Salvadorenha luta para manter viva memória de vítimas de massacre da guerra civil

Maria Deflina Argueta seria mais uma camponesa e artesã do vilarejo El Mozote não fosse sua determinação de seguir contando a história do mais sangrento massacre contemporâneo da América Latina.

Foto: Rita Camacho

Por Rita Camacho.

Maria Deflina Argueta, 61 anos, seria mais uma camponesa e artesã do vilarejo El Mozote, em El Salvador, não fosse sua determinação de seguir contando a história que fez de seu povoado natal cenário do mais sangrento massacre contemporâneo da América Latina, com quase mil mortos. Em apenas três dias, a partir de 11 de dezembro de 1981, o batalhão de infantaria Atlácatl, das Forças Armadas salvadorenhas, treinado pelo exército dos Estados Unidos, interrogou sob tortura, violentou, matou e queimou os corpos da população de El Mozote e outras pequenas vilas rurais ao norte do Estado de Morazán. Entre os assassinados, estavam mais de 400 crianças.

O pequeno país centro americano (do tamanho do Estado de Sergipe) vivia o primeiro ano de uma guerra civil que durou 12 anos. Os oficiais alegavam que essa população camponesa era colaboradora da guerrilha, que tentava tomar o poder pelas armas depois de décadas de repressão política, extermínio de forças opositoras e eleições fraudulentas. “É muito duro falar sobre a nossa história, mas não queremos que isso caia no esquecimento’”, afirma Maria Delfina, que integra com outras sete mulheres o Comitê Histórico de Guias Locais, que atende aos turistas na praça onde o batalhão comandando pelo coronel José Domingo Monterrosa cumpriu a ordem de deixar “terra arrasada”.

Maria Delfina e seu primogênito somente não engrossaram os números do massacre de El Mozote porque um ano antes se haviam refugiado na vizinha Honduras. Mãe e filho e tantos outros moradores dessa zona deixaram El Salvador assustados com a perseguição e execução de civis pelas Forças Armadas e o esquadrão da morte, responsável pelo assassinato de Monsenhor Romero, então arcebispo de San Salvador e insistente crítico e denunciante em suas homilias, entrevistas e programas de rádio das arbitrariedades do Estado salvadorenho contra todo tipo de oposição política.

Foi por meio da única sobrevivente conhecida do massacre, Rufina Amaya, que Maria Delfina foi informada, no exílio em Honduras, sobre o que tinha passado em El Mozote. “No meu país, tinham Rufina como louca. Até que a comunidade internacional lhe deu atenção, até que defensores dos direitos humanos e jornalistas estrangeiros chegaram ao lugar e começaram a encontrar os esqueletos ou o que tinha sobrado deles. Toda a atrocidade que Rufina contava se confirmava”.

A camponesa Rufina, então com 38 anos, fugiu da tortura e da morte andando de quatro, rompendo parte de seu vestido, camuflada entre os animais do povoado. As mulheres mais jovens tinham sido violadas e mortas. Rufina era a última da fila de mulheres mais velhas, que os oficiais organizaram para matar uma a uma. Numa distração de seus algozes, ela saiu da fila e se escondeu. De trás de uma árvore, podia escutar os planos macabros do batalhão: “Já terminamos de matar os homens e as mulheres, agora só falta esse montão de crianças que ficaram trancadas”. Os oficiais haviam confinado as crianças separadas de seus pais e mães. O filho caçula de Rufina, de 8 meses, ainda mamava no peito. Os oficiais mataram também a seus outros três filhos e seu marido.

Foram oito dias em fuga, assustada, com fome e com sede, encontrando em seu caminho os corpos carbonizados de seus vizinhos. Até que já quase sem forças e convencida de que os oficiais tinham deixado a zona, Rufina se aproximou da estrada e avistou a uma conhecida que vinha caminhando com a filha pequena. Eram parentes de uma família que também havia morrido no massacre. Foi Rufina quem lhes deu a notícia. “Chorei com essa família toda aquela noite”, conta em um de seus depoimentos.

Quinze dias depois do massacre, Rufina deu uma entrevista a estrangeiros (supostamente defensores de direitos humanos) que ela não sabia precisar quem eram. Esse grupo a acompanhou a El Mozote para tentar encontrar seus filhos: “Vimos as cabeças e os cadáveres queimados. Não era possível reconhecê-los. O convento estava cheio de mortos. Eu queria encontrar meus filhos, mas só encontrei as camisas todas queimadas”, relata Rufina.

New York Times e o Washington Post publicaram fotos e textos de seus correspondentes na América Central sobre o massacre. Mas, assim como Rufina, foram acusados de mentirosos. O governo salvadorenho atribuía a notícia a “exageros de jornalistas de tendência comunista”. No ano seguinte, os Estados Unidos, que igualmente fizeram vistas grossas ao ocorrido, renovaram seu aporte financeiro à guerra, que deixou mais de 70 mil mortos.

Em 1990, com o país ainda em guerra, e acompanhada de outras tantas famílias que se haviam refugiado em Honduras, Maria Delfina decide voltar e repovoar sua terra natal. Nesse grupo, regressava também a sobrevivente Rufina, que seguiu denunciando o massacre em entrevistas, em vídeos, em livros: “Sinto um pouco de temor de falar de tudo isso. Mas ao mesmo tempo reflito que meus filhos morreram inocentemente. Por que vou sentir medo de dizer a verdade? Foi uma realidade o que fizeram e temos que ser fortes para dizer. Hoje conto a história, mas naquele momento eu não era capaz. Eu sentia um nó e uma dor no coração que nem falar eu podia. O único que eu fazia era chorar”, desabafava Rufina em seus depoimentos.

Somente depois dos acordos de paz que pôs fim à guerra, em 1992, teve início a exumação dos corpos em El Mozote, apoiada principalmente pela Equipe Argentina de Antropologia Forense. A Lei de Anistia impedia que qualquer pessoa fosse acusada do massacre. No ano passado, com a decretação de insconstitucionalidade da lei, começaram a surgir as primeiras tentativas de estabelecer culpados e novos pedidos judiciais de exumação. O comandante do batalhão autor do massacre, coronel Monterrosa, foi executado pela guerrilha numa emboscada, em 1983. Dez anos depois, um informe da Comissão da Verdade das Nações Unidas reconheceu a responsabilidades dele no massacre.

Rufina morreu de parada cardíaca em 2007, aos 64 anos. “Nós sabíamos que o sofrimento dela tinha sido muito grande. Que ela não ia durar muito, sua saúde estava complicada. E, em 2003, resolvemos formar o Comitê Histórico para seguir contando essa história”, explica Maria Delfina, diante do Memorial às Vítimas, onde cada placa de granito traz o nome e a idade das vítimas já identificadas. “Nosso trabalho é para garantir que El Mozote nunca mais se repita”.

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