Semeando ideias. Por Edna Garcia Maciel.

O objetivo desta coluna é incentivar a leitura. Uma tarefa impossível? Penso que não. Se conseguir conquistar um ou outro leitor, já valeu a pena. Os escritos apresentados serão escolhidos segundo alguns critérios indicados e, nessa condição, conta a relevância do autor quanto à contribuição ao difícil processo de desvelar o mundo dos homens com seus escritos literários.

Imagem: Academia Brasileira de Letras

Por Edna Garcia Maciel, para Desacato.info.

Ideias são como plantas. É preciso semeá-las. Às vezes, elas florescem mesmo em condições adversas. Muitas não vingam. As ideias, como as plantas, só criam raízes quando são cultivadas. É trabalhoso ter pensamentos próprios. Mais fácil é adotar ditos alheios, ouvi dizer, ou modernamente, vi na televisão, li sobre o assunto nas mídias que publicam coisas sem cessar. Uma fonte inesgotável de ideias pode ser encontrada na literatura, seja impressa ou eletrônica. Não importa.

Decisivo é a escolha do autor. Como eleger este ou aquele escritor em meio à grande quantidade de publicações? Penso que os livros literários, ou de outras naturezas, devem ser selecionados tais como jóias raras, não de um modo qualquer, pois a grandeza de cada escritor está nas respostas que ele dá a questões humanas que a sociedade lhe impõe. Toda pergunta pode ser feita em qualquer contexto, nem que seja por um “par de mulas”. As respostas é que são mais difíceis de encontrar.1

Sob esse prisma, a obra não passa de uma espécie de instrumento óptico oferecido ao leitor2. Não foi assim que Galileu Galilei3, com seu telescópio, demonstrou que a terra, além de ser redonda, girava em torno do sol? E, com isso, quase ardeu na fogueira da Inquisição no século XVIII, porque colocou em questão o conhecimento escolástico e, desse modo, as relações sociais que impediam o avanço da ciência, ou seja, da própria história. Personagens, paisagens, dilemas, tragédias humanas, dentre outros procedimentos utilizados em certos escritos literários, são apreensões de parte do mundo real. Neste sentido, constituem fonte preciosa da arte de pensar.

Por fim, ter ideias próprias pode ser muito perigoso em meio ao obscurantismo que assombra nosso tempo. Elas podem ser caminho de perdição. Brecht (2012)4, em seu poema, “No nascimento de um filho” , diz: Famílias, quando lhes nascer um filho/Façam votos de que seja inteligente/Eu que pela inteligência arruinei minha vida/Posso apenas desejar/Que meu filho se revele/Parvo e tacanho/Assim terá uma vida tranquila/Como ministro do governo.

O que há de comum entre Machado de Assis e Bertold Brecht? Embora em formas diferentes – um poema, e um conto -, e de serem escritos em épocas distintas -, ambos, se referem à pequenez intelectual que geralmente constitui a marca de homens “bem-sucedidos”, sem nenhum esforço, que pertencem ao seleto mundo da classe dominante, e que são imitados, copiados e amados pelos frívolos da sociedade.

MACHADO DE ASSIS: TEORIA DO MEDALHÃO

Machado de Assis, em seu irônico e magnífico conto, “Teoria do Medalhão”6, narra um diálogo entre pai e filho, no dia em que este completa vinte e um anos. Nesse mesmo dia, o zeloso pai expõe ao seu “Janjão”, o que ele precisa fazer para ser um homem de sucesso, em meio à elite da sociedade escravocrata do século XIX. Diz que a vida é uma loteria e que os prêmios são poucos. Na vida, filosofa o zeloso pai, há os que se revoltam e praguejam, mas o segredo consiste em aceitar as coisas como elas são. Desse modo, o pai, protagonista deste conto, expõe ao filho que ele pode, dentre as infinitas carreiras, escolher uma. O mais importante é que se faça grande e ilustre, ou pelo menos, notável.

Diante da curiosidade do jovem, o pai explica-lhe que nenhum ofício é mais útil do que o “Medalhão7”. Mas para ser um deles, é imprescindível não ter ideias próprias. Para vencer esse difícil obstáculo, diz que é necessário submeter a mente e o corpo a um regime debilitante como evitar exercícios físicos, – com exceção do bilhar -, e passar longe das livrarias, fugir da solidão, do terreno propício à oficina de ideias. Trata-se de um conto paradoxal8 pois, indica um ofício, mas a pessoa não tem que trabalhar. Basta apenas manter as aparências, com um discurso visível, porém, vazio. Não é isso que muitos nada fazem e vencem na vida, sem nenhum mérito?

