Romney já era. O show agora é Obama contra o mundo!

Por Tom Engelhardt*.

Dado que ofereço aqui minha versão de material de campanha, trato de livrar-me rapidamente da conversa fiada.

Ah, sim. Os mais prestigiados palpiteiros das pesquisas de mercado creem que o presidente Obama abriu boa margem de vantagem sobre Mitt Romney a partir das convenções; o Senado tende aos Democratas e só Deus sabe o que acontecerá à Câmara de Deputados. Parece, mesmo, que os Republicanos apresentaram, como candidato, o único homem, em todos os EUA, incapaz de derrotar presidente economicamente ferido e profundamente vulnerável (sem discutir o plantel de candidatos que o presidente enfrentou antes da indicação pelo Partido Democrata).

Em todos os campos que podem controlar, o pessoal de Obama foi mais esperto. Nas convenções, por exemplo: nas duas, o candidato presidencial foi apresentado por figura bem conhecida que subiu ao palco e desempenhou. Um era um velho de 82 anos que falou com uma cadeira vazia (e acho, sim, que foi o melhor que os Republicanos tinham a oferecer, incluída a conversa fiada sobre retirar todos os nossos soldados do Afeganistão); o outro era, bem… Era Bill Clinton. Não deu nem para comparar.

Quanto aos debates vindouros, se você supõe que Romney pode vencer Obama sem sair horrivelmente arranhado, vocês não conhecem um príncipe nigeriano, meu amigo. Em outras palavras, será a conversa de sempre, com a gritaria de sempre dos quaquilhões de milhões de dólares pagos às televisões para difundir os spots de ataques de sempre, que convertem as telas de televisão dos estados indecisos em enlouquecedor instrumento de divulgação de mentiras. Mas mesmo lá, alguns rapazes do dinheiro sujo e dos Super Comitês de Arrecadação podem, é claro, começar a tirar os dólares aplicados em derrotar Obama, passando a aplicá-los em derrotar candidatos Democratas ao Senado. É sinal de que os milionários da direita Republicana temem que a campanha de Romney esteja virando reprise de O Mundo de McCain e que o candidato não passe de versão corporativa de Bain Capital, do wind-surf de John Kerry [1]. Romney, afinal, parece incapaz de abrir a boca sem deixar escapar um zurro; o pessoal da campanha vive em estado de guerra civil; e candidatos Republicanos já pulam fora do vagão – além de vários jornais e comentaristas conservadores.

Hoje, Obama e seu esperto grupo de campanha já poderiam estar descansando em casa, depois de terem enquadrado completamente o desafiante Republicano. Só há um problema: o mundo.

O mundo está virando lugar muito estranhamente pouco acolhedor e cooperativo, para presidente cujo único interesse é dormir para sempre sobre os louros de sua política externa monotemática de matei-Osama.

Governo de gerentões para enfrentar o tsunami

OK. Despachemos Mitt para as Ilhas Cayman, enfiemos Paul Ryan numa conta numerada na Suíça, e concentremo-nos, isso sim, em Obama contra o mundo. Essa é a verdadeira luta que se travará ao longo dos próximos 43 dias. Talvez seja o maior espetáculo da Terra: elenco estelar de extremistas islamistas, militantes talibã, aliados afegãos dedicados a estourar os miolos dos instrutores, diplomatas norte-americanos expostos a risco de vida, um primeiro-ministro israelense embarcado no trem da morte, sóbrios banqueiros da Europa Central e chineses muito incomodados, dentre outras dificuldades.

Nessa situação potencialmente tumultuosa, o presidente e sua equipe iniciam um arriscadíssimo número de caminhar no arame sem rede. Trata-se de conjurar todo o poder e a sabedoria que restem à última superpotência do planeta, para evitar que grande parte do mundo fuja completamente a qualquer controle, o que seria grave embaraço e pode até resultar em Mitt Romney ser presenteado com deleitosa “surpresa de outubro”.

Não esqueçam que, apesar da reputação do presidente como orador visionário, em termos globais o governo Obama nunca foi mais que administração de gerentões. Passou a época dos visionários. Visionários foram os bushistas do primeiro mandato – Bush-filho, Dick Cheney e Donald Rumsfeld, cada um “globalista” à sua moda, e todos eles e seus associados abençoadamente muito errados em tudo que pensavam sobre o poder em nosso mundo. (Subavaliaram, até, o poder destrutivo dos militares norte-americanos, que já destruíram até o próprio poder global que um dia tiveram.) Consequentemente, moveram o timão da nave do estado diretamente para área de icebergs gigantes.

