São Miguel do Oeste: Segurança Pública “para quê e para quem?” gera debate na Câmara de Vereadores

 Eliezer Claudia 2

 Por Claudia Weinman, para Desacato.info

 

Geradora de polêmica, a discussão sobre a Segurança Pública reuniu diversas entidades, órgãos de segurança, movimentos e pastorais sociais na noite de terça-feira, dia 04, na Câmara de Vereadores em São Miguel do Oeste

 

Discutir o tema da Segurança Pública gera desconforto e preocupação a comunidade. Na noite de terça-feira, dia 04, o assunto foi colocado em pauta durante Audiência Pública, na Câmara de Vereadores de São Miguel do Oeste, por meio de uma proposição da Vereadora Maria Tereza Capra (PT) e vereador Juarez da Silva (PT). Representantes de diversas entidades e órgãos ligados a Segurança Pública do município, bem como comunidades, movimentos, organizações e pastorais sociais participaram do debate.

A principal questão levantada pela população retoma a reivindicação dos movimentos sociais e associações dos moradores – “Segurança para quê e para quem”? A pergunta segundo o que foi debatido, refere-se aos índices de criminalização dos jovens, violência contra a mulher, falta de investimentos e aplicação de políticas públicas e descaso com a prevenção da violência no município e região. Outra interrogação destacada ao longo da noite refere-se aos investimentos direcionados a interesses onde questionou-se: “Investimentos em cadeias ou em políticas educacionais e cultura para a sociedade”?

Conforme o presidente da União das Associações de Moradores de Bairros de São Miguel do Oeste, Carlos Scariot, a Segurança Pública é dever do estado, no entanto, ele salienta que a população precisa participar das decisões. “Não é possível fazer segurança apenas com autoridades. As pessoas precisam se mobilizar e reivindicar. Me parece que o assunto sobre a Segurança Pública é a última coisa a ser discutida sempre”, enfatiza.

O Juiz da vara criminal da Comarca de São Miguel do Oeste, Márcio Luiz Cristofoli, concordou com algumas colocações da comunidade que retratam a ineficiência dos órgãos de segurança na efetivação de políticas voltadas a Segurança Pública. “Parte da crítica é verdadeira, a justiça nem sempre funciona. Precisamos melhorar a gestão de pessoas, de processos e tornar o serviço eficiente. Nos questionamos o porquê de alguns servidores que exercem a mesma carga horária produzirem menos que os outros e entendemos que isso precisa mudar”, destacou o Juiz.

Durante a audiência pública, participaram também pessoas que sofreram com a perda de familiares em razão da ‘fatalidade’ de Policiais Militares e também jovens e mulheres que passaram por algum tipo de violência. Um dos pontos levantados neste assunto, foi a falta de efetivo policial para investigar os casos. Em contrapartida, outras explanações mostraram que para além de melhorar e aumentar o efetivo, é necessário sobretudo, repensar e educação e a cultura da sociedade.

Em sua fala, o Delegado responsável pela Delegacia da Mulher, José Airton Stang, criticou a falta de efetivo no município e região. Ele disse que em muitos casos as pessoas desistem de procurar a polícia para registrar um boletim de ocorrência porque sabem que não vão ter resultado. Stang citou ainda o projeto que prevê a redução da maioridade penal. “Sou totalmente contra isso. Não vamos ter melhora na segurança aprovando esse projeto”, salientou.

Criminalização dos jovens e mulheres pela mídia

A criminalização dos jovens foi outro ponto destacado durante a audiência. Segundo o jovem que esteve representado o coletivo da Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP) e Pastoral da Juventude Rural (PJR), Eliezer Antunes de Oliveira (foto de capa), principalmente os jovens que residem nas regiões periféricas das cidades sofrem com o preconceito e com a violência.

Oliveira enfatizou que a mídia é um dos meios que mais criminaliza a juventude pobre. “Isso causa uma sensação de insegurança e impunidade. A sociedade midiática se omite e transmite uma visão distorcida da realidade, sem mostrar as causas geradoras dos problemas sociais. Chegamos a um ponto tão cruel que as pessoas acham que podem fazer justiça com as próprias mãos. A humanidade está perdendo a sua humanidade”, argumenta.

Ainda segundo o jovem, a sociedade também se omite em reintegrar aquelas pessoas que em algum momento da vida ‘erraram’. “As pessoas marginalizam demais as periferias. O ex-presidiário sai da cadeia e são poucos aqueles que tem a oportunidade de voltar e ter um emprego. A mesma sociedade que fala em democracia não a pratica”, questiona.

 Vieiro 1 Cláudia 2

Maria Carmen Vieiro, militante dos movimentos sociais, questionou a falta de formação dos profissionais que atendem casos de violência contra mulher

Ao representar os movimentos sociais, a Assistente Social, Maria Carmen Vieiro também fez uma reflexão sobre a falta de formação dos profissionais ao atenderem mulheres vítimas de violência. “O estado não possui interesse algum em discutir a Segurança Pública. Mulheres vítimas de agressão são atendidas por estagiárias que não se dispõe a fazer um bom trabalho. Como vamos avançar desse jeito?”, pergunta.

 Claúdia + Cláudia 2

Cláudia Baumgardt, jovem da PJMP, disse que a sociedade culpa os jovens pelos crimes que acontecem e afetam a Segurança Pública

A Jovem da Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP), Cláudia Baumgardt, reforçou ainda que a juventude é marginalizada e que essa parcela de jovens acaba sendo selecionada para assumir a culpa pela violência que ocorre no país.

Wesley Cláudia 2

O Jovem da Pastoral da Juventude Rural (PJR), Wesley de Souza Padilha (foto acima), complementou enfatizando a necessidade de discutir a cultura e a educação no município, no estado, no país e no mundo e não apenas, reduzir as causas da violência a construção de cadeias.

 

Encaminhamentos

O relógio já marcava quase meia noite quando a audiência foi encerrada. Segundo a Vereadora Maria Tereza Capra (PT), foi elaborada uma ata registrando o momento e todas as demandas serão encaminhadas aos órgãos responsáveis, tanto na esfera municipal, quanto estadual e federal conforme suas competências. Além disso, a realização de um seminário para discutir o assunto também entrará para a pauta da Segurança Pública.

O Vereador Juarez da Silva (PT), também enfatizou que os encaminhamentos serão feitos conforme as suas esferas. “Sabemos que a responsabilidade da sociedade perante esse tema é limitada. Mas vamos buscar meios para mudar esse paradigma”, finalizou.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.