Com tal regime debilitante, diz o genial Machado de Assis, pode-se reduzir o cérebro, por mais inteligente que seja, ao senso comum e à moderação, características inerentes aos medíocres. Desse modo, o vocabulário precisa ser simples, apequenado e sem tons vermelhos e sem sons de clarim. Instigante! Faz-nos pensar sobre crianças de tenra idade e adolescentes que, nestes tempos, com consentimento dos pais, não conseguem ficar longe de smartfones, de games e assemelhados. Os jovens não suportam a solidão. Acham-na tediosa. Tudo lhes parece sem sentido quando não estão plugados, ou melhor, online. Não tem gosto pelo exercício físico, nem pelo ócio e fogem o quanto podem, dos livros, tal como recomenda o protagonista de Machado de Assis.

Mas, prossigamos. Além das ideias ditadas pelo senso comum, o Medalhão, se for necessário, pode adornar seu morno discurso, com o emprego de figuras expressivas como a hidra de Lerna, a cabeça de Medusa, o tonel de Danaides, as asas de Ícaro e outras que românticos, clássicos e realistas utilizam no seu desar9, em sentenças latinas, ditos históricos, versos célebres, brocardos jurídicos, máximas. O autor recomenda que é bom tê-las em sua memória para discursos de sobremesa, de felicitações e de agradecimentos.

Para Machado de Assis, o Medalhão precisa aprender a arte de pensar o pensado, ramo do conhecimento humano onde tudo está achado, formulado, rotulado e encaixotado. Ao invés de fazer um estudo científico, ou um tratado sobre as leis que regem a sociedade, o Medalhão diz em seu discurso retórico: antes de reformar a sociedade, reformemos as pessoas, frases consagradas que evitam esforço mental e inútil dos ouvintes. O Medalhão ama a denominação, mas evita o processo do conhecimento científico. Ao invés de pesquisar sobre criação de ovelhas, por exemplo, ele compra uma e a oferece em forma de jantar aos amigos.

Será que Machado de Assis teve uma intuição sobre o que seria o conhecimento na era digital? Chama especial atenção seus conselhos, principalmente quando se pode verificar que, nas últimas décadas, pode estar ocorrendo uma espécie de simplificação do saber. Tudo pode ser resumido, sintetizado e formatado. Não é por acaso que se alastra a ideia do professor tipo show man. Dizem que um bom professor precisa estimular o aluno, motivá-lo, seduzí-lo, como se o longo e trabalhoso processo de aprendizagem não fosse uma obrigação do aluno. Parece que a proposta de que o professor deve ser um facilitador da aprendizagem acabou vingando. Mais fácil e rápido é ler manuais, ao invés de ir às fontes, aos livros clássicos. Mais modernamente, utilizar a internet. Resumos, vídeos, sínteses e lives, são muito bem aceitos, sobretudo os de curta duração.

Também, consta da teoria do Medalhão, que na política, pode-se pertencer a qualquer partido: liberal, conservador, republicano, ou de outros naipes, desde que tenham utilidade, algo próprio do pragmatismo. Na tribuna do parlamento, é recomendado que o discurso do Medalhão seja focado nos negócios miúdos e nos interesses próprios. Tal procedimento evita a imaginação. Para não perder o prumo, o Medalhão pode, e deve recorrer sempre, à metafísica política. A metafísica é a porção idealista, por conseguinte, muito apreciada. Ela é o adjetivo que adorna as frases. O substantivo, ao contrário, define a dura e cruel realidade. Por isso, precisa ser sempre evitado.

Talvez, a grande maioria dos políticos modernos, tenham aprendido muito com este memorável conto. Ainda assim, ficam aquém do Medalhão machadiano, que em sua vulgaridade, é charmoso, elegante e apreciado por seus pares. Atualmente, a dissimulação, uma das características própria dos medíocres, parece ter sido banida no campo da batalha política. Sobraram vilezas, grosseria descortesias, falastrões e impostores.

Por fim, diz o grande escritor: um Medalhão político jamais deve empregar a ironia10. Pelo contrário, deve usar “a chalaça11, nossa boa chalaça amiga, gorducha, redonda, franca, sem biocos12, nem véus, que se mete pela cara dos outros, estala como uma palmada, faz o sangue pular nas veias e arrebentar de risos os suspensórios. Em qualquer situação, diz o escritor, Medalhão autêntico não pode nunca transcender os limites de uma invejável vulgaridade. E, assim, o conto termina com o pai dizendo ao filho que o que lhe ensinou no dia de sua maioridade, vale um tratado de Maquiavel13. Simplesmente fabuloso!

