Rico tem medo de pobre feliz

Por Luciane Recieri, para Desacato.info.

Outro dia fui a Belo Horizonte e me hospedaram num bonito quarto com vista para três roseiras e uma ladeira, coisa comum em Minas.

Era março e o verão dava seu gran finale: uma chuva incomum varria a cidade, digo incomum, pois assim me contaram que chove pouco em BH quando chega o outono, refestelavam-se, pois, com o aguaceiro que fechava o verão.

Era quase meia-noite e, junto do barulho do motor de um caminhão e da enxurrada, ouvia-se o riso genuíno de homens, que descobri depois, trabalhadores da “Coleta BH”.

A moça que aprontava meu quarto, abandonou a colchinha de chenille sobre a cama e veio ter comigo na janela: – A senhora entende tamanha alegria? Estão sempre assim…

Essa semana em São Paulo, depois de mais de cinquenta dias sem chuva, choveu com vontade, de modo que, na quarta-feira, a temperatura descambou dos confortáveis 22°C para 13°C e chove até o momento aquela chuvinha intermitente em pizzicato, aquela que dói feito choro de criança com fome.

Os trabalhadores da coleta daqui repetem o que os trabalhadores de BH fazem. Repetem, sem tirar nem por o que fizeram naquela noite enlamaçada no Caiçara: cantavam e corriam como se não ganhassem pouco como eu, professora de Sociologia. Abri a janela e ainda vi um deles rodando uma caixa de pizza no dedo, como se fosse um pandeiro.

Esse assunto de chuva é tão banal, principalmente diante do descalabro que assistimos nesse país, mas exatamente diante de tanto descalabro, quis entender o que fazia rir os trabalhadores da coleta embaixo da tempestade em BH ou da chuvinha cortante de SP.

Busquei na filosofia e vem o Aristóteles me dizer da eudaimonia que é, mais ou menos o estado de ser habitado por um “bom gênio”.

Já, para o rei da Lydia, Croesius, a felicidade consiste em não faltar nenhuma posse, enquanto para o sábio Sólon, só é possível se considerar feliz após a análise de toda a vida de uma pessoa, ou seja, após a morte. Enquanto o rei apontava que a felicidade poderia ser conquistada em posses, o sábio defendia que os acasos da vida seriam cruciais para fazer alguém feliz. (A senhora entende tamanha alegria?)

Às palavras da moça estendendo minha cama naquela noite, me vem apenas o riso franco de meu amigo Sócrates, não-o-filósofo, apenas o educador-cientista social-funcionário da Fundação Casa-bom baiano-bon vivant-um metro e quase dois-cozinheiro de mão cheia a nos explicar sábado desses numa ocupação na São João-Ipiranga:

– Sabem do quê rico tem medo?

A gente não sabia, assim como talvez a moça da pousada não soubesse dizer, embasbacados, ficamos fixos na figura risonha e didática ali na frente:

– Rico tem medo é de faca, de orixá e de pobre feliz.

(De pobre feliz!)

E Sócrates traça no sulfitão as palavras “manter status” e “viver”, está aí a diferença, fonte da dor e da felicidade: manter status e viver.

Sem querer romantizar a pobreza ou legitimar as péssimas condições de trabalho, naquela noite no Caiçara vi através da janela, homens habitados, vivendo o que de melhor tinham no momento: a chuva e seus companheiros; essa semana, o mesmo: homens habitados, vivendo.

Rico tem medo.

Luciane RecieriLuciane Recieri é cientista social e escritora, em Jacareí /SP.

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