Considerem aquela tripulação de navio fantasma, retrospectivamente, como os três patetas do delírio geopolítico. A invasão e a ocupação do Iraque, em particular – e a húbris que acompanhava já a própria ideia de uma “guerra global ao terror” – foram atos de rematada loucura, que ajudam a explicar por que o governo Bush foi assunto proibido na recente convenção dos Republicanos (evidentemente também não falaram sobre “nossos rapazes” no Iraque). No processo, moveram seus canhões diretamente para o coração gerador de toda a energia do planeta, deixando ditadores amigos locais sem ar, sem saber se acordariam vivos na manhã seguinte. Desde 2009, os gerentões do governo Obama só fizeram o que gerentões fazem de melhor: tentaram organizar a disputa pelas cadeiras de convés do Titanic-EUA. Pode-se chamar de “gerenciar o legado de Bush”.

O problema é que em grande parte do mundo, a velha ordem, ligada ao esquema de coisas da Guerra Fria, afinal começou a mudar. Uma combinação de invasões à Bush no coração da Eurásia, e o modo como o setor financeiro dos EUA atirou-se ao planeta como urubus à ultima carniça, com vasto esquema “pirâmide” de derivativos financeiros, muito ajudou a promover o processo, sobretudo na região que os neoconservadores gostam de chamar de “o arco de instabilidade” (antes de eles mesmos terem conseguido fazer estarrecedora demonstração do que é, mesmo, instabilidade). Em certo sentido, o que eles chamam de “agenda democrática” – por mais que nada tenha a ver com alguma democracia – desempenhou papel importante para unir todo o mundo árabe contra os 1% apoiados por Washington. Nesse sentido, a Primavera Árabe foi levante contra o ben-ali-ismo e o mubarakismo, quer dizer, contra o sistema norte-americano de implantar ditadores locais superarmados. (O que se vê na Síria ajuda a lembrar que estamos assistindo à desintegração do cenário que a Guerra Fria construiu para o Oriente Médio, incluindo a parte soviética e menos importante).

Em 2004, Amr Moussa, diplomata egípcio, alertou o governo Bush de que invadir o Iraque seria “abrir as portas do inferno”. Claro: Washington não ouviu. Não era nem ditador nem general. Era apenas secretário-geral da insignificante Liga Árabe; que credenciais teria para explicar o mundo a Washington? Como depois se viu, Moussa acertou em cheio – embora sem saber no que acertara. Infelizmente, foi preciso esperar que acontecessem dois levantes de minorias, muito caos, milhões de exilados, uma amarga guerra civil (agora, já outra, na Síria) e necrotérios cheios até o teto de cadáveres, antes que a Primavera Árabe saísse às ruas. O movimento chamado “spring” [primavera], que é tempo de renovação, merece o nome também noutro sentido completamente diferente da palavra: o movimento é também “spring” [mola] que catapultou para ninguém sabe que direção, uma região chave do planeta.

Da Tunísia e Egito ao Bahrain, Arábia Saudita e Síria, vastas multidões tomariam as ruas, de início, em manifestações pacíficas, para protestar contra a corrupção e a depredação que os 1% implantaram em seus países com, em muitos casos, o apoio de potências estrangeiras. Ditadores começaram a cair e, enquanto caíam, começou a vir abaixo, quebrando nas emendas podres que ainda o mantinham de pé, um vasto sistema regional complexo, de corrupção e de brutalidade.

Hoje, para dizê-lo polidamente, aquele sistema está “em transição”. Mas o mais provável é que já esteja avançado no processo de colapso. O que virá depois, para substituí-lo, ainda não se sabe e talvez jamais se saiba, antes que aconteça. Daqui até lá, no vácuo que surgiu, brotaram todos os tipos de emoções cruas, amarguras, memórias reprimidas, esperança e desespero, boa parte do que ficou “contido” ao longo de anos, se não de décadas, inclusive extremismos, que são, sim, extremos, alguns dos quais ódios assassinos ou simplesmente ódios loucos. Um modo de vida, um sistema, no chamado “Oriente Médio Expandido” foi visivelmente atropelado, ultrapassado. Todos os dias há surpresas, que vão de manifestações de selvageria a matanças provocadas por um “trailer” de filme que ninguém viu ou verá, saído, não se sabe como, do sul da Califórnia.