UM POUQUINHO DA BIOGRAFIA DE MACHADO DE ASSIS (1839-1908)

Nasce em 21 de junho de 1839, no Morro do Livramento, Rio de Janeiro. Pobre, descendente de escravos, mestiço, gago e epilético. Sai de casa aos 16 anos. É acolhido por uma família aristocrática dos subúrbios do Rio de Janeiro, que lhe proporciona condições para fazer carreira como funcionário público civil, no tempo Imperial. Mas, Machado de Assis, nunca perdeu a ambição de ser um escritor de sucesso. No campo literário, teve apoio de José de Alencar. Casa-se com uma moça acima de sua classe social. José de Alencar (1829- 1887) falece aos 48 anos. Dizem que Machado de Assis é sucessor desse famoso escritor do romantismo brasileiro. Porém, Machado de Assis é considerado o pai do realismo no Brasil, pois defende ideias de que o escritor deve ser fiel ao sentimento de seu tempo e à realidade de seu país.

Com sua espantosa criatividade, escreve 200 contos antes de completar quarenta anos. Apenas em uma década, de 1877 a 1888, escreve oitenta contos. Além de contos, escreve muitos livros. Seu primeiro romance “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, foi publicado em 1880. Nessa época, o conto está se afirmando no Brasil, e também, no mundo.

Machado de Assis, mistura o frívolo, o sério, o local e o universal. Também, pilhérias e humor. Mas, é com a ironia sutil e rebuscada que ele mostra, sem dúvida, sua genialidade (Gledson, 2007). Na verdade, ele a utiliza como arma na luta contra o obscurantismo de seu tempo. Também, recorre à paródia em seus vários contos. Com esses recursos faz um retrato da sociedade brasileira. Seus romances “bemeducados” cedem vez à sátira quase selvagem no romance “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de 1870, em que o adultério, a prostituição, a escravidão e o tratamento dado aos escravos são temas praticamente proibidos.

Machado de Assis recorre ao irônico, ao sarcástico, ao semioculto, a formas de expressar acontecimentos que não podiam ser ditos por meio de seus personagens e de peculiaridades que marcam o tempo em que vive. Esse autor magnífico caminha no fio da navalha (Gledson, 2012). A escravidão é sempre o pano de fundo de seus escritos. Machado de Assis desenvolve uma percepção desiludida da moralidade humana, da classe dominante que conhece muito bem, devido à posição social. Egoísmo, vaidade, traição, negócios escusos, prostituição, dentre outros, são temas de seus inimitáveis escritos. Enquanto permaneceu a escravidão, ele não pôde publicar dois contos: “O caso da vara” e “Pai contra Mãe”, porque ambos, mostravam a violência, a injustiça e a força destruidora das instituições que mantinham a sociedade escravocrata. Só são publicados entre 1891 e 1906, portanto após a Abolição. A maioria dos seus contos e crônicas são publicados no Jornal “Gazeta de Notícias”, no Rio de Janeiro. Carlos Drummond de Andrade diz que: ler Machado de Assis, ‘era uma tentação permanente, quase como se fosse um vício a que tivesse de resistir (Gledson, 2007).

A LITERATURA BRASILEIRA NO SÉCULO XIX

Na metade do século XIX, um leitor do Rio de Janeiro, podia receber livros de Portugal em menos de trinta dias, transportados por navios a vapor, o que equivale hoje, praticamente, ao mesmo prazo de entrega de produtos compradas no mercado eletrônico14. Nessa mesma época, obras de autores brasileiros eram traduzidas para o francês, italiano, latim e o russo. É o caso de “Marília de Dirceu”, de “Tomás Antônio Gonzaga” (1744-1810) e de o “Guarani”, de José de Alencar (1829-1877).

No período Imperial, é proibido imprimir livros no Brasil. Entretanto, escritores brasileiros enviavam seus escritos a muitos livreiros portugueses que os traduziam, imprimiam e os enviavam de volta ao nosso país. Por conseguinte, o Brasil, em termos literários, está em sintonia com países da Europa. O “Dossiê: Escritores Esquecidos do Século XIX”, 201715, produzido por pesquisadores da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, revelam que o Brasil Colonial possui uma literatura única, valiosa e própria desde a metade do século XIX. A literatura brasileira caminha, passo a passo, com a dos países europeus. Em decorrência desses fatos, os pesquisadores afirmam que fica indefensável o paradigma tradicionalmente aceito sobre suposto atraso e dependência culturais em relação de países aos dos europeus. Escritores brasileiros eram lidos em outros países, assim como, os brasileiros podiam ter acesso aos livros estrangeiros.

