Saúde como autogestão e resistência III

Saúde

Por Rodrigo Cruz Gagliano.

Quando o estado toma o lugar central da nada santa igreja católica, na formulação do mundo que será chamado de moderno, a partir das imposições militares, econômicas e culturais – leiam-se genocídios, guerra, pilhagens, estupros, etc., etc. – para o resto do planeta, a ciência toma o lugar da religião como portadora da verdade, os cientistas substituem os padres, como o novo clero. Discurso verdadeiro e autoridade, prestígio e dominação, manipulação e submissão, que é aceito por quase todos. A ciência será o grande instrumento dos empoderados/poderes na construção dessa cultura suicida em que vivemos e que é insustentável para os seres e o planeta.

Para autogestionarmos nossa saúde e resistirmos aos discursos verdadeiros das autoridades, para podermos nos empoderar e desacatarmos as autoridades, precisamos entender alguns detalhes do que se faz nas ciências.

A instituição ciência tem um discurso sobre si mesma como algo objetivo, isto é, apolítica, desinteressada, altruísta – isso ficou mais fortemente arraigado desde ao menos o positivismo e as excrescências filosóficas comteanas (Auguste Comte) –, mas, como toda e qualquer instituição é totalmente política, se orienta pelos valores dos que a sustentam ($$$$$$$) e nada tem de benemérita, incluindo as ciências médicas e seus construtores-participantes, esses, na sua maioria, vendilhões da saúde humana. Os grandes impulsos científicos sempre vieram dos estados e suas guerras. Nossa medicina, por exemplo, é uma medicina de guerra: sabe apenas, nisso ela é realmente boa, cortar e colar, puro procedimento de açougue, fora desse âmbito, nada mais tem a dizer. A benemerência da ciência é um logro, uma distorção hegemônica, dominante e ideológica.

Os cientistas chafurdam na lama das ideologias e hierarquias sociais e mentais, talvez, como quase todos nós, com a diferença que tentam mandar essa discussão para debaixo do tapete, isso protege seu fazer e discursos de verdade e a si mesmos.

Uma das coisas que comumente se sustenta no mundo científico é que haveria um senso comum, isto é, a sabedoria insapiente do povo, das pessoas não-cientistas, baseadas em crendices e muito pouco além, e o senso científico baseado na verdade porque possui métodos rigorosos de observação para a apreensão da realidade. Esse jogo quimérico apenas reforça o discurso de verdade sobre a ciência e relega ao reles toda e qualquer coisa que não seja uma formulação dessa mesma ciência.

Vejamos um pouco mais isso: qualquer pesquisa médica – e ficaremos nesse âmbito – ainda que conte com muitos recursos é sempre estreita, parcial, interesseira e sem testes de longo prazo, é não-geracional uma vez que, no nosso mundinho feio, tempo é dinheiro. Surgem remédios com testes de segurança limitadíssimos, em que, na prática, transformam as pessoas em meras cobaias, se não o fazem antes, a custa da morte e tortura, com vários outros animais. É preciso lembrar de que por mais semelhante que seja o corpo de um animal ele é suficientemente distinto do nosso para reagir diferentemente a um mesmo químico. Os médicos nem acompanham isso: a indústria farmacêutica, com seus representantes comer$$iais, fazem propaganda de seus remédios, quando essas indústrias não pagam comissão, de variadas formas, até presentinhos, para os médicos receitarem suas drogas. Drogas que miram sintomas sem mudarem causas das doenças e, não poucas vezes, com efeitos colaterais gritantes e terríveis, ou silenciosos de longo prazo. Os médicos viram administradores de doença, levando-nos a vida embora, oferecendo-nos apenas sobrevida. As pessoas, hoje, acham que ficar doentes é coisa natural. Espera-se que pessoas com 50 anos já tenham acumulado uma série de doenças. E não precisa ser assim!!

Já o nosso conhecimento popular é coletivamente desinteressado, anônimo, de muitas gerações e, portanto, mais seguro, o que, de modo nenhum quer dizer infalível. A humanidade vai tateando no conhecimento da natureza. Estamos no terreno da margem de segurança. E os cientistas sabem disso. Tanto que primeiro eles desprestigiam os conhecimentos populares como o chazinho da vovó, dos pajés, etc., depois levam esses conhecimentos para o laboratório e os reeditam sobre outro pacote. Ganham muito dinheiro e retiram das pessoas a possibilidade de autogestionarem a saúde, seja de modo individual, seja de modo das pequenas coletividades. Bloqueiam os fazeres populares em prol da saúde como exercício ilegal da medicina. Novamente o estado (seja ele de que tipo seja, comunista ou capitalista) entra com toda sua usurpação e autoritarismo para proteger os interesses dos empoderados, seja a burguesia, sejam os vanguardistas, leia-se burocratas, do partido único.

É preciso se insurgir quanto a isso. Romper com a cultura do remédio. Revoltar-se. Ouvir o próprio corpo, disciplinar-se para evitar as miragens da indústria médica, farmacêutica e de alimentos, do estado. Trataremos disso no próximo texto.

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