A verdade é que – do Irã ao Iraque, ao Afeganistão, ao Paquistão, à Líbia, ao Iêmen – apesar de quatro anos de gerenciamentos e providência de Obama, apesar da guerra e apesar da diplomacia, ainda é o legado de Bush que ameaça fazer explodir pelos ares toda a região. Pode ainda acontecer a qualquer momento dos próximos 43 dias, até as eleições de 6/11. Essa é a razão pela qual, do Sudão à Líbia, o governo Obama faz como o menino que tentava conter a explosão da barragem tapando com um dedo cada orifício que via. No caso de Obama, a barragem prestes a explodir é o Oriente Médio Expandido. E Obama corre de buraquinho em buraquinho, e reza para que o tsunami não aconteça antes da eleição.

Um mundo em ponto de fervura

A questão, pois, da temporada política, nada tem a ver com Mitt e é a seguinte: o Oriente Médio Expandido poderá ser efetivamente gerenciado, o suficiente para que qualquer coisa potencialmente embaraçosa seja varrida para baixo de algum tapete e lá permaneça, até o dia 7/11? E, até aqui, só falamos de uma parte do mundo em ebulição.

As mesmas perguntas podem-se fazer à política de Israel para o Irã, com o Primeiro-Ministro Netanyahu sempre em trilha de guerra, literalmente, bem à vista do governo Obama. “Bibi” tem feito até o impossível para arrancar de Obama uma luz verde para que Israel ataque as instalações nucleares do Irã ou ultrapasse linhas vermelhas que levem àqueles ataques. Quem observe de fora, fica com a impressão de que “Bibi” aparece tantas vezes nas televisões dos EUA, que é como se o candidato fosse ele. De telefonemas na calada da noite, a torrentes de mensagens para Telavive, algumas com promessas, outras ameaçadoras, o governo Obama está consumindo enorme energia para assegurar-se que nenhum ataque israelense contra o Irã aconteça antes das eleições (e, parece, com razoável sucesso até agora). Mas ninguém esqueça que, para aplacar a fúria israelense, os EUA promoveram escalada gigante nas suas forças na região do Golfo Persa, a tal ponto que qualquer deslize, ali, qualquer acidente, pode levar à explosão que nem Washington nem Teerã desejam.

No que tenha a ver com a desintegração das posições norte-americanas no Afeganistão, depois de 11 anos depois de a vitória ter sido declarada, e o governo Bush ter decidido ocupar o país, em vez de voltar para casa, as notícias são péssimas. Toda a missão sobre a qual se apoia a retirada dos soldados combatentes norte-americanos – treinar os afegãos para que eles mesmos defendam seu país – já está comprometida, da base ao topo. Não é surpresa, mas agora, dia sim, dia também, os aliados afegãos de Washington revoltam-se, tomam as armas que os instrutores norte-americanos lhes deram e, com elas, despacham dessa para melhor os instrutores.

Simultaneamente, o real inimigo, os Talibã, que a “avançada” (surge) deveria ter varrido para sempre da terra natal deles, ao sul, acabam de lançar a ofensiva mais devastadora de toda a guerra contra uma base militar, que resultou em prejuízo de, no mínimo, $200 milhões de dólares para Washington e seus aliados. (É o primeiro ataque, pelos Talibã, que pode afinal ser comparado aos ataques que os vietnamitas lançaram contra bases dos EUA, nos anos 1960s). A questão é, mais uma vez: Washington conseguirá segurar-se no Afeganistão até o dia 7/11, mesmo que seja obrigada a suspender todas as missões de treinamento e operações conjuntas, e os soldados sejam mantidos fechados dentro das bases? A grande vantagem que o governo Obama leva nesse quesito é que o público, nos EUA, praticamente não dá qualquer atenção à guerra no Afeganistão. Mas, mesmo assim, a situação em campo é que a missão dos EUA está a um milímetro de implodir (já se ouvem vozes, algumas inesperadas, a favor de imediata retirada). E ainda nem se falou de um vizinho do Afeganistão, inquieto e não “contido”, além de nuclear: o Paquistão.

Não esqueçamos também que esse sistema regional que foi e continua a ser tão crescentemente perturbado do qual estamos falando está geograficamente localizado no coração que fornece energia ao planeta e, caso alguém não tenha percebido, sim, os preços da gasolina nos postos nos EUA, sim, andam subindo. Mas os sauditas prometeram jogar mais petróleo no sistema global… solução providencial para ajudar o governo Obama a segurar os aumentos de gasolina, sim, até 7/11.