Indicações de leitura:

“Machado de Assis: Vida e Obra”. A obra completa de Machado de Assis, revisada, digitalizada e gratuita, está disponível no endereço http://machado.mec.gov.br/. Resultado de um trabalho feito em parceria, entre o Portal Domínio Público, a Biblioteca Digital do MEC, e o Núcleo de Pesquisa em Informática, Literatura e Linguística (NUPILL), da Universidade Federal de Santa Catarina.

1 Gledson, John. O Espelho. In: 50 Contos: Machado de Assis, São Paulo, Editora Companhia das Letras, 2007. p 12.

2 Proust, Marcel. O Tempo Redescoberto. Editora Globo, 2013. 3ª. ed., v.7

3 Galileu Galilei (1564-1642) foi um matemático, físico, astrônomo e filósofo italiano. Fundamentou cientificamente a Teoria Heliocêntrica de Copérnico. Desmitificou lendas, estabeleceu princípios e causou uma revolução na história da Ciência.

4 Brecht, Bertold. No nascimento de um filho. In: Bertold, Brecht. Poemas: 1913-1956. São Paulo, Editora 34, 2012. 7ª ed., p. 190.

5 http://machado.mec.gov.br Acessado em 13/09/2020.

6 Segundo o Dicionário Houaiss, em sentido figurado, medalhão é pessoa importante; figurão: medalhão da política brasileira.; quem recebe destaque sem o merecer ou sem possuir qualificações necessárias para o possuir. Acessado em 13/09/2020

7 Segundo o Dicionário Houaiss, em sentido figurado, medalhão é pessoa importante; figurão: medalhão da política brasileira.; quem recebe destaque sem o merecer ou sem possuir qualificações necessárias para o possuir. Acessado em 13/09/2020

8 Vídeo sobre Direito & Lieratura – Teoria do Medalhão, de Machado de Assis, de 1881. 4 de dezembro, vídeo enviado por TV e Rádio UNISINOS. Visto em 10/09/2020. Vídeo https://www.youtube.com/watch?v=h-F9kGnu-e8

9 Segundo dicionário Houaiss: brocardo é sinônimo de aforismos, máximas, provérbios, rifões, sentenças. Acessado em 12/09/2020.

10“esse movimento ao canto da boca, cheio de mistérios, inventado por algum grego em decadência, contraído por Luciano, transmitido a Swift e Voltaire, feição própria de céticos e desabusados”.

11 De acordo com o dicionário Houaiss: pilhéria, dito zombeteiro e picante. Caçoada grosseira.

12 No Dicionário Houaiss, o significado de bioco: sem véu ou mantilha com que algumas mulheres cobriam a cabeça e parte do rosto.

13Nicolau Maquiavel (469-1527), é italiano, natural de Florença. Seu livro mais conhecido é “O Príncipe” (1513), onde expõe seu pensamento político, cujo objetivo de seu personagem é conquistar e manter o poder, no período renascentista. maquiavelhttps://educacao.uol.com.br/disciplinas/filosofia/maquiavel-a-politica-e-o-principe.htm. Acessado em 14/09/2020.

14 Alisson, Elton. A literatura brasileira no século 19 circulava pelo mundo. Pulicado em 19/09/1012. https://exame.com/casual/literatura-brasileira-no-seculo-19-circulava-pelo-mundo/. Acessado em 8/08/ 2020.

15 Dossiê: Escritores Esquecidos do Século 19. Revista SOLETRAS – Revista do Programa de Pós-Graduação em Letras e Linguística – PPLIN, Faculdade de Formação de Professores da UERJ, Número 34 (julho-dez. 2017). Organizadores: Leonardo Mendes, Maximiliano Torres e Peggy Sharpe.
A opinião do/a autor/a não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.
Edna Garcia Maciel é natural de Igarapava, São Paulo. Foi professora e pesquisadora da UFSC. Doutora em Educação. Atualmente, participa do Núcleo de pesquisa Transformações no Mundo do Trabalho, da UFSC. Livros literários são parte do seu viver.

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