandia”, propagandeado como a razão da vitória dos Aliados sobre os nazistas, só ocorreu quando a URSS já derrotara as forças alemãs às custas de milhões de vidas soviéticas. A guerra já estava no fim quando os exércitos do Japão desembarcaram no continente e foram combatidos pelo já desgastado Exército Vermelho. Os EUA só intervieram quando os japoneses já estavam derrotados, jogando em Hiroshima e Nagasaki duas bombas atômicas, que arrasaram as cidades e ceifaram milhares de vida de um país já rendido, apenas para exibir seu poderio atômico.

Conto tudo isso para dizer que o magrinho vestido de azul do livrinho da Ruth não tinha o mesmo arsenal do grandão de vermelho e a distância só aumentou depois do final da Segunda Guerra. E que esse descompasso persiste, até os dias de hoje, e ainda por cima não temos mais o grandão vermelho para equilibrar o jogo. Alguém argumentará que a China é vermelha e muito poderosa e que a Rússia ainda tem o seu arsenal. É verdade. Mas nenhum dos dois países tem o poder militar dos EUA, ainda mais se juntarmos aos EUA todos os seus aliados da OTAN, a maior organização terrorista em ação no mundo. Se há um arsenal que a humanidade deve temer é este que está ligado ao botão “grande que funciona” de Donald Trump.

No momento em que escrevo este texto, ocorrem em todo o mundo batalhas em que os EUA e a OTAN estão envolvidos. O comércio de armas prospera como sempre, alimentado pelos conflitos na Síria, nos territórios Palestinos invadidos por Israel, na Líbia, no Afeganistão, no Iraque. Há grupos armados aterrorizando populações inteiras no continente africano, sob o olhar cúmplice da Europa, que até os anos 1970 dominava o continente e retirou-se deixando como herança fronteiras artificiais que não respeitam povos, culturas e tradições. Há milícias paramilitares com armamentos estadunidenses e israelenses perseguindo ex-combatentes das FARC que, cumprindo os acordos de paz firmados, abandonaram suas próprias armas. E há preocupação na Venezuela de que, logo mais, o presidente boquirroto de topete mande para lá seus drones e mísseis de alto impacto para garantir petróleo e minérios para seu consumo. As ameaças são recentes, e muito graves.

É ali ao lado a Venezuela. Quem sabe, diante de um perigo tão grande, o povo brasileiro perceba que é preciso, urgentemente, unificar esforços pela paz. Como primeiro passo, impedir que este governo golpista, aliado dos EUA, conceda apoio a mais essa aventura belicista.

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Rita Coitinho é socióloga, doutoranda em geografia e membro do Conselho Consultivo do Cebrapaz.

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