Se alguém supôs que acabam no Oriente Médio os medos de Obama, de ser colhido por alguma surpresa antes das eleições de outubro, lembrem que o sistema mundial está em agitação. Há toda uma tremebunda Eurozona em recessão, todos os dias a um passo de partir-se em mil pedaços, com consequências inimagináveis para o sistema financeiro global; e, sim, também a economia chinesa, motor do planeta na década passada, em recessão (justamente quando também as potentes economias da Índia e do Brasil lutam contra as dificuldades), e por todo o mundo brotam sinais de feios levantes nacionalistas. E, OK, não falemos de mudança climática, do estado do planeta, das secas que assolam os campos plantados nos EUA e por outras partes do mundo, o que faz subir os preços dos alimentos, em ritmo que obriga a prever grandes fomes e futuros levantes populares em grande escala. Nenhum dos rastilhos acima mencionados pode queimar até a explosão, nos próximos 43 dias – para grande surpresa do mundo. Com o que teremos o presidente Obama reposto, lá, na presidência-caldeirão. Ah, e só estamos listando – como diria o ex-secretário de Defesa Donald Rumsfeld – os sabidos sabidos e os sabidos não-sabidos. Ninguém se atreve sequer a pensar nos não-sabidos não sabidos.

A esquerda bate em Obama porque não lutou pelas coisas em que acredita. Nos próximos 43 dias vê-lo-ão lutando como um leão. Obama está pronto a lutar ferozmente pelo seu emprego, fazendo o diabo para esvaziar qualquer possível embaraço, qualquer potencial surpresa de outubro – e convocou a força, o dinheiro e o Departamento de Estado para sua campanha. Quem queira distração leve de corrida de cavalos para as próximas seis semanas, fique bem longe das pesquisas de Ohio, Colorado e Virginia; esqueça os “resultados” dos próximos debates e decisões das cortes sobre novas leis para impedir que eleitores votem. Não haverá melhor show na cidade que as acrobacias que a turma de Obama fará, trabalhando para manter o desastre global longe das televisões, até dia 7/11.

Tudo isso deve servir de lição sobre o quanto uma superpotência em declínio pode (ou não pode) ainda fazer: ou narra uma fábula de fulgurante gerenciamento do poder e sorte, ou uma parábola sóbria, na qual a superpotência declinante já pouco controla, nesse nosso planeta comum de todos nós.

Enquanto isso, é Obama versus o mundo, e a pergunta é: chegará Obama até o 7 de novembro e ao segundo mandato? Entenda como “o problema de Obama”.

Mas há outro problema que perde de longe, desse, em termos de entretenimento, e preocupa poucos, nesse momento. Entenda como “o nosso problema”. O pessoal de Obama, compreensivelmente, está focado nas eleições. Dado que têm cabeça de gerentões, seus pensamentos, de qualquer modo, jamais avançariam até o longo prazo. Duvido que, até agora, tenham dedicado um segundo de reflexão sobre o que acontecerá se, como desejam, conseguirem manter tudo sob o tapete, por 44 dias inteiros. Vivem como se guerra contra o Irã, desastre no Afeganistão, caos no Oriente Médio, Eurozona em frangalhos, economia chinesa em recessão (num oceano de provocações em que os provocadores são navios de guerra armados com mísseis gigantescos), preços do petróleo na estratosfera, preços dos alimentos além da estratosfera, mudança climática e o resto, não permanecessem aí, também depois da vitória eleitoral. O nosso problema, pois, é que nenhum desses problemas, gerenciados ou não agora, e explodam agora ou não, será gerenciável por Washington, no longo prazo.

Para o resto de nós, portanto, a pergunta é: mas que diabo virá depois das eleições? Melhor que cada um comece logo a pensar sobre isso, porque o pessoal de Obama, por mais que desejem apaixonadamente continuar mandando por mais quatro anos, não faz a menor ideia!

Nota dos tradutores

[1] Referência a um spot da campanha de Bush (2004), que mostrava Kerry numa prancha de wind-surf, “movendo-se como sopre o vento”.

* TomDispatch. “Obama Against the World”

Tradução: Vila Vudu.

Fonte: http://redecastorphoto.blogspot.com.br/

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